A REPÚBLICA DA RACHADINHA: OS CRIMES DA FAMÍLIA BOLSONARO (PARTE 1)

Cris Couto

A ascensão de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil não foi apenas um erro histórico — foi a consolidação de um projeto bem articulado de manipulação, mentira e destruição institucional. Apresentando-se como o “homem do povo” e o “salvador da pátria”, Bolsonaro e sua família construíram uma narrativa de combate à corrupção enquanto, nos bastidores, operavam esquemas que iam das rachadinhas ao tráfico de joias sauditas, passando por tentativas de golpe, sabotagem deliberada durante a pandemia de COVID-19 e ataques sistemáticos ao sistema eleitoral. Esses atos evidenciam não apenas o desprezo pelas instituições democráticas, mas também causaram impactos profundos e diretos na vida de milhões de brasileiros. Amparados por um discurso falso de fé, patriotismo e antipetismo, enganaram o povo enquanto enriqueciam, protegiam milicianos e investiam contra a democracia — tudo isso com o apoio de militares cúmplices, pastores oportunistas e de uma elite que sempre desprezou o povo. O presente artigo tem o escopo de apresentar um panorama detalhado dos crimes da família Bolsonaro, destacando as consequências para o país e a urgência da responsabilização para que a democracia brasileira não volte a ser alvo de um projeto tão destrutivo.

A história de vida de Jair Messias Bolsonaro, suas falas e ações comprovam que ele jamais teve apreço pela democracia. Ao contrário: é um homem autoritário, amante da tortura, da ditadura e de ditadores. Nos anos 1980, Bolsonaro foi condenado por unanimidade por um conselho formado por 3 coronéis, por elaborar um plano para explodir bombas-relógio em unidades militares do Rio de Janeiro (posteriormente, foi absolvido em um recurso bastante controverso). Em 1983, durante seu tempo como tenente do Exército, Jair Bolsonaro abandonou temporariamente suas funções militares para garimpar ouro no município de Saúde, na Bahia, levando consigo cinco subordinados durante o período de férias. O episódio foi alvo de críticas internas e registrado em sindicância do Exército, que apontou “ambição desmedida” e “imaturidade” como traços de sua conduta, considerada incompatível com os padrões esperados de um oficial. O caso foi analisado por um Conselho de Justificação, e seus superiores sugeriram realocação para funções com maior exigência disciplinar. Bolsonaro fez fortuna na vida pública de maneira questionável, pois, com o salário dos cargos que ocupou, jamais teria condições de possuir a quantidade de imóveis que possui — o que será detalhado em momento posterior. Sempre sustentou um discurso do “nós contra eles”, fomentando o ódio.

Jair Bolsonaro construiu sua carreira política com discursos de ódio, ataques à democracia e apologia à violência. Desde os anos 1990, defendeu abertamente o golpe militar, o fechamento do Congresso, a tortura e até a execução de opositores como Fernando Henrique Cardoso. Suas falas sempre expressaram desprezo pelo voto popular e incentivo à guerra civil. Em 2018, durante a campanha presidencial, radicalizou ainda mais, simulando o fuzilamento de adversários e pregando a violência policial como solução para a segurança pública. Bolsonaro desrespeitou o Estado laico, defendeu a intolerância religiosa, exaltou torturadores como Ustra e ditadores como Pinochet, além de proferir falas racistas, misóginas e homofóbicas. Agrediu fisicamente uma mulher em 1998 e afirmou preferir ver um filho morto a vê-lo homossexual. Seu governo ampliou o acesso a armas e buscou legitimar a violência policial, especialmente contra negros e pobres, com a proposta do excludente de ilicitude. Bolsonaro nunca escondeu seu autoritarismo e sua repulsa às minorias, tornando-se um símbolo do retrocesso democrático e dos ataques aos direitos humanos no Brasil. E o pior: muitos dos seus seguidores pertencem justamente às minorias. O chamado “pobre de direita”, termo consagrado na literatura política brasileira pelo sociólogo Jessé Souza, refere-se a indivíduos pertencentes às classes populares, ou seja, pessoas de baixa renda, trabalhadores precarizados, moradores das periferias, pessoas com pouca escolaridade e que, apesar disso, adotam posições políticas e ideológicas associadas à direita. Assim, pessoas pobres passaram a defender políticas de austeridade econômica, o apoio a figuras políticas autoritárias — que sempre demonstraram desprezo pelo pobre — e a rejeição a políticas redistributivas, como programas sociais e cotas. Ainda houve a indiscutível adesão a valores tradicionais como “Deus, Pátria e Família”. Em outro momento, detalharemos melhor esse chavão; por ora, basta destacar que ele tem raízes históricas associadas a movimentos autoritários e de extrema direita, inclusive ao fascismo e ao nazismo. Afinal, quem é contra Deus, contra a pátria ou contra a família? Ninguém. Mas, ao usar esse chavão, torna-se fácil manipular e aproximar o povo.

