OPERAÇÃO ABAFA E O “BOLSOMASTER”: A MENTIRA DOS R$ 19 MILHÕES CONTRA LULINHA PARA SALVAR O CLÃ BOLSONARO

Cris Couto

Nos últimos dias, a cobertura política brasileira voltou a escancarar um velho problema: a seletividade de parte da mídia quando o assunto envolve a extrema-direita bolsonarista. Quando os fatos atingem aliados de Bolsonaro, o tom costuma ser cauteloso. Quando surge qualquer oportunidade de insinuar algo contra o campo progressista — ainda que sem provas — o tratamento rapidamente vira espetáculo. A QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO E FISCAL DE LULINHA NÃO REVELOU NADA DE ILEGAL, NEM HOUVE DEPÓSITOS DO “CARECA DO INSS”, mas o falso “escândalo” dos R$ 19 milhões foi a cortina de fumaça perfeita para tirar o Banco Master e os bolsonaristas das manchetes.

O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master e à fraude do INSS, deveria ter colocado no centro do debate justamente as conexões políticas reveladas pelas investigações. Ao analisar o CELULAR DE VORCARO, INVESTIGADORES ENCONTRARAM CONTATOS DE 18 PARLAMENTARES LIGADOS À EXTREMA-DIREITA, ENTRE ELES O DEPUTADO NIKOLAS FERREIRA, UM DOS PRINCIPAIS NOMES DO BOLSONARISMO NO CONGRESSO. E não se trata apenas de um contato na agenda telefônica. NIKOLAS FERREIRA VIAJOU PELO MENOS DEZ VEZES NO JATO PARTICULAR DE VORCARO DURANTE A CAMPANHA ELEITORAL DE 2022, quando participava de agendas e eventos políticos em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro. Essas viagens não foram declaradas à Justiça Eleitoral, o que levanta questionamentos evidentes sobre financiamento e apoio logístico de campanha, além de flagrante crime eleitoral.

Em qualquer democracia onde o jornalismo leve a sério as relações entre poder econômico e poder político, esse tipo de informação estaria no centro da cobertura. Mas não foi isso que aconteceu. Em vez de aprofundar as conexões políticas reveladas pelas investigações, parte da imprensa preferiu concentrar atenção na quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o “Lulinha”. E aqui está um detalhe essencial que raramente aparece nas manchetes: LULINHA SEQUER É INVESTIGADO NO CASO. Mesmo assim, seu sigilo foi quebrado no âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito – CPMI.

A condução da CPMI gerou forte reação porque não se tratou apenas de um debate regimental ou de questionamentos formais. Houve FRAUDE NA PRÓPRIA VOTAÇÃO que derrubou o sigilo bancário de Lulinha, apontadas por parlamentares e amplamente repercutidas na cobertura política. Ainda assim, a quebra de sigilo foi levada adiante. É verdade que o ministro Flávio Dino (STF) proibiu essa quebra de sigilo, mas, aparentemente, ninguém respeitou a decisão judicial, visto que os dados bancários de Lulinha foram manchete dos principais veículos de comunicação.

Ressalte-se, ainda, que antes da quebra ilegal do sigilo de Lulinha, Aline Bárbara Mota, ex-secretária e responsável financeira do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, negou, durante depoimento à CPMI do INSS, ter comprado passagens ou repassado dinheiro a Lulinha.

Além disso, a base governista e especialistas apontam outro padrão preocupante dessa CPMI. O presidente da CPMI, Carlos Viana, tem colocado em votação principalmente requerimentos que ferem a imagem do governo, enquanto pautas que poderiam atingir aliados da extrema-direita simplesmente não avançam. Um exemplo citado é LETÍCIA CAETANO DOS REIS, GERENTE DO ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA DO SENADOR FLÁVIO BOLSONARO. Ela foi indicada devido a POSSÍVEIS VÍNCULOS ENTRE O ESCRITÓRIO DO SENADOR E O NÚCLEO INVESTIGADO POR FRAUDES EM EMPRÉSTIMOS CONSIGNADOS. Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, apontado pela Polícia Federal como sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, em uma empresa offshore. Como administradora do escritório de Flávio Bolsonaro desde 2021, acreditava-se que ela pudesse esclarecer conexões financeiras ou operacionais entre a banca e empresas envolvidas no esquema. No entanto, esses nomes não foram objeto de votação específica e destacada devido à blindagem de Viana. A seletividade levanta uma pergunta inevitável: por que certos nomes são investigados com tanto entusiasmo enquanto outros parecem blindados?

