Cris Couto
A guerra de narrativas está cada vez mais acirrada. O ódio deixou de ser apenas um discurso contra uma ideologia diversa. Passou a ser praticado por meio de violência – muitas vezes instigada pelo ex-presidente Bolsonaro – e assassinatos inexplicáveis como os tristes exemplos que na sequência serão lembrados: 1-) Genivaldo que, covardemente, foi torturado e assassinado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), por meio de uma CÂMARA DE GÁS IMPROVISADA; 2-) o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips que passaram suas vidas na defesa do meio ambiente e dos povos indígenas e que FORAM MORTOS A TIROS, COM MUNIÇÃO DE CAÇA; 3-) Marcelo Aloizio de Arruda, guarda municipal e tesoureiro do PT, que estava na comemoração de seus 50 anos com sua família, quando foi assassinado pelo policial federal Jorge José da Rocha Guaranho, apoiador do presidente Bolsonaro que, na ocasião, gritou “aqui é Bolsonaro!”; 4-) Edgar Ricardo de Oliveira, de 30 anos, e Ezequias Souza Ribeiro, de 27 anos, ambos apoiadores do ex-presidente Bolsonaro, após perderem um jogo de sinuca, no interior do Mato Grosso, mataram sete pessoas, incluindo uma criança.
É obvio que o ex-presidente Bolsonaro não montou a câmara de gás improvisada, nem puxou o gatilho das armas que foram instrumentos dos crimes em questão. Contudo, é inegável que Bolsonaro, com seu discurso de ódio, sempre buscou dividir a sociedade e passou todo o mandato presidencial pregando que todo “homem de bem” tivesse sua arma. Ora, um presidente deve trabalhar para assegurar segurança pública de qualidade e não fomentar o uso de armas de forma discriminada pela sociedade gerando, com isso, maior possibilidade de violência e crimes. Bolsonaro chegou a dizer para apoiadores no famoso “cercadinho” que “O CAC [Colecionador, Atirador desportivo e Caçador] está podendo comprar fuzil. O CAC, que é fazendeiro, compra fuzil, o 762. Tem que comprar é… tem que todo mundo comprar fuzil, pô. O povo armado jamais será escravizado. Eu sei que custa caro. Tem um idiota: ‘ah, tem que comprar é feijão’. Cara, se não quer comprar fuzil, não enche o saco de quem quer comprar”. Vendo a triste notícia dos nordestinos que estavam em condição análoga à escravidão no sul e no centro-oeste do país, será que Bolsonaro tinha razão? Ele estava querendo defender mesmo a liberdade das pessoas? É claro que não! Violência gera mais violência. Além disso, o ex-presidente nunca se importou com o bem-estar da população de baixa renda e com os trabalhadores brasileiros. Prova disso é que Bolsonaro, em evento com empresários, atacou o combate ao trabalho escravo e a atuação do Ministério Público do Trabalho (MPT). O ex-mandatário ainda afirmou que normas que buscam evitar acidentes de trabalho atrapalham a vida do empresariado! Conforme o discurso contraditório e populista do “mito”, a população armada poderia defender a liberdade. Na verdade, Bolsonaro lutava mesmo pela liberdade, mas não a liberdade do povo, nem do Brasil, e sim a sua liberdade. O ex-presidente sempre teve consciência de seus atos e que ele e sua família poderiam vir a ser processados criminalmente. Sabia da possibilidade de ser condenado e preso. Assim, buscou armar seus apoiadores, com vistas a possivelmente desencadear uma ação armada em sua defesa e sua continuidade no poder, por meio de um golpe de Estado. Para tanto, contava com a ajuda de parte das Forças Armadas e parte da população. Em resumo, Bolsonaro, mesmo que indiretamente, tem responsabilidade nos crimes movidos por ódio e pelo sentimento de superioridade de parte da população.
Outro triste exemplo do ódio fomentado pelo então presidente Bolsonaro são os atos terroristas do dia 8 de janeiro: bolsonaristas enlouquecidos, movidos pelo discurso de ódio propagado pelo ex-presidente da República, financiados por parte da elite que se beneficiava com Bolsonaro no poder e protegidos por parte dos militares e da polícia distrital – há imagens que mostram policiais militares do Distrito Federal conversando e protegendo manifestantes bolsonaristas enquanto uma multidão invadia o Congresso Nacional -, foram à Brasília e destruíram os prédios e bens do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Mais de cem ônibus se dirigiram ao Distrito Federal. Alguns dos manifestantes, no entanto, já se encontravam concentrados no Quartel-General do Exército. Obviamente, houve policiais e militares que não aderiram aos atos golpistas e, dentre esses, alguns defenderam o patrimônio público com bravura e alguns foram, inclusive, gravemente feridos – os vândalos derrubaram um policial, que foi linchado, e agrediram cavalos de forma covarde. Os atos do dia 8 de janeiro possuem caráter GOLPISTA e de VANDALISMO. De forma leviana, Bolsonaro afirmou que “Teve aquele caso lamentável em 8 de janeiro, o ‘Capitólio Tupiniquim’, estão chamando de terroristas. A nossa legislação quando fala em terrorismo tem que ter algo voltado às questões raciais ou voltada à xenofobia, fora isso não é terrorismo. A esquerda queria assinatura, CPI. Alguns dias depois, voltaram atrás, ‘não quero mais CPI’. Eles sabem o que aconteceu”. Na verdade, Bolsonaro está louco para que a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) seja instalada, pois seria mais uma “cortina de fumaça”, a fim de esconder verdadeiros crimes. Toda CPI é necessária para investigar e reunir indícios e provas. No caso em tela, os atos de vandalismo foram gravados e houve prisão em flagrante. Toda e qualquer apuração posterior já está sendo feita pela Polícia Federal, o que prova a completa desnecessidade de qualquer tipo de Comissão Parlamentar de Inquérito. A família Bolsonaro, bem como seus apoiadores, não consegue entender que o ex-presidente perdeu as eleições. Bolsonaro, mesmo antes do pleito eleitoral, temendo uma possível derrota, passou a contestar a lisura das urnas eletrônicas. O mais inacreditável é que Bolsonaro, assim como seus filhos, se elegeu várias vezes por meio das urnas eletrônicas e nunca houve nenhum tipo de contestação. No dia 11/02, nos Estados Unidos, Bolsonaro, em uma reunião com evangélicos, voltou a questionar o resultado eleitoral ao dizer que “Pelo menos diante do TSE, não consegui ser reeleito”. O ex-presidente parece aquele menino mimado que, ‘quando eu ganho é porque sou perfeito, quando perco é porque roubaram e não quero mais brincar’. Chega de “mimimi”!