Importante considerar que o ex-presidente entrou na política em 1988, após deixar o Exército sob polêmicas e ganhar notoriedade ao criticar os baixos salários dos militares. Investigado no “Caso das Bombas do Exército”, foi preso e processado, sendo absolvido de forma polêmica. Bolsonaro elegeu-se primeiro vereador no Rio de Janeiro e, em 1990, deputado federal, cargo que ocupou por quase 30 anos com pautas autoritárias e conservadoras, sem nunca ter aprovado nenhum projeto relevante. Aliás, Bolsonaro sempre foi visto como um deputado do baixo clero. Sua defesa da ditadura, do armamento civil e seus ataques a direitos humanos o tornaram popular entre setores militares e conservadores, pavimentando sua eleição à presidência em 2018. Ainda quando era vereador, Bolsonaro encontrou um negócio lucrativo: as chamadas “rachadinhas”. Cabe destacar que “rachadinha” é o eufemismo usado pela imprensa para se referir aos crimes de corrupção, peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Bolsonaro passou a se apropriar de parte dos salários de seus funcionários no gabinete ou a manter funcionários fantasmas para desviar, ilicitamente, os salários. Essas rachadinhas foram tão lucrativas que Bolsonaro resolveu expandir o “negócio”, colocando seus filhos na política. Chegou a emancipar seu filho Carlos Bolsonaro apenas para que o esquema das rachadinhas se tornasse ainda mais lucrativo. Ele era a matriz; os filhos, as filiais.

Como já destacado, Bolsonaro nunca teve muita expressão política. Era visto, inclusive pelos seus pares na Câmara dos Deputados, como um parlamentar do baixo clero. Ou seja, ele era insignificante! Era o tipo de parlamentar que roubava gasolina. Ciro Gomes, ex-deputado e presidenciável pelo PDT, afirmou publicamente que teve acesso a documentos provando que Jair Bolsonaro roubava o dinheiro da gasolina do gabinete quando era deputado federal, além de manter funcionários fantasmas. Segundo afirmou Ciro Gomes, enquanto o seu gabinete consumia em gasolina cerca de R$ 600 mensais, o gabinete de Bolsonaro teria gasto até R$ 12 mil mensais, o que levantou suspeitas de uso irregular de verba parlamentar de combustível! Truculento, defensor de armas e com envolvimento com milicianos, ninguém apostaria que um dia Bolsonaro seria presidente da República e chamado de “mito” por grande parte dos brasileiros. Então, o que aconteceu para que Bolsonaro chegasse ao Planalto?

O ódio ao Partido dos Trabalhadores (PT) e, em especial, ao presidente Lula não foi fruto do acaso. Foi resultado de uma conspiração bem orquestrada envolvendo setores da Operação Lava Jato, liderada por Sergio Moro e Deltan Dallagnol, parte considerável da elite econômica, da grande mídia e da direita brasileira, que viram no avanço dos direitos sociais e na ascensão de pobres e trabalhadores, proporcionada pelo governo Lula, uma ameaça às suas aspirações elitistas. Utilizando investigações seletivas, vazamentos ilegais e uma cobertura midiática massiva e tendenciosa, a Lava Jato, sob o pretexto de combater a corrupção, promoveu uma campanha de criminalização da política e de demonização do campo progressista, especialmente do PT. Lula foi CONDENADO SEM PROVAS, com base em delações premiadas frágeis e narrativas forjadas, num processo posteriormente anulado pelo Supremo Tribunal Federal por absoluta falta de imparcialidade, incompetência do juízo e falta de provas. Esse ataque político-judicial teve como objetivo interditar a principal liderança popular do país e facilitar a ascensão da extrema direita ao poder. Cumpre destacar que mesmo preso, Lula liderava todas as intenções de votos.  Mas o ataque à imagem foi massivo! Com isso, parte significativa da população, bombardeada diariamente por desinformação e retórica de ódio, desenvolveu uma aversão irracional a Lula e passou a agir contra seus próprios interesses, tornando-se presa fácil de discursos autoritários, antipolítica e antissociais. Houve, portanto, uma campanha de ódio a Lula, por setores importantes da sociedade, como a mídia, parte do Poder Judiciário e a elite brasileira. E essa rejeição, construída artificialmente a Lula e ao PT, abriu caminho para a manipulação em massa e para a legitimação de um projeto político de destruição de direitos sociais, desmonte do Estado e ataque à democracia. Ou seja, o antipetismo, fabricado e alimentado ao longo de anos, pavimentou o caminho para a ascensão de Jair Bolsonaro e de um projeto autoritário, entreguista e antissocial, que se apresentou como “salvador da pátria” enquanto desmontava direitos, ameaçava instituições democráticas e entregava o país aos interesses do capital financeiro e do imperialismo. Trata-se, em última instância, de um GOLPE POLÍTICO TRAVESTIDO DE MORALIDADE, que empurrou o Brasil para uma crise profunda — econômica, social e institucional.

