“O CERTO PARA ACABAR COM AS FAKE NEWS É FECHAR A IMPRENSA”. Verdade isso?

Cris Couto

O presidente Jair Bolsonaro, em live transmitida pelo seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, no dia 15 de fevereiro deste ano, disse que “o certo para acabar com as fake news é fechar a imprensa”’. Não é de hoje o desprezo que o presidente tem em relação à imprensa.  Bolsonaro, ao dizer para jornalistas frases do tipo “vontade de encher tua boca de porrada, tá? Seu safado!“; “queria dar o furo”; “você tem cara de homossexual”; “imprensa lixo“; deixa claro que nunca teve apreço pelo trabalho jornalístico e pior, que o desrespeito contra a mídia vai de grosserias e xingamentos a ameaças que afrontam a própria liberdade de imprensa, direito garantido constitucionalmente. Não há democracia sem a presença de uma imprensa livre, que possa informar à população tudo o que acontece no país e no mundo! Mas o curioso na fala do presidente é que, com o objetivo de ganhar força junto à população, ele atribui à imprensa a disseminação de fake news. Para seus fiéis seguidores, esse subterfúgio sequer é necessário, pois eles não só apoiam tudo o que o presidente faz e fala, como são os primeiros a propagarem as mais absurdas fakes. A imprensa está longe de ser perfeita – falaremos disso em outra oportunidade -, mas quem tem a prática de usar FAKE NEWS como INSTRUMENTO DE PODER É A FAMÍLIA BOLSONARO E SEUS APOIADORES e não a imprensa. Na campanha presidencial de 2018, Bolsonaro se utilizou de inúmeras fake news para se eleger, tais como: o “kit gay” para crianças de 6 anos que teria sido distribuído nas escolas; Haddad teria defendido o incesto e o comunismo em um de seus livros; se Haddad chegasse ao poder, legalizaria a pedofilia; Adélio Prado (o homem que esfaqueou Bolsonaro) seria filiado ao PT (apoiadores do presidente chegaram a divulgar a montagem de uma foto de Lula em meio a uma multidão, que havia sido tirada em 2017, substituindo um dos rostos pelo rosto de Adélio); o caso da senhora que teria sido agredida por petistas na rua quando gritou o nome de Bolsonaro (tratava-se de uma imagem de 2013 da falecida atriz Beatriz Segall, depois de sofrer uma queda na rua). Mas a dúvida que fica é: por que Bolsonaro almeja tanto desacreditar a imprensa? Será pelo simples fato de que é a IMPRENSA que INVESTIGA e mostra à população as AÇÕES IMORAIS, INESCRUPULOSAS e, por vezes, CRIMINOSAS de Jair Bolsonaro e sua família?