Após passar 3 meses nos EUA, gastando dinheiro público, Bolsonaro voltou para o Brasil e, esquecendo-se de que NÃO É MAIS PRESIDENTE DA REPÚBLICA, se queixou da falta de carros blindados! Ora, quer carro blindado, que pague por conta própria! Ah, mas Bolsonaro não é acostumado a pagar nada. Ele é acostumado a usar recursos públicos para seu próprio benefício, inclusive o aumento de seu patrimônio pessoal. Bolsonaro gastou R$ 630 mil da União nos três meses em que ficou EUA. Ah, mas Lula gastou 400 mil reais para comprar móveis sem licitação para o Palácio do Alvorada. Ora, o atual presidente foi compelido a comprar os móveis – 379 mil reais para a recomposição do mobiliário -, pois Bolsonaro levou ou destruiu diversos bens do Alvorada! Tapetes e sofás rasgados, piso danificado, infiltração, ausência de móveis e de obras de arte, que não foram encontrados no local e ainda não foram localizados. Carpas e emas mortas. O Palácio do Alvorada foi concebido por um dos mais importantes arquitetos do mundo, o brasileiro Oscar Niemeyer, abrigando obras de artistas renomados e móveis assinados por designers brasileiros e estrangeiros, como: tapeçaria de Concessa Colaço, duas telas de Cândido Portinari, tapeçaria Múmias, de Di Cavalcanti, dentre outras obras de artistas consagrados de renome mundial, como Djanira da Motta e Alfredo Volpi. Os móveis originais do Palácio foram projetados pelo arquiteto alemão Mies Van der Rohe e pela arquiteta Anna Niemeyer. Lula, para poder entrar no Alvorada, teve que restaurar o prédio e comprar móveis. Gastou cerca de 400 mil reais, mas esses móveis são do Palácio e não do presidente. Lula, inclusive, já apresentou um projeto para que o Alvorada seja declarado patrimônio cultural brasileiro (PL 350/23). O acervo do Alvorada é patrimônio público e parte de nossa história! Lula irá reabrir o Alvorada para visitação pública, o que foi proibido no governo de Bolsonaro. É notório que Bolsonaro destruiu parte desse acervo e sumiu com outra parte. Isso deveria causar indignação a todos os brasileiros. Porém, para os bolsonaristas, parece que nada disso aconteceu. Os apoiadores de Bolsonaro ficam repetindo: Lula gastou 400 mil reais sem licitação! Alguém avisa que: 1- sem licitação porque a lei assim o prevê; 2- gastou porque precisava morar no Alvorada, que estava inabitável, pois tudo havia sido levado pelo “mito”; 3- os móveis não serão retirados do palácio quando terminar o mandato de Lula. Infelizmente, parece que os bolsonaristas vivem uma realidade paralela!
O mais inacreditável são os bolsonaristas que seguem o “mito” e acreditam em tudo o que ele fala. Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), sabiamente, soube definir muito bem como surgiram os bolsonaristas e no que eles se transformaram. Afirmou o ministro: “o que surgiu de uma maneira democrática [redes sociais] foi capturado pelos populistas, principalmente pela extrema direita, e transformado em um mecanismo de lavagem cerebral. Essa lavagem cerebral transformou pessoas em zumbis, pessoas repetindo ideias absurdas, pessoas cantando o hino nacional para pneus, esperando que ETs viessem para o Brasil resolver o suposto problema da urna eletrônica. O que poderia ser uma comédia é uma tragédia, que resultou na tentativa frustrada de golpe no 8 de janeiro”. Os fatos relembrados por Moraes parecem ter sido tirados de uma obra de ficção mas, infelizmente, aconteceram. Os apoiadores mais fanáticos do ex-presidente Bolsonaro chegaram ao absurdo de colocar celulares sobre a cabeça para pedir que extraterrestres viessem ajudar as Forças Armadas a consolidarem um golpe militar! Trata-se de um grupo que sempre nutriu ideias racistas, preconceituosas, homofóbicas, machistas e xenófobas, mas até o advento “mito” tinham vergonha de suas crenças e (des)valores.
É inconcebível que ainda haja pessoas que defendam Bolsonaro, mesmo após o desastre na condução da pandemia e todos os absurdos ditos e praticados pelo ex-presidente, bem como seu descaso com as pautas mais necessárias e urgentes ao país. O pretexto de muitos eleitores para justificar o voto em Bolsonaro, que, por sinal, nunca teve uma agenda ou projeto de desenvolvimento para o Brasil, era a luta contra a corrupção. Porém, como será visto no próximo post, esse pretexto, que nunca se sustentou, mostra-se hoje ainda mais inconsistente.