ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS, ATENTADOS TERRORISTAS, CARTÃO CORPORATIVO, YANOMANIS, MORTES NA PANDEMIA. A CULPA É DO PT? (Parte 1)

Após a disputa eleitoral mais competitiva desde a redemocratização e uma campanha turbulenta e acirrada, marcada por uma divisão histórica no país, ataques nas ruas e nas redes sociais, episódios de violência, intervenção religiosa e preconceitos de credo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no dia 30 de outubro de 2022, foi eleito presidente da República, ao derrotar, no segundo turno, Jair Bolsonaro (PL), líder da extrema-direita.

De início, cabe destacar que as eleições presidenciais de 2022 entraram definitivamente para a história. Bolsonaro é o primeiro presidente brasileiro a não ter êxito na busca pela reeleição. Lula é o primeiro presidente do Brasil a conquistar três vitórias em eleições diretas – lembrando que Getúlio Vargas também foi presidente do Brasil em três oportunidades, todavia, em situações bem diferentes: Vargas se tornou presidente mediante um golpe, depois por eleições indiretas e, somente em 1950, alcançou o cargo máximo por meio de eleições diretas. Lula, ao contrário, consagrou-se vitorioso em três oportunidades e sempre por meio da vontade popular.

Em 2018, Lula, o líder mais carismático da esquerda latino-americana da atualidade, foi detido pela Operação Lava-Jato e, mesmo sem provas, ficou preso por 580 dias. É inegável que a condenação de Lula e a ampla divulgação por parte da mídia da narrativa do ex-juiz Sérgio Moro – que se comprovou mentirosa posteriormente – fez com que a popularidade do líder da esquerda no Brasil ficasse prejudicada, mas não o suficiente para perder as eleições. Mesmo em 2018, se Lula não tivesse sido preso, teria vencido o pleito eleitoral. Porém, o clima de mentiras e ódio que foi criado na esteira do processo foi bem usado pela extrema-direita para dividir a sociedade. Durante todo o governo Bolsonaro, o chamado “gabinete do ódio” foi determinante para a disseminação de notícias falsas, objetivando, dentre outras coisas, acabar com a imagem da esquerda e, principalmente, de Lula, a fim de manter Bolsonaro e a extrema-direita no poder. Após inúmeros recursos judiciais, a defesa de Lula demonstrou que não havia provas contra ele, bem como evidenciou a suspeição e a parcialidade de Sérgio Moro, o que possibilitou que Lula concorresse às eleições de 2022, obtendo êxito nas urnas. Parafraseando Vargas, Lula saiu da “cadeia para entrar na história”!

Apesar de Lula ter obtido vitória no pleito eleitoral de 2022, a sociedade encontra-se bastante dividida. Aliás, a própria vitória de Lula nas urnas foi por uma diferença apertada. Foi a menor diferença de votos da história entre os candidatos que disputaram o segundo turno. Lula (PT) foi eleito com cerca de 60,1 milhões de votos, enquanto Bolsonaro (PL), recebeu aproximadamente 58 milhões, quase 2 milhões a menos. As eleições de 2022 foram diferenciadas, pois o que realmente estava em jogo era a sobrevivência da democracia brasileira. Mas quais foram os motivos que levaram a democracia brasileira a ficar tão frágil? Os críticos da esquerda costumam dizer que a culpa do risco de uma ditadura militar e de outros problemas em nossa sociedade é do Partido dos Trabalhadores (PT). Há quem diga que, em 2018, a vitória de Bolsonaro, político há mais de 30 anos, com pautas preconceituosas e discriminatórias, sem projetos e até então desconhecido pela maioria da população, pode também ser atribuída ao PT, mais especificamente, a Lula. Mas será que isso é verdade? Será que o PT é vilão ou “bode expiatório”? Apesar de ter parcela de culpa, seria o PT o fator decisivo para a erosão de valores e princípios preciosos de nossa sociedade e sistema político? Para responder a essas questões é necessário entender quem é Jair Bolsonaro e como ele passou de um político de baixo clero a “mito”.