Outro ponto importante quase não destacado é que a quebra de sigilo promovida pela CPMI teve também um evidente caráter midiático. Isso porque a medida já havia sido determinada anteriormente pelo ministro do STF responsável pelo caso, André Mendonça, relator do processo no Supremo. Ou seja: o acesso aos dados já estava autorizado pela Justiça. Mesmo assim, a CPMI decidiu repetir a medida, transformando o tema em espetáculo político.

Há ainda outro detalhe relevante. O próprio Lulinha já havia disponibilizado espontaneamente seus dados e movimentações, independentemente de qualquer decisão judicial ou parlamentar. E quando o sigilo foi quebrado, o resultado foi claro: NÃO APARECEU ABSOLUTAMENTE NADA DE ILEGAL.

Muito se falou sobre os R$ 19 milhões associados a Fábio Luís Lula da Silva, mas o detalhamento mostra o que realmente ocorreu. Trata-se de MOVIMENTAÇÃO FINANCEIRA TOTAL DE 4 ANOS, E NÃO DE DINHEIRO ACUMULADO. Aproximadamente R$ 9 milhões correspondem a entradas e cerca de R$ 9 milhões a saídas dentro de suas atividades empresariais, no período de 4 anos. Entre essas movimentações estão pagamentos feitos a ex-sócios e também valores recebidos como adiantamento de legítima de seu pai, algo plenamente permitido pela legislação brasileira. Ou seja: NENHUMA IRREGULARIDADE FOI ENCONTRADA. AINDA ASSIM, DIVERSOS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO PUBLICARAM MANCHETES SENSACIONALISTAS, SUGERINDO ESPANTO E IRREGULARIDADES ONDE, NA PRÁTICA, NADA DE ILEGAL HAVIA OCORRIDO. É verdade que alguns desses veículos, apesar das manchetes problemáticas, explicavam no corpo das reportagens que não havia ilegalidade nas movimentações. O problema é que, no Brasil, grande parte das pessoas não lê a matéria completa e acaba ficando apenas com o impacto da manchete. E, nesse caso, o estrago já estava feito. Essa parte da imprensa trabalha para tirar Lula do poder e, por conseguinte, ajudar a elite e prejudicar o pobre.

Ademais, a quebra de sigilo do Lulinha buscava uma resposta simples: HOUVE RECEBIMENTO ILEGAL DE RECURSOS LIGADOS AO CHAMADO “CARECA DO INSS”? A RESPOSTA FOI NÃO. Era isso que deveria ter virado manchete, e não a tentativa de transformar quatro anos de movimentações financeiras de Fábio Luís Lula da Silva em escândalo.

Enquanto isso, outros números muito mais relevantes parecem despertar bem menos interesse. EM APENAS UM ANO, O EX-PRESIDENTE JAIR BOLSONARO MOVIMENTOU CERCA DE R$ 44 MILHÕES, sem que se soubesse a origem desse dinheiro. Parte desses recursos — aproximadamente R$ 2 milhões — foi enviado ao deputado Eduardo Bolsonaro, que passou a atuar politicamente nos Estados Unidos em articulações e pressões contra interesses brasileiros, incluindo discussões sobre tarifas comerciais.

Também chama atenção a rede financeira ao redor do caso do Banco Master. ZETTEL, CUNHADO E SÓCIO DE VORCARO, APARECE COMO UM GRANDE DOADOR POLÍTICO, TENDO DESTINADO CERCA DE R$ 3 MILHÕES PARA BOLSONARO E R$ 2 MILHÕES PARA O GOVERNADOR PAULISTA TARCÍSIO DE FREITAS.

