Cris Couto
Há algo profundamente errado quando um país aprende a se indignar de forma seletiva. Quando parte da imprensa decide quem merece escândalo permanente e quem merece esquecimento estratégico. Quando o sistema reage com força máxima contra um sobrenome e com cautela cirúrgica contra outro. Isso não é acaso. Não é coincidência. É método. O Brasil não sofre apenas com suspeitas de corrupção. Sofre com a corrupção da coerência. Aqui, a régua não mede fatos e sim alinhamentos políticos e interesses. Vínculos pessoais viram indício robusto quando atingem um campo político e viram detalhe irrelevante quando atingem outro. Manchetes condenam antes da prova em alguns casos e aguardam prudência institucional em outros. Infelizmente, a presunção de inocência no Brasil é elástica: estica para uns, encolhe para outros.
A diferença de tratamento entre senador Flávio Bolsonaro e Luís Cláudio Lula da Silva (Lulinha) não é apenas política. É, na verdade, reveladora de como funciona o jogo de poder no Brasil. Não se trata de inocentar previamente ninguém. TRATA-SE DE PERGUNTAR POR QUE A INTENSIDADE DA INDIGNAÇÃO MUDA CONFORME O SOBRENOME. É curioso observar por que, diante de vínculos indiretos, transações controversas, investigações anuladas e conexões empresariais, o debate público esfria em um caso e se inflama imediatamente em outro. Quando a reação institucional varia de acordo com quem é o alvo, o problema deixa de ser apenas jurídico. Torna-se democrático. Porque Justiça que oscila conforme a conveniência política deixa de ser Justiça e passa a ser mero instrumento de poder.
O senador Flávio Bolsonaro, filho “zero 1” de Jair Bolsonaro, foi investigado no caso das RACHADINHAS (CRIME DE PECULATO) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ficou evidenciado, inclusive, que tais rachadinhas de Flávio Bolsonaro financiaram prédios da milícia carioca. Relatórios do COAF apontaram movimentações atípicas, e seu ex-assessor Fabrício Queiroz foi descrito como operador financeiro do esquema. Depósitos fracionados, circulação significativa de dinheiro em espécie e sucessivas TRANSAÇÕES IMOBILIÁRIAS COM PAGAMENTOS EM DINHEIRO VIVO levantaram questionamentos sobre a compatibilidade patrimonial do senador. Flavio Bolsonaro chegou a movimentar mais de R$ 3 milhões em dinheiro vivo para pagar despesas! Além disso, alguns ex-funcionários de seu gabinete confirmaram a existência das rachadinhas. Flávio chegou a comprar alguns imóveis totalmente em dinheiro vivo, assim como seu pai sempre fez. Em 2021, o senador adquiriu uma mansão em Brasília que gerou ampla controvérsia justamente porque o valor pago e a forma de financiamento eram incompatíveis com sua renda declarada. Localizada no Lago Sul, área nobre da capital federal, a mansão foi avaliada em cerca de R$ 5,97 milhões, com uma entrada significativa e o restante financiado junto ao Banco de Brasília (BRB). Ressalte-se que o imóvel foi registrado abaixo do valor de mercado, como já comprovado, e que o registro de imóveis foi feito em uma cidade distante de Brasília, o que levantou ainda mais suspeitas. O ponto de maior estranheza foi que as parcelas do financiamento, de R$ 3,1 milhões, originalmente previstas para pagamento em até 30 anos, foram quitadas de maneira extraordinariamente antecipada, em apenas três anos. Para muitos especialistas e críticos, é difícil justificar essa quitação apenas com base no salário de senador e na renda formal do casal. Além disso, surgiram suspeitas sobre o uso de uma empresa ligada a Flávio — a tal loja de chocolates, que estranhamente recebia a maior parte dos pagamentos em dinheiro vivo — como instrumento de movimentação financeira questionável, levantando indícios de possível lavagem de dinheiro. O processo sofreu anulações após decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e, posteriormente, do Supremo Tribunal Federal (STF) quanto à competência e foro, o que resultou na invalidação de provas. Com isso, o caso perdeu força e a pressão pública acabou arrefecendo.