Em 27 anos como deputado federal, Jair Messias Bolsonaro aprovou apenas dois projetos de lei, seja devido à falta de qualidade técnica ou pelo conteúdo irrelevante ou prejudicial à sociedade brasileira de suas iniciativas parlamentares. Pode-se afirmar que Bolsonaro tenha ficado um pouco mais conhecido após o processo de impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, ocasião em que gerou polêmica ao dedicar seu voto ao torturador da ditadura militar e ex-chefe do DOI-CODI, Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Bolsonaro, seja como deputado federal, seja como presidente da República, sempre deixou claro que governava para um nicho de pessoas e não para o povo brasileiro, chegando a declarar que “as minorias devem se curvar à maioria” e que a “nossa bandeira jamais será vermelha”. Exclusão, disseminação de armas e uma onda crescente de violência, Fake News, intolerância religiosa e o uso da religião como instrumento político, apoio ao garimpo ilegal, política preconceituosa, negação de que parte da sociedade passava fome – mesmo havendo pessoas na fila do osso e tendo reintroduzido o Brasil no mapa da fome da FAO -, intervenção na Polícia Federal com o objetivo de proteger seus filhos, liberação de agrotóxicos14 mil pessoas foram intoxicadas por agrotóxicos durante governo Bolsonaro – negacionismo da ciência, atos antidemocráticos, desmonte ambiental, homofobia, misoginia, xenofobia, ofensa à imprensa, orçamento secreto e corrupção, gasto exacerbado do cartão corporativo, sigilo de 100 anos  – Bolsonaro impôs 1.108 sigilos de maneira injustificada – diminuição e desprezo pelos direitos trabalhistas e direitos humanos, conflitos com países amigos do Brasil, campanha antivacina e péssima atuação na pandemia, além de práticas golpistas. Essas são algumas marcas do governo Bolsonaro.

É verdade que Bolsonaro mostrou-se ineficiente em praticamente todas as áreas do governo, mas manteve discurso populista que focava em temas como anticorrupção, ameaça da esquerda e do comunismo e, logicamente, Deus, pátria e família. A máquina de propagandas, sobretudo digital, posta em ação por Bolsonaro e seus apoiadores fez do ex-presidente um símbolo da extrema-direita. Se é verdade que muitas pessoas votaram em Lula apenas para Bolsonaro não se reeleger, há também muitas pessoas que só votaram no “mito” para que o candidato do PT não tivesse êxito no pleito eleitoral. Contudo, vale uma ressalva: grande parte dos brasileiros que depositaram seu voto em Bolsonaro para evitar a vitória de Lula, foi movida por um ódio embasado, muitas vezes, em Fake News e na propagação de informações mentirosas, disseminadas inclusive pelo então juiz federal da 13º Vara de Curitiba, Sérgio Moro, informações essas que a maior parte da imprensa, de forma descuidada, deixou de fazer a devida checagem. A jornalista Christianne Machiavelli, que foi assessora de imprensa de Moro na Operação Lava-Jato, relatou que grande parte da mídia cobriu de maneira acrítica a maior operação policial da história do país. Machiavelli disse que “a imprensa comprava tudo e nem se dava ao trabalho de checar os conteúdos divulgados pela equipe da força-tarefa”. É inegável que a imprensa concedeu um espaço enorme para a Operação Lava-Jato e, consequentemente, a narrativa mentirosa sobre o “tríplex” e sobre o “sítio de Atibaia” fizeram com que muitos que admiravam Lula se decepcionassem e passassem a ter aversão ao líder da esquerda do Brasil. Com a descoberta do conluio entre Moro, o procurador Deltan Dallagnol, o TRF4 e o STJ e com a maior exposição de juristas que mostraram, desde sempre, não existirem provas contra Lula, parte considerável dos veículos de imprensa passou a expor, ainda que tardiamente, a realidade dos fatos. No entanto, a verdade que finalmente veio à tona não recebeu a mesma exposição que as narrativas mentirosas haviam recebido. O tempo da cobertura midiática para reproduzir as inverdades de Moro fora muito superior ao tempo alocado para informar posteriormente as inconsistências da sentença do ex-juiz, a armação jurídico-política contra Lula e a completa ausência de provas que o incriminassem. Com isso, há ainda muitas pessoas que, sem informação, apenas repetem: “Lula ladrão”, tendo como base a sentença de Moro, a qual carece de qualquer fundamentação jurídica! Ah, então Lula e o PT são inocentes? Essa é uma questão a ser abordada com maior detalhamento em momento oportuno. Mas o mais preocupante são as pessoas ainda acreditarem que Bolsonaro é um paladino da luta contra a corrupção, o que absolutamente não é verdade!

No próximo post, continuaremos analisando as circunstâncias que levaram a democracia brasileira a correr risco de extinção e até que ponto o Partido dos Trabalhadores é culpado pela a ascensão da extrema-direita em nosso país e pela eleição de Bolsonaro.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diálogo Político

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading