Cris Couto
Como vínhamos discutindo nos posts anteriores, o assassinato do petista Marcelo Aloizio de Arruda pelo policial bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho, por motivação meramente política, foi em grande parte motivado pela retórica violenta do presidente Bolsonaro e seus seguidores.
Diante de uma situação terrível e assustadora como foi esse crime, onde os filhos da vítima assistiram a morte de seu pai, no dia de seu aniversário, devido a uma disputa ideológica, onde as “armas” deveriam ser os argumentos e o diálogo, e não um assassinato a sangue frio, o que se esperaria de um presidente da República? Que viesse a público, repudiasse o ato violento e, principalmente, prestasse assistência à família da vítima, certo? Pois bem, este seria o certo. Bolsonaro, entretanto, não tem empatia por ninguém. O presidente, simplesmente, ficou calado.
Quando viu a repercussão do assassinato, Bolsonaro disse apenas: “Não tenho nada a ver com isso”! Em seguida, começou a lembrar da facada que sofreu, em 2018. Inacreditável! Bolsonaro só pensa em si, não consegue reconhecer seus erros e, pior, seus crimes, pois muitos foram cometidos durante seu mandato. É evidente que quando estimula o uso indiscriminado de armas de fogo, prega a luta do “nós contra eles”, encara uma disputa presidencial como se fosse uma guerra, espalha mentiras, por vezes, gravíssimas contra seus opositores, estimula que apoiadores mais fanáticos possam chegar a atitudes criminosas, como a de Guaranho. Sem contar o fato de que o indulto individual que o presidente deu, de forma ilegal e inconstitucional ao deputado federal Daniel Silveira, condenado pelo Supremo Tribunal Federal, estimulou ainda mais atos violentos, pois os seguidores do presidente acreditam que também serão perdoados pelo chefe do Executivo.
Mas a repercussão do triste episódio não estava sendo nada favorável ao presidente, ainda mais em ano de eleição. Foi quando Bolsonaro descobriu que a vítima, petista, tinha dois irmãos que eram bolsonaristas, José e Luiz Arruda, que, inclusive, nem estavam na festa onde ocorrera o crime. O deputado bolsonarista Otoni de Paula articulou uma vídeochamada do presidente com esses dois irmãos da vítima. E o mais estarrecedor é que, durante a ligação, Bolsonaro ficou todo o tempo se defendendo, não prestou solidariedade, e ainda convidou os irmãos para um encontro em Brasília.
Cumpre frisar que Bolsonaro NÃO LIGOU NEM PARA A VÍÚVA DA VITIMA, NEM PARA OS FILHOS. O filho mais velho da vítima, de apenas 14 anos, achou que a atitude do presidente foi lamentável e desrespeitosa. Apenas manteve contato com os irmãos bolsonaristas que, pelo que tudo indica, nem eram próximos da vítima.
Pâmela Suellen Silva, viúva de Marcelo Arruda acusou Bolsonaro de usar o crime para se beneficiar politicamente, ao dizer que: “Acredito que Bolsonaro está preocupado com a repercussão política, porque, tanto no vídeo que fez no cercadinho como no que conversa com os irmãos do Marcelo, Bolsonaro diz que estão tentando colocar a culpa nele. Possivelmente, estão preocupados só com a própria imagem”.
E como todo bom bolsonarista fanático, José Arruda, um dos irmãos do petista Marcelo Arruda, foi à Brasília, falar pessoalmente com Bolsonaro. O irmão de Marcelo, José Arruda, estava acompanhado do governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Júnior (PSD), e do deputado Otoni de Paula (MDB-RJ). Bolsonaro salientou que se encontrou com o irmão bolsonarista de Marcelo Arruda com o intuito de desconstruir a narrativa de que a motivação do crime havia sido política. Ou seja, o único objetivo foi se auto preservar, afinal de contas, estamos em ano eleitoral!