Há alguns anos, vieram à tona denúncias de que o ex-presidente Jair Bolsonaro participou de reuniões com advogadas de Flávio Bolsonaro, utilizando recursos da ABIN – Agência Brasileira de Inteligência – e da máquina pública para tentar blindar o senador em meio às investigações sobre as rachadinhas. Segundo reportagens e relatórios da Polícia Federal, a reunião aconteceu no Palácio do Planalto e contou com a presença de Bolsonaro, do então diretor-geral da ABIN Alexandre Ramagem, do ministro do GSI, general Augusto Heleno, e de duas advogadas de Flávio, Luciana Pires e Juliana Bierrenbach. Durante o encontro, discutiram-se medidas sobre relatórios da Receita Federal e estratégias para proteger Flávio de apurações, levantando sérias suspeitas sobre o uso indevido de órgãos de inteligência para fins privados. Uma das advogadas envolvidas chegou a deixar o caso e foi ouvida pelo ICL, reforçando o caráter extraordinário e controverso do episódio. A GRAVAÇÃO DA REUNIÃO, POSTERIORMENTE LIBERADA PELO STF, EXPÔS PUBLICAMENTE ESSAS TENTATIVAS DE INTERFERÊNCIA E INTENSIFICOU O DEBATE SOBRE ÉTICA, LEGALIDADE E O USO DA MÁQUINA PÚBLICA PARA FINS DE BLINDAGEM POLÍTICA. Mas, estranhamente, o assunto parece ter sido esquecido. Não há nenhum veículo de imprensa que retome esse episódio, e Flávio Bolsonaro é tratado, inclusive, como um presidenciável digno de confiança — uma narrativa que, diante dos fatos, certamente não condiz com a realidade.
Não se pode esquecer de algumas declarações do então presidente Jair Bolsonaro sobre interferência na Polícia Federal. Em reunião ministerial divulgada por decisão judicial, BOLSONARO AFIRMOU QUE NÃO PODERIA “ESPERAR FODER MINHA FAMÍLIA” E QUE TROCARIA O COMANDO DA PF SE NECESSÁRIO. Não era figura de linguagem. Era prioridade declarada para blindar sua família e para que seus crimes fossem esquecidos. Em contrapartida, o presidente Lula, quando questionado sobre possível envolvimento de seu filho Lulinha na fraude do INSS, teve uma postura totalmente diferente, digna de um verdadeiro estadista! LULA DISSE QUE “QUEM TIVER ENVOLVIDO, VAI PAGAR O PREÇO … NINGUÉM FICARÁ LIVRE. SE TIVER FILHO MEU METIDO NISSO, ELE SERÁ INVESTIGADO.” A diferença entre tentar proteger e permitir investigar é institucional, explícita e chocante. Com essas falas vimos, talvez, a principal diferença entre Bolsonaro, um eterno deputadozinho de baixo clero que, segundo Ciro Gomes, roubava até gasolina, e o presidente Lula, verdadeiro estadista e democrata.
É importante destacar que Luís Cláudio, o Lulinha, já teve sua vida devastada publicamente E NUNCA ACHARAM NADA CONTRA ELE. Foram anos de investigação e nada, absolutamente nada foi encontrado que pudesse desabonar sua moral. Ele foi alvo de condução coercitiva, quebras de sigilo e exposição massiva durante a Operação Lava Jato. Não houve condenação penal, pois não havia provas de nenhuma acusação. Em 2016, a Polícia Federal vasculhou 10 anos das finanças de Lulinha e não encontrou corrupção ou qualquer outro crime! Porém, ele foi vítima de condenação popular devido as inúmeras Fake News com seu nome, muitas delas disseminadas pela imprensa. Quem não se lembra que, de maneira grotesca e fantasiosa, espalharam essas MENTIRAS – todas já investigadas e desmentidas: 1) Lulinha seria dono de uma Ferrari “de ouro”; 2) que ele era sócio oculto da Friboi; 3) Lulinha, que era faxineiro em um zoológico, e teria enriquecido ilicitamente de forma repentina, possuindo várias fazendas; 4) que ele seria dono da empresa de telefonia OI; 5) Lulinha seria sócio majoritário da Petrobrás. Nada se comprovou. Mas a mentira circulou como verdade. A retratação jamais teve o mesmo alcance.
