O BRASIL DEIXOU DE SER UM PAÍS PACÍFICO E PASSOU A SER UM PAÍS VIOLENTO: NA CALADA DA NOITE OU COM CHEIRO DE FUMAÇA DE ÓLEO DIESEL – PARTE 4

Cris Couto

Dias depois de os brasileiros terem ficado chocados com os horrores ocorridos em Sergipe e com a tortura sofrida por Genivaldo de Jesus Santos, outro crime bárbaro somou-se à lista de eventos que, nos últimos anos, vêm revelando a banalização da truculência e o aumento da violência no Brasil praticada por agentes públicos ou com o incentivo e a conivência de altas autoridades da República.

No dia 5 de junho, o indianista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips, ambos seres humanos valorosos que lutavam em favor dos povos indígenas no Brasil e da preservação do meio ambiente, desapareceram nas proximidades da comunidade ribeirinha São Rafael, no Vale do Javari, no estado do Amazonas. Importante destacar que Dom Phillips era jornalista investigativo e seu foco era reportar possíveis práticas de crimes contra o meio ambiente e, principalmente contra as comunidades indígenas. Por sua vez, Bruno Pereira era servidor da FUNAI, sendo que, já há algum tempo, encontrava-se licenciado para, justamente, contribuir com as causas indígenas do Vale do Javari. Após muitas tentativas de buscas na região, principalmente por parte da comunidade indígena, foram encontrados os restos mortais de Bruno e de Dom. Segundo laudo técnico da Polícia Federal, o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips FORAM MORTOS A TIROS, COM MUNIÇÃO DE CAÇA. Segundo a análise, Bruno foi atingido por três disparos, dois no tórax e um na cabeça. Já Dom foi baleado uma vez, no tórax.

Assinale-se que a morte de Bruno Pereira, bem como de Dom Phillips, foi destaque na imprensa nacional e internacional, já que eram respeitados defensores das causas indígenas e ativistas ambientais. Fizeram pelos povos indígenas e pelo meio ambiente no Brasil muito mais que o atual governo já fez. Aliás, neste momento, cabe chamar a atenção para do fato de que durante todo o GOVERNO BOLSONARO NADA FOI FEITO PARA PROTEGER O MEIO AMBIENTE; MUITO PELO CONTRÁRIO, HOUVE APOIO À GRILAGEM ILEGAL, DIVERSAS TENTATIVAS E AÇÕES COM VISTAS A REDUZIR OU VIOLAR AS TERRAS INDÍGENAS, APOIO AO DESMATAMENTO ILEGAL DA AMAZÔNIA, e muitos outros descalabros.

Os assassinatos do Dom e Bruno foram cometidos com REQUINTE DE CRUELDADE. Os corpos das vítimas foram, ainda, esquartejados e enterrados. A motivação do crime ainda é incerta, muito embora a Polícia Federal pareça ter certa pressa para concluir o caso, afirmando já de antemão que foi um crime sem mandante, relacionados apenas às atividades de pesca ilegal e tráfico de drogas na região. Trata-se de uma tese impossível? Não. Todavia, parece que a PF deu o caso por resolvido cedo demais, sem provas suficientes e, pior, sem levar em consideração o que a UNIVAJA (União dos Povos Indígenas do Vale do Javali) afirmou à própria PF. A UNIJAVA denunciou que os supostos assassinos presos pela PF, Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, e seu irmão, Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como “Dos Santos”, fazem parte de ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA que com conhecida atuação no Vale do Javari. O Vale do Javari abriga a segunda maior terra indígena do Brasil e, portanto, é palco de conflitos típicos da Amazona, decorrentes, por exemplo, do GARIMPO E DESMATAMENTO ILEGAIS. Baseada em investigação frágil e açodada, a Polícia Federal do estado do Amazonas chegou à CONCLUSÃO PREMATURA de que as provas não apontam “indicativos da participação de mais pessoas” no crime e que referidos suspeitos, que já estavam sob a custódia da polícia, agiram sozinhos. Afirmou, entretanto, que novas prisões podem ocorrer. Que loucura! Primeiro a Polícia Federal é enfática ao dizer que os assassinos que já estão presos agiram sozinhos e que não se tratava de organização criminosa; logo depois informa que novas prisões poderiam ocorrer! A UNIVAJA, no entanto, contestou as informações dadas pela Polícia Federal e, além disso, chegou a afirmar que o órgão desconsiderou inúmeras denúncias feitas pela entidade desde o segundo semestre de 2021.  Houve ainda a revelação de que a Unijava, exatamente dois meses antes dos homicídios, chegou alertar e pedir ajuda à FUNAI (Fundação Nacional do Índio) em relação a um suposto esquema de pesca ilegal em área indígena, que estava sendo coordenado justamente por Amarildo da Costa Oliveira, o “Pelado”, um dos acusados de ter participado das mortes de Bruno e Dom.