Outro fator que deve ser levado em consideração, e que ajudou a ascensão da extrema direita, tendo como representante e líder Jair Bolsonaro, é o fato de que o ex-presidente fez com que algumas pessoas deixassem as máscaras caírem. Bolsonaro sempre foi machista, homofóbico, racista e preconceituoso, e nunca escondeu isso. E as pessoas que também eram preconceituosas, mas sentiam medo ou vergonha de seus preconceitos, ao verem Bolsonaro vomitando seu ódio contra mulheres, negros ou gays, sentiram-se livres e representadas. Sem contar a parcela da população, especialmente da elite e da classe média, que nunca aceitou o fato de o Brasil ter como presidente um operário. E pior: ser este operário o responsável por promover justiça social, pagar o FMI e tirar o Brasil do Mapa da Fome. Assim, a campanha difamatória da mídia, do Poder Judiciário e da elite, unida às pessoas preconceituosas, elegeu Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República. O que era improvável se tornou possível. Porém, o mais inacreditável não foi somente a ascensão de Bolsonaro ao Planalto, mas o fato de pessoas o considerarem “mito”. Aí entra outro fator: as igrejas evangélicas, que fizeram verdadeira lavagem cerebral em muitos de seus fiéis. O Brasil, de uma hora para outra, passou a ter um exército de bolsonaristas irracionais que, mesmo vendo os crimes de Jair, não se importam. São pessoas que rezam para pneus, pedem intervenção militar para extraterrestres, marcham em frente a quartéis e, quando se prova que Bolsonaro errou e cometeu crime, só dizem: “E o PT?”. Não possuem argumentos nem racionalidade. Apenas destilam ódio — e isso é realmente perigoso!

Para essas pessoas, pouco importa a verdade. O ódio ao campo progressista é irracional! Não importa o fato de que muitos bolsonaristas dependem justamente dos programas sociais criados por Lula e Dilma e que Jair Bolsonaro tentou destruir. O ex-presidente acabou com o Minha Casa Minha Vida, desidratou o Farmácia Popular, desmontou o Bolsa Família e aplicou a pior política de salário mínimo em décadas. Bolsonaro teve a cara de pau de desviar verbas do Farmácia Popular e enviar para o orçamento secreto!!! Tudo isso afetou diretamente os mais pobres, que ainda assim seguiram apoiando-o. Bolsonaro não governou para os pobres — governou para o “andar de cima”, enquanto os de baixo aplaudiam o próprio prejuízo.

Toda a família Bolsonaro é perigosa e, a partir de agora, iremos analisar, de forma não detalhada, cada um dos membros dessa família ou organização. Vamos começar com os filhos e deixaremos o pai, ou chefe, para o final.

Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro, também chamado de “Zero 1”, é acusado de liderar o esquema das rachadinhas quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. O Ministério Público o denunciou por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, em um caso que envolve a devolução ilegal de salários de assessores fantasmas. Parte do dinheiro teria sido lavada por meio de imóveis e de uma loja de chocolates, com pagamentos em dinheiro vivo para despesas pessoais da família. Além disso, Flávio é acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de usar sua loja de chocolates — uma franquia da Kopenhagen — como parte de um esquema para lavar dinheiro proveniente das rachadinhas na Alerj. O MP descobriu que a loja recebeu depósitos em dinheiro vivo desproporcionais ao seu faturamento, atingindo até 1,6 milhão de reais entre 2015 e 2018, com evidências de que esse dinheiro foi inserido para dar aparência legal a recursos desviados de assessores por meio de peculato e organização criminosa. Ademais, conforme delação premiada do seu ex-sócio, Alexandre Santini, Flávio movimentou cerca de 2,7 milhões de reais em dinheiro vivo entre imóveis e a loja, além de ter retirado lucros não declarados: cerca de R$ 619 mil não foram declarados à Receita Federal. Em síntese, a loja de chocolates do “Zero 1”, pode ter funcionado como instrumento de lavagem de dinheiro desviado de assessores. É o esquema da rachadinha mais elaborado!!! Flávio também está envolvido no escândalo da ABIN paralela — uma estrutura clandestina de espionagem usada para tentar frear investigações contra ele. Agentes da inteligência pública atuaram ilegalmente para proteger o senador, em mais um ataque à democracia e às instituições. As investigações da PF descobriram áudio clandestino entre Bolsonaro e Ramagem sobre o plano para blindar o “Zero 1”. Sem contar sua proximidade com milícias, que evidencia a relação entre política e violência. Flávio arrumou emprego para a esposa e filhas de Fabrício Queiroz – uma delas como assessora fantasma de seu pai –, ele empregou também a mãe e a esposa do ex-Bope Adriano Nóbrega. Sim, o mesmo que é apontado como um dos assassinos de Marielle Franco. Outro fato muito suspeito foi a compra de uma mansão por Flávio Bolsonaro, avaliada em R$ 6 milhões, localizada em área nobre de Brasília, que se tornou símbolo das suspeitas de enriquecimento ilícito que pairam sobre o clã Bolsonaro. A aquisição do imóvel chamou a atenção porque é incompatível com os rendimentos declarados por Flávio.

E não se pode deixar de dizer que Flávio Bolsonaro, fiel à lógica entreguista que marcou o bolsonarismo, chegou ao cúmulo de comparar as tarifas impostas ao Brasil por Donald Trump a “bombas atômicas”. Em tom alarmista e submisso, defendeu que o país “cedesse” diante da ofensiva econômica dos Estados Unidos, como se a soberania nacional fosse uma moeda de troca descartável. Essa declaração, profundamente simbólica, escancara o tipo de “patriotismo” que move a extrema-direita brasileira: o patriotismo de fachada ou, como o deputado federal Guilherme Boulos denominou, “patriota da Shopee”, que se ajoelha diante de interesses estrangeiros — especialmente se for para conseguir anistia e tentar salvar Jair Bolsonaro. Sim, Flavio chantageou o Brasil a fim de conseguir anistia ao seu papai que, como todos sabem, cometeu vários crimes. Aliás, como o presidente Lula já disse inúmeras vezes, só se dá anistia a criminoso. Quem é honesto comprova a honestidade no curso do processo e não pede anistia antecipada!

Carlos Bolsonaro, o “Zero 2”, é vereador no Rio de Janeiro e um dos filhos mais influentes do clã Bolsonaro. Foi indiciado pela Polícia Federal por seu papel central na chamada “ABIN paralela”, que, na verdade, é um esquema ilegal de espionagem política montado pelo então presidente Bolsonaro para perseguir adversários, jornalistas e servidores públicos. Bolsonaro e Carlos definiam alvos e estratégias da ‘Abin paralela’, conforme apurações da PF. Essa estrutura clandestina usava recursos públicos para alimentar o chamado “gabinete do ódio”, coordenado pelo “Zero 2”, que espalhava fake news e fomentava o ódio nas redes sociais. As denúncias expostas em delação premiada mostram um uso autoritário e criminoso do aparelho estatal, revelando como o bolsonarismo se valeu do Estado para atacar a democracia e silenciar opositores. Carlos Bolsonaro representa essa face nefasta do bolsonarismo, que não hesita em violar leis e direitos para manter seu poder e disseminar seu discurso de ódio. E, como todos os demais membros da família, Carlos também se envolveu com rachadinhas. Segundo o MP-RJ, entre 2005 e 2021, assessores do gabinete de Carlos teriam repassado cerca de R$ 2 milhões à conta de seu chefe de gabinete Jorge Fernandes, com 688 depósitos bancários suspeitos identificados pelo Ministério Público.

Na próxima publicação, continuaremos a expor a longa ficha criminal da família Bolsonaro.

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