Cris Couto
Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro, já em total clima de campanha, manteve reuniões, no Palácio do Planalto, com o objetivo de angariar financiamento privado IRREGULAR para as eleições presidenciais. Sim, irregular, visto que o Supremo Tribunal Federal já julgou inconstitucional a atual legislação que permite que empresas façam doações para campanhas políticas.
No dia 7 de março, o presidente recebeu, fora da agenda oficial, um grupo de empresários do agronegócio autointitulado “Movimento Ação Voluntária Amigos da Pecuária” e o empresário Luciano Hang, figura patética que acha que ser patriota é vestir-se de palhaço verde e amarelo, e que almeja ingressar na política a qualquer custo. Esse grupo de empresários ficou conhecido por se mobilizar para financiar a campanha de reeleição do atual chefe do Executivo. Entre os presentes na reunião, estava Valdemar Costa Neto, presidente do PL, responsável pela estratégia de arrecadação de fundos para a reeleição de Bolsonaro. O encontro ocorreu um dia após o jornal Estadão ter revelado que alguns empresários estavam fazendo pedidos para a campanha de reeleição. O Estadão teve acesso a conversas de whatsapp, nas quais pessoas pediam contribuições para a campanha de reeleição do presidente e diziam que estavam falando em nome de Valdemar Costa Neto e do senador Flávio Bolsonaro, que é um dos coordenadores da campanha do pai. Apesar da simpatia pela reeleição de Bolsonaro, a maioria dos abordados se sentiu constrangida pela forma como foi feita a abordagem, segundo o jornal. Nunca é demais ressaltar que o presidente do PL já foi condenado e preso por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no escândalo do Mensalão. Flávio, o filho “zero um” do presidente, está sendo investigado por suspeita de se apropriar de salários de funcionários de seu gabinete quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. Onde está a nova política que Bolsonaro prometeu? Como já dito inúmeras vezes aqui neste blog, Bolsonaro nunca representou a nova política. Aliás, Bolsonaro é a fotografia da velha, abjeta e vil política.
Já no dia 8 de março, em um encontro com pastores e congressistas evangélicos, no Palácio do Planalto, Bolsonaro afirmou: “Eu dirijo a nação para o lado que os senhores assim desejarem. É fácil? Não é. Mas, nós sabemos e temos força para buscar fazer o melhor para nossa pátria”!. Tal manifestação é, no mínimo, inaceitável! Na ocasião, quando um dos convidados lembrou da facada sofrida pelo presidente, em 2018, a primeira-dama e o chefe do Executivo se emocionaram. O episódio da facada foi realmente abominável, e qualquer pessoa que preze pela democracia e pela vida humana deve repelir e condenar ações criminosas como essa. No entanto, verdade seja dita: o presidente soube tirar proveito desse episódio como ninguém! Sempre que Bolsonaro vê sua popularidade em queda, ele dá um jeitinho de relembrar a facada! Sem contar que, devido ao episódio, Bolsonaro teve uma desculpa preciosa para não participar dos debates políticos em 2018. E isso foi, sem dúvida alguma, tudo o que ele precisava para, juntamente com as FAKE NEWS, ter êxito no pleito eleitoral. Isso porque é notória sua incapacidade de articular argumentos minimamente coerentes e razoáveis. Sem “poder comparecer aos debates” ganhou pontos! Engraçado é que ele não podia ir a nenhum debate para expor seu projeto – o qual era inexistente, diga-se de passagem -, mas pode ir a unidade do BOPE da Polícia Militar do Rio de Janeiro e em diversos outros compromissos nesse mesmo período. Que coisa, né? Mas voltemos ao encontro com evangélicos. Bolsonaro afirmou, na ocasião, que resistiu à facada por um “milagre” e disse que “Não vai ser uma canetada que vai me tirar daqui. Quem me tira daqui é somente Deus. Não existe um ato meu, um discurso, uma ação, uma MP fora das quatro linhas (da Constituição Federal)”. O presidente aproveitou o palco montado para fazer diversos acenos à pauta conservadora. Disse que era o típico HOMEM DE BEM, que acreditava em DEUS e na valorização da FAMÍLIA. E, como não poderia deixar de fazer, aproveitou para salientar os riscos do socialismo e de uma possível vitória do Partido dos Trabalhadores (PT). Inacreditável!!!
Foram tantos absurdos, tantas falas populistas e tanta manipulação sórdida nessa reunião do dia 8 de março que fica até difícil começar a descrever o verdadeiro SHOW DE HORRORES que Jair Bolsonaro montou no Palácio do Planalto. Mas vamos lá. Para começar, o presidente insiste em usar a religião como instrumento político. O Brasil é oficialmente um ESTADO LAICO, pois a Constituição Federal previu a liberdade de crença aos cidadãos, além de proteção e respeito às manifestações religiosas. Mas o que significa ser um Estado laico? Um Estado é considerado laico quando há oficialmente a separação entre Estado e religião, ou seja, o poder público não permite a interferência de nenhuma crença ou grupo religioso em assuntos estatais. Além disso, há também a garantia de liberdade religiosa a todo cidadão: qualquer pessoa tem o direito constitucional de escolher qual religião pretende seguir ou, ainda, pode simplesmente escolher não ter religião alguma. Trata-se de uma escolha absolutamente pessoal! A história já mostrou como é perigoso e insensato misturar política com pautas religiosa! Até hoje, o mundo sofre com guerras absurdas motivadas por questões de cunho religioso. No plano nacional, ao afastar a interferência de grupos religiosos em questões políticas, o Estado garante e protege a liberdade de cada cidadão. Assim, o constituinte brasileiro decidiu, sabiamente, assegurar a laicidade do Estado no texto constitucional.
Bolsonaro, entretanto, como de costume, fere a Constituição Federal, tentando, de todas as formas, minar a laicidade do Estado brasileiro. Em 2018, por exemplo, durante a campanha eleitoral, o atual chefe do Executivo afirmou em discurso: “Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”. Mais uma vez, deve-se reconhecer que o presidente vem cumprindo, uma por uma, as promessas feitas durante o período eleitoral: está, paulatinamente, erodindo a laicidade do Estado brasileiro. O proselitismo religioso evangélico e o messianismo fanático usurparam a máquina estatal e passaram a ditar políticas públicas. O presidente foi nomeando seus “irmãos” para cargos de poder e colocando em prática suas crenças pseudomoralistas. Não importa se o indicado para o cargo tenha ou não competência. O que importa é afagar a “Bancada da Bíblia” e as lideranças evangélicas e garantir os milhões de votos dos eleitores dessas denominações religiosas. Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos humanos, bem como, André Mendonça, ministro “TERRIVELMENTE EVANGÉLICO” do Supremo Tribunal Federal, são exemplos de indicações do presidente que seguem essa estratégia.
No próximo post continuaremos analisando como Bolsonaro manipula questões morais e religiosas para fortalecer seu projeto de poder, ameaçando o Estado de Direito no Brasil.