Cabe destacar, no entanto, que a FUNAI sob a gestão de Bolsonaro foi completamente desmantelada e, ao invés de ter como objetivo a proteção das comunidades indígenas, passou a trabalhar em prol dos interesses de ruralistas. Aliás, nunca é demais lembrar que o delegado da Polícia Federal Marcelo Xavier, que está há quase três anos na presidência da FUNAI, possui apoio irrestrito dos ruralistas e da bancada da bala!!! Um estudo cuidadoso elaborado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e pela Indigenistas Associados (INA), associação de servidores da Fundação, concluiu que a “nova Funai” criou uma atmosfera favorável à prevalência de interesses alheios aos povos originários, protegendo, portanto, garimpeiros ilegais, pessoas ligadas ao agronegócio não sustentável, madeireiros, dentre outros. O mais estranho de toda essa história foi a rapidez com que a Polícia Federal concluiu que as mortes foram “normais” pelas características da região e de que não havia mandante. Somente após muitas críticas veiculadas pela imprensa, é que a Polícia Federal resolveu soltar nova nota dizendo que as investigações ainda estão em curso.

Interessante notar que, antes mesmo de se ter certeza da morte de Bruno Pereira e Dom Phillips, o presidente Jair Bolsonaro, com sua prepotência, falta de empatia e desprezo pela vida alheia, chegou a fazer algumas declarações ofensivas ao incansável trabalho que Dom e Bruno conduziam na região. De forma inacreditável, o presidente afirmou que: “Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela completamente selvagem é uma AVENTURA que não é recomendada que se faça. Tudo pode acontecer”.

Bolsonaro chamou de AVENTURA um dos trabalhos mais sérios e valorosos que pode existir. Tanto Dom como Bruno estavam dando suas vidas em prol do meio ambiente e em prol das vidas indígenas da região, lutando para proteger e ajudar comunidades que, desde o começo do governo Bolsonaro, vêm sofrendo ataques e violências de todo o tipo. Mas não contente com tal declaração absurda e sórdida, o chefe do Executivo Federal ainda teve o cinismo de macular a memória do jornalista britânico assinado, Dom Phillips, ofendendo sua honra e ainda atribuindo-lhe a culpa pelo próprio assassinato!!! Segundo as próprias palavras de Bolsonaro: “Esse inglês era mal visto na região, ele fazia muita matéria contra garimpeiro, a questão ambiental. Então, aquela região que é bastante isolada, muita gente não gostava dele. Ele tinha que ter mais do que redobrado a atenção para consigo próprio“. Não se deve esquecer jamais que Bolsonaro é amigo dos garimpeiros, já tendo se manifestado inúmeras vezes contra a demarcação de terras indígenas e outros direitos dos povos originários, em favor da atividade do garimpo!

É óbvio que os garimpeiros ilegais, amigos e protegidos por Bolsonaro, não gostavam nem de Dom, nem de Bruno, na medida em que, tanto o indigenista, como o jornalista britânico trabalhavam de forma competente e séria para proteger os ecossistemas e a biodiversidade amazônica, ameaçados pela constante expansão do garimpo. Só pelo trabalho desenvolvido por esses verdadeiros heróis do meio ambiente, o governo deveria dar uma medalha às suas famílias, como um reconhecimento, ainda que póstumo, ao sacrifício que fizeram em favor de nosso país e de nosso povo. Entretanto, infelizmente, o assassinato de Bruno e Dom vem ao encontro da agenda e da ideologia do presidente da República, pois não podemos esquecer que Jair Messias Bolsonaro é contra o meio ambiente, desmantelou a estrutura da proteção ambiental no país, incentiva o desmatamento e o garimpo ilegais, já insultou comunidades indígenas inúmeras vezes e, quando candidato, afirmou: “Se eu assumir, índio não terá mais 1cm de terra”.

Importante também deixar consignado que, em julho de 2019, Dom Phillips, então correspondente do jornal britânico “The Guardian”, participou de uma entrevista com o presidente Bolsonaro. Na ocasião, o jornalista, cumprindo seu dever profissional, questionou o presidente sobre a PRESERVAÇÃO DA AMAZÔNIA. Mas, pelo que se viu, Bolsonaro não gostou nada da pergunta. A resposta do presidente foi a seguinte “Primeiro que vocês têm que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês. Nenhum país do mundo tem moral para falar sobre a Amazônia. Nenhum país do mundo tem moral para falar. Até mandei ver quem é o cara que tá na frente do INPE, para que ele venha se explicar aqui em Brasília esses dados que passaram para a imprensa do mundo todo, que pelo nosso sentimento não condiz com a verdade. Até parece que ele tá a serviço de alguma ONG, que é muito comum”. Houve, portanto, claro embate entre Bolsonaro e o jornalista britânico, evidenciado pela resposta ríspida e nada educada do presidente da República, e pela explícita proteção que o chefe do Executivo Federal tem concedido para os garimpeiros.

Que a região está ficando cada vez mais perigosa, ainda mais com o discurso de Bolsonaro a favor dos madeireiros e do garimpo ilegal, não há dúvidas. Até o presente momento, quatro pessoas já foram presas, acusadas pelas mortes de Bruno Pereira e Dom Phillips. O último suspeito a ser preso é conhecido por Colômbia e, segundo investigações ele tinha relação direta com “Pelado“, que já havia sido preso e confessara participação nas mortes. Na verdade, tais crimes significam muito mais que apenas dois assassinatos motivado por briga de pesca em local ilegal. O conflito é muito maior, envolvendo garimpo ilegal, extração ilegal de madeira e destruição de terras indígenas.

Não restam dúvidas de que Bolsonaro sempre incitou a violência, o ódio e o uso indiscriminado de armas. E, infelizmente, isso está tomando uma proporção assustadora, com proliferação de crimes e mortes, inclusive por motivos políticos, como veremos no próximo post.

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