Diferentemente do Flavio Bolsonaro, que sempre agiu para acabar com as investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro e da polícia civil carioca, Lulinha teve a vida devassada, mas enfrentou as investigações tentando demonstrar a verdade dos fatos. Vale ainda destacar que o presidente Lula, pai de Lulinha, NUCA INTERFERIU NA POLÍCIA FEDERAL PARA BLINDAR AS INVESTIGAÇÕES CONTRA SEU FILHO. Foram anos de investigações pela Polícia Federal e NADA foi encontrado. Contudo, Lulinha tem seu rosto novamente nas manchetes, pois seu nome reaparece por suposta proximidade com pessoa investigada no caso do INSS. Sim, a acusação, segundo a própria Globonews, é que Lulinha tem uma amiga que teria recebido uma roupinha de cachorro do Careca do INSS. Além, é claro, de ter supostamente viajado em um avião de linha, comum e não jatinho particular, em que um investigado também viajou. E entre uma troca de mensagens entre dois investigados há essa frase: “o filho do rapaz” e, sem mais nada, acharam por bem concluir ser Lulinha. Pasmem, esse é o grande escândalo!
E uma coisa que a grande mídia quase não falou e que é extremamente importante é justamente o fato de que FLÁVIO BOLSONARO ESTARIA ENVOLVIDO EM SUPOSTO PAGAMENTO, DE R$ 5 MILHÕES, PARA QUE O ADVOGADO ELI COHEN DEPUSESSE CONTRA O GOVERNO E ENVOLVESSE FREI CHICO, IRMÃO DE LULA, E O FILHO DO PRESIDENTE, NA CPMI DO INSS.
Outra diferença entre Flávio Bolsonaro, bem como de toda família do Jair, e Lulinha também está no fato de que, enquanto os Bolsonaros ofendem jornalistas, fogem para os EUA, incitam a população contra a Polícia Federal e o STF, dentre outras coisas inimagináveis em uma democracia, LULINHA PERMANECE CALADO E, POR MEIO DE SEU ADVOGADO, DIZ QUE NÃO TEM NADA A ESCONDER E SE COLOCA À DISPOSIÇÃO PARA PRESTAR QUALQUER ESCLARECIMENTO E RESSALTA QUE A QUEBRA DE SIGILO FISCAL E BANCÁRIO É DISPENSÁVEL, POIS ELE MESMO ENTREGARÁ DE LIVRE E ESPONTÂNEA VONTADE QUALQUER INFORMAÇÃO REQUERIDA PELA SUPREMA CORTE.
De início, é preciso deixar claro que quanto mais investigações, melhor. Quem cometeu crimes deve ser responsabilizado. Diferentemente da extrema-direita bolsonarista, nós, do campo progressista, defendemos a Polícia Federal, as investigações rigorosas e a punição dos culpados. MAS INVESTIGAÇÃO SÉRIA NÃO PODE SER SELETIVA. Não pode servir apenas para desgastar a reputação de um cidadão ou alimentar campanhas políticas. Deve ser imparcial, ampla e sem favoritismos, indo atrás de todos aqueles sobre os quais existam indícios de crimes, sem fechar os olhos por convicções ideológicas. E a condenação deve sempre ser baseada em provas, nunca em convicções pessoais, boatos ou narrativas midiáticas. Justiça de verdade exige material comprobatório sólido, não suposição. É assim que o Estado Democrático de Direito funciona!
