No dia 1º de janeiro de 2019, em seu discurso de posse, o presidente Jair Messias Bolsonaro disse que a bandeira do Brasil “jamais será vermelha”. Hoje, no entanto, a bandeira brasileira, a NOSSA bandeira está toda manchada, não só de vermelho, mas também de preto. O vermelho não é devido a nenhuma ideologia, antes fosse, pois em uma democracia, a disputa e o debate político e ideológico não só devem ser respeitados, como louvados, haja vista que são por meio desses debates que se originam grandes ideias e alguns consensos que só fazem bem à população. Mas o vermelho que assola hoje nossa bandeira é devido ao sangue de milhares de brasileiros que perderam suas vidas. O preto, por sua vez, reflete o luto de familiares e o obscurantismo que permeia nossa sociedade.
O Presidente, que gritava que jamais nossa bandeira seria vermelha, em muito contribuiu para as manchas de sangue em nosso principal símbolo nacional. Com discurso negacionista, Bolsonaro, desde o início dessa terrível pandemia, se mostrou indiferente à vida das pessoas. Com frases como “é só uma gripezinha”, “vamos todos morrer um dia”, “Eu não sou coveiro, tá certo?”, “O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque”, “Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. É a vida. Você não pode parar uma fábrica de automóveis porque há mortes nas estradas todos os anos”, “Muito do que falam é fantasia, isso não é crise”, “Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus”, “A previsão é não chegar a essa quantidade de óbitos [796] no tocante ao coronavírus”, “Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia na questão do coronavírus”, “Não estou acreditando nesses números [de mortes divulgadas pela Secretaria de Saúde de São Paulo]”, “Se o vírus pegar em mim, não vou sentir quase nada. Fui atleta e levei facada”, “Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína”, “No mais, essa mesma rede de TV desdenhou, debochou e desestimulou o uso da Hidroxicloroquina que, mesmo não tendo ainda comprovação científica, salvou a minha vida e, como relatos, a de milhares de brasileiros”, “Tem algum médico aí? A eficácia dessa máscara é quase nula”, “E dai?”, E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, Bolsonaro minimizou a gravidade do vírus, defendeu a massificação de medicamentos não aprovados pela comunidade científica, se insurgiu contra o isolamento social e foi contra até mesmo o uso de máscara.
Agindo contra todas as recomendações científicas e da OMS, Bolsonaro tentou proibir que prefeitos e governadores determinassem o isolamento social, sempre se baseando na desculpa (frágil) de que a economia não iria suportar. O Supremo Tribunal Federal teve que intervir e, por unanimidade, reconheceu a competência concorrente dos estados, municípios e do Distrito Federal no combate à Covid-19, conforme o art. 23, inciso II da Constituição Federal. Mas isso afasta a competência e a responsabilidade do governo federal? Claro que não! Como dito, a competência é CONCORRENTE, o que significa dizer que, além do governo federal, os governos estaduais e municipais têm o poder para determinar regras de isolamento, quarentena e algumas restrições, desde que se mostrem necessárias à realidade local. Na prática, a decisão do Supremo permitiu que governadores e prefeitos pudessem impor restrições e medidas mais duras do que as definidas pelo governo federal. Ninguém melhor do que o prefeito ou o governador para saber o que se faz imprescindível em sua cidade ou estado, não é? Mas, desde então, Bolsonaro usa essa decisão do STF para tentar se esquivar de responsabilidade diante da pandemia, dizendo que “se o Supremo não tivesse me proibido, eu teria um plano diferente do que foi feito, e o Brasil estaria em situação completamente diferente”, usando de inverdades e tendo como único foco as eleições de 2022.
Ora, por óbvio que o isolamento social e, por conseguinte, o fechamento de indústrias, comércio e demais ramos da economia gera problema econômico. Nunca ninguém disse o contrário. Mas esse é um problema que o mundo teve que aprender a enfrentar. Todos os países tiveram problemas em suas contas públicas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu um encolhimento na economia mundial de 4,4% em 2020 e afirmou que a recuperação econômica será “longa, irregular e incerta”. Muitas empresas no Brasil e no mundo tiveram suas atividades cessadas e, com isso, o número de desempregados aumentou consideravelmente. Então Bolsonaro tinha razão e não deveria ter tido isolamento social? Obvio que o presidente estava errado! Não há que se pôr em disputa a vida ou o emprego. Em primeiro lugar está a vida! De nada adianta preservar o emprego e morrer, não é? Além disso, faltou planejamento governamental. A pandemia demorou alguns meses até chegar ao Brasil, mas sabíamos que iria chegar. O governo federal teve tempo para fazer um plano econômico e sanitário para enfrentar o coronavírus, diferentemente de alguns países asiáticos e europeus que foram pegos de surpresa pelo vírus. E quais foram os planos? Nenhum, pois seria apenas uma “gripezinha”, né?
Para salvaguardar a vida e diminuir o risco do desemprego havia a possibilidade de home office para alguns tipos seletos de funcionários. Mas poderia ter havido algumas ideias, tais como: fábricas que iriam ser fechadas poderiam passar a fabricar, por exemplo, respiradores ou algo que fosse imprescindível ao combate da Covid-19, ou seja, alocação de mão de obra. O auxílio emergencial deveria ter sido algo planejado e verdadeiramente humanitário, além da inclusão digital e auxílio alimentação para as crianças matriculadas na rede pública, etc. Isso tudo é fácil? Não, mas é possível mediante planejamento e “logística”.