Zettel também possui ligação religiosa com o campo político da extrema-direita. Ele é pastor da Igreja Batista da Lagoinha, a mesma igreja frequentada por Nikolas Ferreira. Esse contexto ajuda a entender por que alguns observadores olham com preocupação para o fato de que o caso na Suprema Corte tenha como relator André Mendonça, ministro indicado por Bolsonaro e que o próprio ex-presidente descreveu como “terrivelmente evangélico” ao justificar sua indicação ao tribunal.

Outro episódio curioso envolve uma conversa mencionada por Daniel Vorcaro sobre um encontro com o presidente Lula. Em mensagens privadas, o banqueiro teria dito à namorada que a conversa com Lula havia sido “ótima”, algo que acabou aparecendo na mídia em tentativas de vincular o presidente à fraude envolvendo o Banco Master. A grande imprensa parece ter ignorado, no entanto, um fato relevante: foi justamente durante o governo Lula que a fraude veio à tona e que os responsáveis passaram a ser investigados. Criminosos pertencentes à elite econômica — ou, como o próprio Lula costuma dizer, ao “andar de cima” — estão sendo processados e presos. Além disso, não é possível saber sequer se Vorcaro realmente teve a impressão de que o encontro com o presidente foi positivo ou se apenas tentou tranquilizar sua namorada na conversa privada. Isso porque, segundo relatos divulgados na imprensa, Lula recebeu Vorcaro rapidamente, chamou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar do assunto e deixou claro que não haveria privilégio nem perseguição: o caso seria conduzido estritamente dentro da lei. Disse o presidente Lula: “ELE (VORCARO) ME CONTOU DA PERSEGUIÇÃO QUE ELE TAVA SOFRENDO, QUE TINHA GENTE INTERESSADO EM DERRUBAR ELE. O QUE EU DISSE PRA ELE É QUE NÃO HAVERÁ POSIÇÃO POLÍTICA PRÓ OU CONTRA O BANCO MASTER, O QUE HAVERÁ SERÁ UMA INVESTIGAÇÃO TÉCNICA, FEITA PELO BANCO CENTRAL”. O PRESIDENTE AINDA ESCLARECEU QUE “A POLÍTICA NÃO ENTRARÁ NA INVESTIGAÇÃO, O QUE VAI ENTRAR É A COMPETÊNCIA TÉCNICA DO BANCO CENTRAL PRA SABER SE TÁ ERRADO OU NÃO TÁ ERRADO, SE QUEBROU OU NÃO QUEBROU, SE TEM DINHEIRO LAVADO OU NÃO TEM. É ISSO QUE ESTÁ SENDO FEITO”. Após a reunião com Vorcaro, o presidente Lula chamou Fernando Haddad, ministro da Fazenda, Gabriel Galipolo, presidente do Banco Central e Paulo Gonet, Procurador-Geral da República, para comentarem sobre as relações com o Banco Master. Na ocasião, afirmou o presidente NÓS ESTÁVAMOS DIANTE DA PRIMEIRA CHANCE REAL DE PEGAR OS MAGNATAS DA CORRUPÇÃO DE LAVAGEM NESSE PAÍS. NÃO ME IMPORTA QUE ENVOLVA POLÍTICO, PARTIDO, BANCO…QUEM TIVER METIDO NISSO VAI TER QUE PAGAR O PREÇO DO MAIO ROMBO DA HISTÓRIA DESSE PAÍS“.

Essa postura institucional contrasta com o histórico recente do país. Jair Bolsonaro, durante seu governo, interferiu na Polícia Federal justamente para proteger aliados e familiares. Há gravações que comprovam essa interferência. E isso gerou grave crise institucional e marcou o debate político brasileiro. Hoje o cenário é outro: O CASO DO BANCO MASTER VEIO À TONA JUSTAMENTE PORQUE A POLÍCIA FEDERAL DO PRESIDENTE LULA INVESTIGOU E PODE TRABALHAR SEM INTERFERÊNCIA POLÍTICA. Ainda assim, tenta-se transformar o episódio em um problema do governo Lula.