Outro fato que merece ser destacado é que a maior parte das fraudes do INSS investigadas teve origem no governo Bolsonaro. FOI COM BOLSONARO QUE O ESQUEMA PROSPEROU. Tal fato não pode ser esquecido. E FOI NO GOVERNO LULA QUE AS INVESTIGAÇÕES AVANÇARAM E QUE SE INICIOU O PROCESSO DE DEVOLUÇÃO DE VALORES A APOSENTADOS PREJUDICADOS. Acho interessante lembrar isso ao povo, à CPMI – Comissão Parlamentar Mista de Inquérito – e, principalmente, ao Ministro André Mendonça, relator do processo do INSS no STF e terrivelmente bolsonarista! Ressalte-se ainda que Mendonça, em pouco tempo, já se mostrou ser seletivo politicamente na condução da citada relatoria.
O dia 26 de fevereiro no Congresso Nacional ficará marcado como um dos episódios mais caóticos e vergonhosos da história do Parlamento. A CPMI destinada a apurar as fraudes do INSS mostrou-se, mais uma vez, partidária, reforçando a sensação de que deveria ser encerrada imediatamente. Na sessão, foram colocados em votação 87 requerimentos em bloco — sem debate individualizado, sem deliberação nominal clara sobre cada pedido e sem transparência. Entre os aprovados, figurou a quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, QUE SEQUER CONSTA FORMALMENTE COMO INVESTIGADO NAS APURAÇÕES CENTRAIS DAS FRAUDES. O problema não está apenas no que foi aprovado. Está, sobretudo, no que não foi enfrentado.
Diversos nomes foram apresentados para convocação e quebra de sigilo, entre eles o do pastor FABIANO ZETEL, MAIOR DOADOR DAS CAMPANHAS DE JAIR BOLSONARO E TARCÍSIO DE FREITAS e cunhado de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. ZETEL É INVESTIGADO POR SUPOSTA LAVAGEM DE DINHEIRO E PARTICIPAÇÃO EM FRAUDES DE EMPRÉSTIMOS CONSIGNADOS QUE TERIAM CAUSADO PREJUÍZOS A APOSENTADOS. Outro nome que chamou atenção foi o de LETÍCIA CAETANO DOS REIS, GERENTE DO ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA DO SENADOR FLÁVIO BOLSONARO. Ela foi indicada devido a POSSÍVEIS VÍNCULOS ENTRE O ESCRITÓRIO DO SENADOR E O NÚCLEO INVESTIGADO POR FRAUDES EM EMPRÉSTIMOS CONSIGNADOS. Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, apontado pela Polícia Federal como sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, em uma empresa offshore. Como administradora do escritório de Flávio Bolsonaro desde 2021, acreditava-se que ela pudesse esclarecer conexões financeiras ou operacionais entre a banca e empresas envolvidas no esquema. No entanto, esses nomes não foram objeto de votação específica e destacada. Foram simplesmente absorvidos pela votação em bloco, sem que houvesse deliberação individual clara sobre suas convocações ou quebras de sigilo. Na prática, isso impediu o escrutínio público sobre pedidos que atingiam figuras com vínculos diretos com a extrema-direita e com estruturas financeiras sob investigação. Enquanto isso, a CPMI concentrou seus esforços em pautas politicamente direcionadas: Lulinha.
Mas o problema vai ainda mais longe. O que se assistiu na sessão foi um circo de horrores. O presidente da CPMI, senador Carlos Viana, em outro momento, já havia deixado de atender requerimentos que pediam, entre outros pontos, a investigação sobre o BRB e sobre a empresa do governador Romeu Zema, que a própria Polícia Federal já indicou ter possível envolvimento direto nas fraudes do INSS, ou seja, Viana age motivado politicamente e nem mais disfarça. A oposição, ciente de sua minoria, recorreu a um ato que pode ser classificado como golpista, fraudando o resultado da votação. Segundo o Regimento Interno, estavam presentes em plenário 21 parlamentares titulares – senadores e deputados. Destes, 14 votaram contra a aprovação da quebra de sigilo fiscal e bancário de Lulinha – ressaltando que ele sequer é investigado e, por isso, essa quebra não deveria existir -, e apenas 7 a favor. Ainda assim, o presidente da CPMI proclamou um resultado divergente, alegando que a base governista era minoria, quando, na realidade, era maioria. Aqui deve ser destacado que Carlos Viana (Podemos – MG) teve sua campanha financiada por Celso Mânica, ruralista condenado pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) por submeter 2 mil trabalhadores a condições análogas à escravidão e por FRAUDAR SISTEMATICAMENTE O SISTEMA PREVIDENCIÁRIO, ou seja, Viana é totalmente suspeito e deve ser retirado da presidência dessa Comissão imediatamente!