Mas houve auxilio emergencial, não? Sim, o auxílio emergencial é uma espécie de ajuda às pessoas mais carentes em meio ao isolamento social. A iniciativa para que houvesse esse auxílio foi do Poder Legislativo e, depois de muitos embates, o Ministério da Economia aceitou a implementação de um programa assistencial temporário para o pagamento de uma renda de 600 reais. Mas como esse auxílio chegaria aos necessitados? Banco? Como fazer o cadastro para se obter o auxílio? Seria necessário ter conta corrente? Mais uma vez, nos deparamos com mau – ou nenhum – planejamento. Confusão e incertezas. Alguns meses depois do início do pagamento do auxílio ainda havia pessoas necessitadas sem receber. E pior, pessoas que não faziam jus a tal benefício, incluindo alguns militares, receberam o auxílio. Isso só comprova a falta de planejamento, inexistência de logística.
Mas o Brasil tem dinheiro para enfrentar a pandemia? Há no mundo cerca de 190 países. O Brasil, até 2017, era a oitava maior economia do mundo. O Brasil de Bolsonaro passou a ser a décima economia do mundo, mas mesmo assim, estamos em uma colocação confortável perante o restante dos países. Temos reservas internacionais, investimentos estrangeiros, um agronegócio rentável. É verdade que nossa economia já andava com problemas, mas mesmo assim, é uma questão de saber gerir os recursos. Em uma família, onde marido e mulher trabalham, se o marido ficar desempregado, algumas coisas devem ser cortadas, outras reduzidas e outras mantidas, mas isso não quer dizer que a família está no abismo econômico, não é? A mesma coisa se dá com o Brasil. Há sim problemas econômicos, mas temos recursos. O Brasil não está quebrado, tal como já afirmou o presidente. Basta haver planejamento e trabalho. Mas, ao invés disso, há insultos à China, que desde 2009 passou a ser nosso principal parceiro comercial. Com os EUA, após a vitória do democrata Joe Biden, também passou a existir uma situação constrangedora, pois a política de Bolsonaro nunca teve como foco os EUA e sim Donaldo Trump.
É inadmissível pensar que, em meio a uma pandemia, o Brasil teve três ministros da saúde. E o presidente, que até então dizia em alto e bom tom que primava por ministérios técnicos, acabou deixando na pasta da saúde um general da ativa. Nada técnico, né? Mas por que os outros ministros deixaram o ministério? Há duas explicações, mas sinceramente, não sei qual a pior. O ministro Mandetta, médico e político, baseado na ciência, foi contra o uso indiscriminado de medicamentos sem comprovação científica, ou seja, foi contra a cloroquina. Além disso, Mandetta, enquanto ministro, passou a ter espaço maior na mídia. Bolsonaro jamais permitiria isso. Mandetta deixou o ministério, sendo substituído por Nelson Teich, que ficou menos de um mês na pasta. “Não vou manchar a minha história por causa da cloroquina”, declarou Teich. Assim, Eduardo Pazuello, general da ativa, passou a ser ministro da saúde, defendendo a cloroquina e todos os devaneios de Bolsonaro.
Enquanto o mundo almejava a vacina, Bolsonaro começou a pôr dúvida na cabeça da população. Chegou a dizer que “Se tomar vacina e virar jacaré, não tenho nada a ver com isso”. O presidente chegou a afirmar que o governo federal não compraria a vacina CoronaVac, que estava sendo desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, se referindo à vacina chinesa como “vachina”. Aliás, o presidente e seus aliados passaram muitos meses criticando a CoronaVac, “a vacina chinesa do Dória”.
Os assessores próximos do presidente dizem que Pazuello está trabalhando demais. Creio que essa informação até pode ser verdadeira. Resta saber no que ele está trabalhando. O colapso do sistema de saúde em Manaus não pegou o Ministério da Saúde de surpresa. A Advocacia Geral da União (AGU) informou ao STF que o governo federal sabia da crise de falta de oxigênio em Manaus desde o dia 8 de janeiro, ou seja, seis dias antes de o sistema entrar em verdadeiro colapso, com paciente na capital do Amazonas morrendo por asfixia. E o ministro, o que fez? Pazuello foi à Manaus e ficou lá até um dia antes de o sistema colapsar. A visita se deu diante do aumento de casos e mortes por Covid-19, e a pasta foi ao local para anunciar medidas de enfrentamento à pandemia. Quais medidas foram tomadas? Divulgação do “kit cloroquina”. O ministro e sua equipe da pasta da saúde fizeram propaganda de um tratamento precoce, o qual consistiria no uso de medicamentos ainda no estágio inicial da Covid-19, como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal e dióxido de cloro. Note-se, no entanto, que NENHUM desses medicamentos tem eficácia comprovada contra a Covid-19, além, é claro, de poder ocasionar sérios problemas de saúde quando usados indiscriminadamente. Mas por que o ministro fez isso? Pelo simples fato de o seu chefe, presidente Jair Messias Bolsonaro, mandar, pois fez um estoque absurdo de cloroquina e tem que dar um jeito “nisso daí, tá okay?”. E como o próprio Pazuello disse, “um manda (Bolsonaro) e o outro obedece”.
Aos poucos a nossa bandeira foi sendo maculada com o sangue dos mais de 240 mil mortos e com o obscurantismo que assola NOSSO PAÍS. Briga ideológica e política às custas de vidas, presidente? A História saberá contar a sua história, presidente.