Outro capítulo dessa disputa narrativa envolveu a divulgação de supostas mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes (STF) e o banqueiro Daniel Vorcaro. A informação circulou rapidamente em parte da mídia, sugerindo uma interlocução entre ambos. No entanto, a própria assessoria do Supremo divulgou nota esclarecendo que os dados analisados não confirmavam essa versão. SEGUNDO O TRIBUNAL, OS REGISTROS EXTRAÍDOS DO CELULAR DE VORCARO NÃO ESTAVAM ASSOCIADOS AOS CONTATOS DO MINISTRO. O episódio foi discutido inclusive em programas de análise política da GloboNews, onde a jornalista Natuza Nery apontou inconsistências na narrativa divulgada inicialmente. Além disso, o DEPUTADO FEDERAL ROGÉRIO CORREIA CHEGOU A APRESENTAR PUBLICAMENTE OS PRINTS QUE SUPOSTAMENTE INCRIMINARIAM MORAES, MAS O CONTEÚDO EXIBIDO NÃO DEMONSTRAVA QUALQUER TROCA DE MENSAGENS DIRETA COM O MINISTRO. No fim das contas, NÃO SURGIU QUALQUER EVIDÊNCIA CONCRETA QUE SUSTENTE A TENTATIVA DE VINCULAR MORAES AO CASO. O episódio acabou revelando mais uma narrativa sem sustentação factual, utilizada para desgastar o ministro, que tem atuado com firmeza na responsabilização dos envolvidos nas tentativas de ruptura institucional no país, ou seja, processos que alcançam inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro.

As conexões políticas reveladas pelo celular de Daniel Vorcaro contam com nomes relevantes da extrema-direita bolsonarista, como é o caso do SENADOR CIRO NOGUEIRA, EX-MINISTRO DA CASA CIVIL DO GOVERNO JAIR BOLSONARO, QUE CHEGOU A ARTICULAR UMA PROPOSTA DE EMENDA CONSTITUCIONAL QUE, SEGUNDO RELATOS DIVULGADOS NA IMPRENSA, PODERIA BENEFICIAR DIRETAMENTE INTERESSES LIGADOS A VORCARO E AO BANCO MASTER. Em uma das mensagens, o próprio Vorcaro menciona o senador Ciro Nogueira como “grande amigo” e relata que ele teria ligado para tentar contornar a situação.

Também aparecem conexões políticas de Vorcaro com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e o governador de Brasília, Ibaneis Rocha, aliados do bolsonarismo. Esses vínculos reforçam a dimensão política do escândalo e ajudam a explicar por que determinadas investigações parecem avançar com dificuldade quando se aproximam de figuras importantes da extrema-direita.

Outro episódio explorado de forma distorcida por parte da mídia envolve mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro em que ele chama o ex-presidente Jair Bolsonaro de “idiota” e “beócio”. A divulgação dessas mensagens foi rapidamente usada por alguns setores para tentar sugerir um afastamento político entre os dois — algo que, na prática, nunca aconteceu. As mensagens foram enviadas após Bolsonaro publicar em suas redes sociais uma reportagem sobre suspeitas envolvendo o Banco Master. DE ACORDO COM AS PRÓPRIAS CONVERSAS EXTRAÍDAS DO CELULAR DE VORCARO, O EX-PRESIDENTE TERIA FEITO A POSTAGEM PORQUE TERIA SIDO INFORMADO DE QUE O CASO ATINGIRIA O PT, razão pela qual decidiu divulgar o conteúdo acreditando estar atacando adversários políticos. O efeito, no entanto, acabou sendo o oposto: a publicação gerou forte repercussão negativa para a própria instituição financeira e prejudicou seus negócios. Irritado com o impacto da postagem, Vorcaro reclamou do ex-presidente em conversa privada com a namorada e afirmou que aliados políticos chegaram a interceder para tentar reduzir o dano causado pelo post.