Pior ainda, tanto o presidente quanto o relator da CPMI comemoraram publicamente a aprovação da quebra do sigilo de “Lulinha”. Cadê a ética? Cadê a imparcialidade? Imagens da TV Senado e fotografias comprovam a discrepância entre o quórum real e o resultado proclamado. Houve controvérsia quanto ao número de parlamentares presentes, mas mesmo diante da dúvida, proclamou-se o resultado final, consolidando o que muitos observadores classificam como uma fraude institucional. Após esse resultado, parlamentares partiram para a briga física e a extrema-direita, como de costume, comportou-se como o aluno do fundão de uma quinta série D.
O episódio do dia 26 expôs de forma cristalina a FRAGILIDADE ÉTICA da CPMI e deixou claro que, sem investigações verdadeiramente imparciais, com responsabilidade e transparência, o combate às fraudes no INSS continuará sendo apenas uma encenação política, deixando aposentados e pensionistas à mercê de esquemas que continuam impunes. Mesmo porque, independentemente de Lulinha estar ou não envolvido nesse esquema criminoso, o que pessoalmente, acho improvável, O FATO INEQUÍVOCO É QUE ESSA FRAUDE SE INICIOU NO GOVERNO BOLSONARO, TEVE O SILÊNCIO E, QUIÇÁ, A CUMPLICIDADE DE SÉRGIO MORO, ENTÃO MINISTRO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA, DE PAULO GUEDES, ENTÃO MINISTRO DA ECONOMIA E DE CAMPOS NETO, ENTÃO PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL, QUE SOUBERAM DA FRAUDE E NADA FIZERAM, BEM COMO DE GRANDES EMPRESÁRIOS FINANCIADORES DA CAMPANHA DE JAIR BOLSONARO E DE OUTROS POLÍTICOS DA EXTREMA-DIREITA BOLSONARISTA, ALÉM DE POLÍTICOS DESSE CAMPO IDEOLÓGICO. E é isso que a CPMI visa esconder: ao falar de Lulinha retira o holofote de quem realmente está envolvido.
Corroboro que a investigação NÃO pode ser seletiva. Não há problema nenhum em se investigar o filho do presidente Lula, aliás, o próprio presidente já se pronunciou nesse sentido. O problema é a seletividade, visto que Carlos Viana, presidente da CPMI, tem o objetivo de proteger Fabiano Zetel, Flávio Bolsonaro sua sócia Letícia, Ibaneis Rocha, Zema Crédito, entre outros claramente ligados as fraudes no INSS e no Banco Master.
E é aqui que se evidencia a seletividade institucional. O ministro André Mendonça, relator do caso do INSS no STF, autorizou ainda em janeiro, antes mesmo da votação da CPMI, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha. Mas, em contrapartida, não autorizou a mesma medida para políticos bolsonaristas investigados. Críticos apontam que Mendonça acelera medidas contra adversários políticos enquanto demonstra morosidade, leniência ou blindagem em casos que envolvem aliados da extrema-direita. A percepção é clara: DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS, COM PROTEÇÃO INSTITUCIONAL À DIREITA E RIGOR SELETIVO CONTRA INVESTIGADOS LIGADOS AO CAMPO POLÍTICO ADVERSÁRIO.