Não resta dúvida de que o presidente é um dos maiores propagadores de notícias falsas a fim de se beneficiar politicamente. Ah, mas o presidente disse algumas coisas na campanha eleitoral apenas, não é? Não! Bolsonaro e seu clã continuam a desinformar constantemente a população. O presidente tenta impor à imprensa a pecha de propagadora de fake news quando, na verdade, é ele que se utiliza dessas notícias inverídicas para se sustentar no poder. Em 790 dias como presidente, Bolsonaro deu 2.507 DECLARAÇÕES FALSAS OU DISTORCIDAS, conforme o site Aos Fatos. Com fake news como “Vocês não têm mais história de kit gay em escola” (nunca existiu o chamado “kit gay”, propagado por Bolsonaro desde 2012); “O Brasil é o país que mais preserva seu meio ambiente” (conforme o Banco Mundial, o país ocupa a 30ª posição no ranking de países que mais protegem suas florestas);  “A nossa Bacia Amazônica não pega fogo”; (a Amazônia, apesar de úmida, pode sofrer incêndios por meio da ação humana); “Não houve loteamento de cargos” (desde o início do mandato de Bolsonaro, o Planalto negociou diversos cargos políticos com bancadas parlamentares, sem contar a atual aliança com o “centrão”); [ao defender o uso da cloroquina contra o covid-19] “Vai que lá na frente aconteça como aconteceu, um fato concreto, na Guerra do Pacífico, quando botaram água de coco na veia do soldado que tava morrendo por… por sangramento, por perda de sangue excessiva. E deu certo” (não há nenhuma evidência de que isso realmente aconteceu); “2 anos e 2 meses sem corrupção” (há integrantes do governo que são investigados pela Polícia Federal ou pelo Ministério Público por suspeitas de corrupção:  Chico Rodrigues, flagrado com cerca de R$ 30 mil na cueca em operação da PF que apura desvios de recursos públicos destinados ao combate à pandemia de Covid-19 em Roraima; Fábio Wajngarten, por suspeita de corrupção passiva, peculato e advocacia administrativa; Ricardo Salles, investigado pelo MP/SP por suspeita de enriquecimento ilícito entre 2012 e 2017; Onyx Lorenzoni, que confessou ter recebido R$ 300 mil de caixa dois entre 2012 e 2014 e, em agosto de 2020, fez um acordo com a PGR; etc.); “O estado que mais óbitos [por conta da pandemia] tem, por milhões de habitantes, é São Paulo” (Segundo o próprio do Ministério da Saúde, em 28/02, São Paulo é o nono estado com o maior número de mortes proporcionais ao tamanho da população); “Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas em todo o mundo devido a grande demanda de pedidos de vacinas e insumos, o Brasil é um dos países que mais vacinam” (levando em consideração o número de vacinados por 100 habitantes, nosso país está na 59ª posição, com apenas 3,97% de sua população vacinada); “Agora, não faz mal [o tratamento precoce]” (além de não serem eficazes no combate ao Covid-19, os medicamentos recomendados por Bolsonaro podem causar complicações de saúde como doenças hepáticas, renais, problemas cardíacos, gastrointestinais e neurológicos); “Qual país da América do Sul fez um plano emergencial? Pelo que eu sei, ninguém. Ninguém!” (Argentina criou  o “Ingreso Familiar de Emergencia”, no valor de 10.000 pesos (o que equivale a R$ 600); o Paraguai ofereceu uma ajuda de 548.210 guaranis (equivalente a R$ 420); Uruguai e Venezuela também concederam auxílio emergencial aos vulneráveis); “Pelo que eu tenho em mãos, não vou discutir com vocês esse assunto, eu fui eleito no primeiro turno” (não há provas nem indícios de tais alegações); “uma universidade alemã fala que elas [máscaras] são prejudiciais a crianças. E levam em conta vários itens aqui como irritabilidade, dor de cabeça, dificuldade de concentração, diminuição da percepção de felicidade, recusa em ir pra escola ou creche, desânimo, comprometimento da capacidade de aprendizado, vertigem e fadiga” (trata-se de um questionário preenchido pelos próprios pais com base em sintomas que eles mesmos associaram ao uso das máscaras). Ora, todas as fakes são repugnantes, mas noticiar falsamente que o uso de máscaras é prejudicial à saúde, no momento mais grave da pandemia no Brasil é, no mínimo, duplamente criminoso: crime pela divulgação de fake news e crime contra a saúde pública.

Mas a imprensa persegue o presidente, né? Claro que não! Em regra, a imprensa trabalha com FATOS. Se há fato, há notícia. É obvio que estamos falando da imprensa séria e não aquela que se vende a propósitos inconfessáveis. Por exemplo, há parte da mídia que sequer relata a tragédia que está acontecendo no Brasil atualmente, apenas para não desagradar o presidente. Se Bolsonaro não quer ser manchete ruim, basta agir corretamente! Há atos com os quais se pode concordar ou não, dependendo da ideologia seguida ou do entendimento pessoal de cada indivíduo. Em contrapartida, há atos que, independentemente da posição ideológica, constituem erros, crimes, descaso, omissão, etc. Deixando por um segundo qualquer ideologia ou preferência de lado, o que se espera que a mídia diga de um presidente que menospreza a maior pandemia já enfrentada pelo mundo, indica medicamentos que não possui eficácia científica, gera e incentiva aglomeração na pandemia, debocha do uso de máscara, desdenha das mortes de seu povo, intervém na Polícia Federal para impedir a investigação de supostos crimes de sua família, ameaça intervenção militar, agride a todo tempo a imprensa, deixa de pagar leitos de UTI’s no pico da pandemia, briga diariamente com governadores, diz que não dará auxilio emergencial aos estados que decretarem lockdown, não se importa com pessoas morrendo sem oxigênio em Manaus – aliás, o clã Bolsonaro incentivou as pessoas a protestarem contra o governador que estava impondo medidas restritivas – , dentre outras AGRESSÕES DIÁRIAS cometidas por Bolsonaro? Será que com tais ações o presidente esperava aplausos? Impossível, né?