Outro ponto que ajuda a compreender a dimensão do caso é a trajetória meteórica do Banco Master dentro do sistema financeiro brasileiro. O BANCO, CONTROLADO PELO EMPRESÁRIO DANIEL VORCARO, RECEBEU AUTORIZAÇÃO PARA OPERAR EM 2019, DURANTE O GOVERNO DE JAIR BOLSONARO. A partir daí, o crescimento da instituição chamou atenção. Mesmo diante de questionamentos sobre suas práticas e sobre a forma agressiva de expansão, o banco seguiu operando sem grandes obstáculos regulatórios. Na época, o Banco Central era presidido por Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro. Diante das suspeitas levantadas posteriormente, surge uma pergunta inevitável: tratou-se de omissão deliberada ou de grave negligência na supervisão do sistema financeiro? Apesar das controvérsias, o Banco Master foi autorizado a atuar em um dos mercados mais sensíveis do país: o crédito consignado. O banco passou a operar com desconto direto em folha de pagamento de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em 2021, o governo decidiu ampliar a margem consignável — ou seja, o percentual da renda que pode ser comprometido com empréstimos desse tipo. A medida foi conduzida pelo então ministro da Cidadania, João Roma, e pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, sendo formalizada com a assinatura do próprio presidente Bolsonaro. Na prática, a mudança abriu ainda mais espaço para a expansão do crédito consignado — e para os lucros das instituições financeiras que atuavam nesse mercado. As conexões políticas também chamam atenção. Em 2022, Fabiano Zetel, sócio do Banco Master e cunhado de Daniel Vorcaro, destinou cerca de R$ 5 milhões para financiar campanhas eleitorais, incluindo as de Jair Bolsonaro e do então candidato ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Enquanto isso, surgiram movimentos considerados controversos no setor financeiro. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, aliado político de Bolsonaro, tentou utilizar o Banco de Brasília (BRB) para adquirir o Banco Master. A tentativa levantou questionamentos sobre o uso de um banco público regional em uma operação que poderia beneficiar um grupo privado sob suspeita. O BRB foi o maior comprador de ativos do Master entre 2024 e 2025, mesmo após alertas de risco e sinais claros de que o banco privado enfrentava sérios problemas de liquidez. De acordo com o sistema IF.data do Banco Central, a carteira de crédito do BRB saltou de R$ 37 bilhões para R$ 57 bilhões, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, um crescimento de R$ 20 bilhões em apenas 12 meses. Deste total, ao menos R$ 12,2 bilhões são decorrentes de operações com o Banco Master. Ou seja, mais de 20% da carteira foi atrelada a papéis do banco que viria a quebrar. Trata-se de uma exposição que, segundo especialistas, compromete a solidez da instituição.

 O histórico do BRB também adiciona mais um elemento ao escândalo. O banco foi responsável por conceder um empréstimo que ajudou o senador Flávio Bolsonaro a financiar a compra de uma mansão de cerca de R$ 6 milhões em Brasília — operação que também foi alvo de forte debate público. Diante desse conjunto de relações entre poder político, decisões regulatórias e interesses financeiros, críticos passaram a se referir ao caso como o esquema “Bolsomaster”, numa alusão à proximidade entre figuras do bolsonarismo e o crescimento do Banco Master.

Hoje, com o avanço das investigações sobre fraudes bilionárias e corrupção envolvendo o banco e seus dirigentes, cresce o debate sobre o papel das autoridades responsáveis pela supervisão do sistema financeiro naquele período e sobre as condições que permitiram a expansão acelerada da instituição antes de sua queda. Diante das suspeitas que vieram à tona, também se intensificaram as cobranças por mudanças nas regras de fiscalização e transparência do sistema financeiro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já mencionou a necessidade de revisar aspectos da legislação e do arcabouço regulatório para evitar situações semelhantes no futuro. Segundo relatos de bastidores, o controlador do banco, Daniel Vorcaro, chegou a procurar Haddad em meio à crise, mas o ministro optou por não recebê-lo — gesto interpretado por interlocutores do governo como uma tentativa de manter distância institucional enquanto as investigações seguem em andamento.