E essa proteção a determinado campo ideológico ocorre também na mídia. O noticiário se esquece muito rápido dos escândalos da família Bolsonaro. A imprensa, por exemplo, praticamente aposentou o caso das rachadinhas. O uso do cartão corporativo de Bolsonaro, com gastos elevados e resistência à transparência, perdeu centralidade. As motociatas foram financiadas com aparato público e publicidade antecipada, configurando uso político da máquina estatal, mas quem lembra? Compras para as Forças Armadas de itens caros e desnecessários, como uísque, camarão, picanha e leite condensado, bem como e medicamentos como Viagra geraram indignação momentânea e depois sumiram do debate. E o mesmo aconteceu com o caso das joias sauditas, a barra de ouro do MEC, o orçamento secreto, os superfaturamentos em trator e notebooks para escolas sem saneamento básico e suspeitas em negociações de vacinas superfaturadas foram documentados, mas não ocupam mais espaço. E o que mais deveria indignar as pessoas, em especial aquelas que dizem se pautar em “Deus, Pátria e Família”, é justamente o fato de Bolsonaro ter dito que “PINTOU UM CLIMA” em relação a crianças de 14 anos, ou mesmo que chegou a fazer sexo com galinhas, fatos que nem ao menos são mencionado! Essas mesmas pessoas se revoltaram com uma fantasia – conservadores em conserva – que se referia à falsidade de parte da sociedade, mas ficam tranquilos perante tais crimes. Não é ausência de informação. É diferença de tratamento.
Se Lulinha tiver cometido qualquer crime, isso deve ser investigado e punido na forma da lei — e isso nada tem a ver com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sempre afirmou que quem erra deve responder por seus atos e jamais interferiu para impedir investigações da Polícia Federal. No Estado de Direito, ninguém pode ser responsabilizado por atos de terceiros, nem mesmo de familiares. A diferença é evidente quando se compara com Jair Bolsonaro, que não apenas buscou blindar politicamente seus filhos — como Flávio Bolsonaro — diante de denúncias graves, como também responde ele próprio a acusações sérias. E há um ponto central: Lulinha nunca exerceu mandato nem ocupou cargo público, ao passo que a família Bolsonaro transformou a política em um projeto familiar de poder, com múltiplos integrantes exercendo mandatos simultaneamente, controlando estruturas de influência e misturando interesses privados com funções públicas — o que torna qualquer suspeita ainda mais grave, porque envolve diretamente o uso da máquina do Estado e a confiança depositada pelo eleitorado.
A mídia também escolhe intensidade. Em 2018, durante a Lava Jato, o nome de Lula era repetido diariamente em capas e plantões. A eleição ocorreu sob bombardeio narrativo para tirar Lula definitivamente do jogo eleitoral. Posteriormente, o STF anulou as condenações por ausência de provas e reconheceu parcialidade e a incompetência do juízo. O efeito político permaneceu. Hoje, qualquer menção indireta a Lula dispara manchetes. Já episódios envolvendo Bolsonaro e seu círculo perdem força rapidamente. A cobertura existe, mas não cria o mesmo cerco, não mantém clima de condenação contínua. É escolha editorial. Em ano eleitoral, escolha editorial é ato político. Manchetes constroem clima. Repetição cria convicção. Silêncio constrói esquecimento. Uma democracia que aceita indignação seletiva como regra não está apenas falhando em punir crimes. Está, na verdade, permitindo que a Justiça seja instrumentalizada pelo ritmo das manchetes, que interesses políticos ditem processos e que a memória pública seja manipulada. E vale lembrar que os donos dos veículos de comunicação fazem parte da elite, dos chamados mercados, da Faria Lima, ou seja, são contra o pobre.
Se o Brasil continuar aceitando indignação seletiva, estará deixando claro que justiça aqui não é cega, é partidária. Que o sobrenome define a força da investigação. Que manchetes jornalísticas decidem mais que tribunais. Que proteção política vale mais que lei. E, nesse padrão, corrupção, manipulação e impunidade não são exceção: são regra.