Mas desse encontro entre o presidente e o irmão BOLSONARISTA da vítima assassinada, o mais repugnante foi a foto que tiraram. O único a dar risadas foi, justamente, o irmão BOLSONARISTA de Marcelo Arruda, que acabara de ser enterrado. Com isso, pode-se perceber que o fanatismo político e a alienação provocados por Bolsonaro estão tendo efeito devastador para o Brasil e, infelizmente, levará muito tempo para que o mínimo de civilidade volte a existir em nosso país. Mesmo que Bolsonaro não venha a se reeleger, os bolsonaristas continuarão a propagar as truculências e atos violentos contra o Estado Democrático de Direito e contra aqueles que pensam de forma diferente. Vejamos a foto:

E somente para ressaltar o lado SOMBRIO E SEM EMPATIA DE BOLSONARO, cabe destacar que, no “cercadinho”, o presidente tentou – e continua tentando em entrevistas e lives – culpar a vítima pelo seu assassinato!!! Olha o absurdo e a insensatez de Bolsonaro que, com mais essa atitude, “dá carta branca” para que novas mortes e crimes ocorram, por motivação política. O presidente chegou a afirmar que a culpa da morte do tesoureiro do PT foi do próprio tesoureiro que não tinha nada que sair do salão de festas com pedras contra o bolsonarista. Primeiro que não havia pedra alguma; segundo que o bolsonarista não deveria ter ido até o salão de festar provocar confusão; terceiro que o bolsonarista chegou atirando, ao retornar ao local. Falas absurdas, sensacionalistas e que visam apenas se auto proteger das inúmeras incitações ao crime, feitas pelo presidente. Bolsonaro também tentou defender o assassino, dizendo que petistas estavam chutando sua cabeça. Sim, houve chutes, justamente com o objetivo de que Guaranho parasse de atirar e fosse desarmado, havendo nesse caso inequívoca legitima defesa. Além disso, os dois rapazes que na imagens aparecem chutando o assassino, são BOLSONARISTAS. Era uma festa de aniversário e não um comício, portanto, nem todos que lá estavam eram apoiadores de Lula, Ciro ou Bolsonaro!
Desde o homicídio de Marcelo Arruda até hoje, vários outros crimes e atos truculentos fundamentados no ódio bolsonarista ocorreram, tal como o caso dos policiais militares que agrediram um casal, em uma praça pública no município de Paineiras, no Centro-Oeste de Minas, sem motivo algum.
Com a tensão do pleito eleitoral, com as Fake News, prática muito bem utilizada pela família Bolsonaro, com a PEC 16 que liberou milhões de reais para “compra de votos” e, principalmente, o uso político da religião, tal como Michelle Bolsonaro vem fazendo, desqualificando as demais religiões e dizendo milhares de mentiras sobre Lula, como se ele fosse Satanás, justamente por respeitar a liberdade religiosa e entender que o Brasil é um país laico, as violências e mortes podem aumentar de maneira inimaginável. Aliás, foi Lula quem sancionou a lei de liberdade religiosa.
Há que se tirar um aprendizado de toda essa situação: para que esses tempos sombrios passem, é urgente que sejam feitos esforços no sentido de se construir uma educação política da sociedade. O povo, principalmente, o mais carente, não sabe o que significa ser de direita, ser de esquerda, quais são as pautas da direita e quais são as pautas da esquerda. De igual forma, não sabem o que significa capitalismo, liberalismo, socialismo, comunismo ou pautas progressistas. Os políticos costumam demonizar, por exemplo, o comunismo, apontado os crimes cometidos por Stalin e outros ditadores, mas jamais leram sequer uma página de Marx. Com uma educação política para todos, acredito que os eleitores brasileiros serão livres para votar no que acreditam, no que pleiteiam para si e para o Brasil. Do jeito que estamos, os eleitores, principalmente, os mais carentes, que representam a maior parcela da população, ficam reféns de políticas populistas, como o aumento para R$ 600 reais no Bolsa Família (auxilio emergencial), das Fake News e, infelizmente, do uso indevido da religião como instrumento de poder.