No entanto, a mídia vem deixando de noticiar fatos importantes e, ao mesmo tempo, insiste em repetir manchetes contra o filho do presidente Lula. O objetivo é claro: desgastar a imagem do presidente e enfraquecer suas chances de reeleição. Parte da elite brasileira jamais aceitou que um nordestino retirante chegasse à Presidência da República. A elite brasileira ainda carrega, em muitos casos, um pensamento de raiz escravocrata, segundo o qual o trabalhador deve permanecer em condições precárias para aceitar salários baixos e relações de trabalho injustas. E isso é algo que Lula nunca aceitou. Quer gostem ou não, a própria história demonstra que foi durante os governos de Lula que os mais pobres conquistaram dignidade e melhores condições de vida. Prova disso é que, mesmo diante de inúmeras evidências que ligam Vorcaro ao bolsonarismo, duas novas notícias de caráter duvidoso foram publicadas.

 Primeiro, a Globo apresentou um “powerpoint” MENTIROSO com supostas relações de Vorcaro e incluiu o presidente Lula — que teve contato com ele por poucos minutos e não o ajudou, muito pelo contrário — além do ministro Alexandre de Moraes, numa tentativa evidente de manchar reputações e alimentar narrativas que interessam a setores golpistas. Curiosamente, a Globo sequer mencionou o financiamento milionário de Vorcaro a Bolsonaro, nem o apoio dado por Campos Neto ao banco Master.

Em segundo lugar, recente matéria do portal Metrópoles afirma que empresas de Lulinha, registradas em São Paulo, estariam fisicamente vazias há sete meses. Em resposta, o advogado Guilherme Suguimori classificou a reportagem como parte de uma “campanha midiática seletiva”. Segundo ele, como Lulinha reside atualmente em Madri, na Espanha, os endereços funcionam apenas como sedes fiscais para recebimento de correspondências e cumprimento de obrigações legais, sem necessidade de equipe presencial.  Manter uma empresa registrada apenas como endereço fiscal — destinada ao recebimento de correspondências e ao cumprimento de obrigações legais — é uma prática plenamente possível e legal no Brasil. O próprio Código Civil, em seu artigo 75, inciso IV, estabelece que o domicílio da pessoa jurídica é o local de sua sede, isto é, o endereço oficialmente registrado para fins jurídicos e administrativos. Já o artigo 1.142 do mesmo diploma legal define o “estabelecimento empresarial” como o conjunto de bens organizado para o exercício da empresa, sem exigir que a sede formal necessariamente corresponda a um espaço com atividade operacional permanente. Em outras palavras, A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA NÃO EXIGE A PRESENÇA FÍSICA DE FUNCIONÁRIOS OU FUNCIONAMENTO COTIDIANO NO ENDEREÇO DA SEDE PARA QUE A EMPRESA ESTEJA REGULAR.

O episódio, porém, levanta uma questão mais ampla: a seletividade com que determinados casos recebem atenção midiática. Reportagens da Agência Pública e do UOL já mostraram, por exemplo, QUE A EMPRESA DE CURSOS LIGADA A EDUARDO BOLSONARO OPERAVA EM UM ENDEREÇO SEM IDENTIFICAÇÃO EM SÃO PAULO, compartilhando espaço com uma loja virtual. Posteriormente, O EDUARDO BOLSONARO TAMBÉM ABRIU UMA HOLDING NO TEXAS REGISTRADA EM UMA RESIDÊNCIA PARTICULAR NOS ESTADOS UNIDOS. Na ocasião, tais informações não geraram o mesmo volume de manchetes ou o mesmo tom de suspeição.

No fim das contas, o que o caso revela é menos sobre Lulinha e muito mais sobre o funcionamento da velha engrenagem política e midiática brasileira. Quando SURGEM INDÍCIOS QUE ATINGEM FIGURAS E ALIADOS DO BOLSONARISMO — JATINHOS DE CAMPANHA, RELAÇÕES FINANCEIRAS, DOAÇÕES MILIONÁRIAS E CONEXÕES COM PARLAMENTARES — RAPIDAMENTE SE TENTA PRODUZIR UM ESCÂNDALO PARALELO PARA DESLOCAR O FOCO. Foi assim na Operação Lava Jato, e o roteiro parece reaparecer agora: insinuações, vazamentos seletivos e manchetes construídas para atingir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por meio de seu filho. A diferença é que, desta vez, o próprio desfecho da história desmente a narrativa.

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