É a imprensa que traz à público coisas que, por vezes, Bolsonaro quer deixar escondido. O senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, aprontou mais uma! O filho primogênito do capitão comprou uma MANSÃO DE R$ 5,97 MILHÕES DE REAIS EM BAIRRO NOBRE DE BRASÍLIA. Nas eleições de 2018, Flávio declarou ao TSE possuir um patrimônio de R$ 1,74 milhão. Qual é o problema? Ele não é senador? Este é o problema! O salário de um senador é de R$ 33.763,00, sendo que o valor líquido é de R$ 24.906,00. Um ótimo salário, é verdade, mas que jamais faria alguém possuir um patrimônio tão valioso e tantos imóveis (19 imóveis, alguns pagos com DINHEIRO VIVO) e, agora uma mansão de 2,4 mil metros quadrados. A assessoria de Flávio afirmou que a mansão foi comprada com recursos próprios do parlamentar, sendo que parte do valor do imóvel (3,1 milhões) teria sido financiada pelo Banco de Brasília. Ah, então tá explicado, né? Claro que não!!! Para começar, como Flávio Bolsonaro conseguiu, apenas exercendo mandatos parlamentares, comprar 19 imóveis e ainda uma loja da Copenhagen? Como conseguiu obter um patrimônio tão elevado com uma carreira política tão curta (iniciada em 2003)? Como ele pretende pagar as parcelas do tal financiamento? Com o salário de deputado ou senador, não seria possível. Segundo investigações do MP/RJ, o esquema das “rachadinhas” que beneficiou o “zero um” teria movimentado cerca de R$ 2,3 milhões, mas isso pode ser apenas a ponta do iceberg. O problema é que a 5ª Turma do STJ decidiu anular (!) a quebra de sigilo de Flávio Bolsonaro, o que dificulta desvendar como pode um parlamentar possuir tantos bens. Além disso, a nova promotora que investiga Flávio Bolsonaro é madrinha de casamento (!!) da advogada de Flávio. E a namorada do empresário que vendeu a mansão ao “zero um” é uma juíza que auxiliou um dos ministros do STJ (!!!). Verdadeira excrecência jurídica! Ao ser questionado sobre essa decisão do STJ, o presidente Bolsonaro apenas disse “Acabou a entrevista aí”, agindo de forma autoritária, como de costume. Mas o que interessa saber da compra de uma casa por um senador? Interessa muito, principalmente se esta compra se deu com dinheiro fruto de corrupção!

Não seria certo culpar a imprensa pelos atos cometidos pelo presidente e seu clã. A mídia não induz o presidente a desprezar a pandemia, não indica cloroquina, não é contra o uso de máscara, não compra imóveis de forma suspeita, não recebe 89 milhões do Queiroz, não faz aglomerações, não diz que quem tomar a vacina irá virar jacaré, não incita violência, não faz arminha com a mão, não é racista, não é homofóbica, não compra imóveis com dinheiro vivo, não é inimiga do meio ambiente, não idolatra torturadores, não é amiga de milicianos, não ameaça governadores que, de forma desesperada, decretaram lockdown, não faz intervenção na Polícia Federal, nem na Petrobrás, não desdém dos mais de 260 mil mortos! A MÍDIA APENAS RELATA FATOS, a fim de trazer conhecimento aos brasileiros de tudo o que está acontecendo, – tal como a notícia da compra descabida da mansão do filho do presidente. E contra fatos, não há argumentos!

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