Cris Couto
Dando sequência ao post da semana passada, hoje concluiremos a análise das causas profundas – políticas, sociais, culturais e históricas – que possibilitaram a ascensão do bolsonarismo no Brasil.
Bolsonaro USOU A CREDIBILIDADE DO EXÉRCITO para disputar a corrida eleitoral como “o candidato das Forças Armadas”. O presidente até hoje não se cansa de se apresentar como um militar! Ora, Bolsonaro foi EXPULSO DO EXÉRCITO! O ex-presidente e general Ernesto Geisel declarou que “Bolsonaro era um mau militar e que pedia novo golpe”. BOLSONARO NUNCA FOI O CANDIDATO DO EXÉRCITO. E nem poderia ser, pois conforme o Decreto 4346/02, os militares do Exército e de todas as organizações militares brasileiras são proibidos de se manifestar sobre questões políticas e partidárias. Porém, é inegável que parte do exército apoia Bolsonaro. Prova disso é que nunca houve tantos militares assumindo cargos no governo federal.
É importante destacar que o presidente, durante todo o seu governo, buscou mobilizar politicamente o exército e as polícias estaduais, utilizando-se de diversos expedientes: verbas generosas para as Forças Armadas, inclusive para compra de CERVEJA (80 mil unidades), PICANHA (700 toneladas de carne para churrasco), BACALHAU (9 mil quilos de bacalhau e 139 mil quilos de lombo do mesmo peixe), CONHAQUE (660 garrafas) E UÍSQUE (10 garrafas de uísque 12 anos); possibilidade de policiais financiarem 100% a compra de imóveis, com subsídios do Ministério da Justiça; ao fixar os gastos do Orçamento da União de 2021, o presidente privilegiou os recursos destinados às Forças Armadas, aumentando-os de R$ 105,6 bilhões, em 2020, para R$ 110,7 bilhões este ano; aumento salarial a policiais civis e militares e bombeiros do Distrito Federal e militares do Amapá, Roraima e Rondônia; reajuste de até 73% na bonificação salarial concedida aos militares que fazem cursos ao longo da carreira, o que custará R$ 26,54 bilhões em cincos anos, dentre outros benefícios. Por quê? Tudo indica que Bolsonaro busca garantir o apoio das Forças Armadas, para que, caso não seja reeleito, consiga permanecer no poder por meio de um golpe. Trataremos disso em outra conversa.
O atentado a faca sofrido durante a campanha foi um episódio lamentável, sem dúvida, mas também pode ser apontado como fator que ajudou a eleger Bolsonaro. Principalmente pelo fato de que proporcionou a desculpa perfeita para que o “mito” NÃO COMPARECESSE AOS DEBATES ELEITORAIS. Bolsonaro é uma pessoa rude, sem muita cultura. Na maioria das vezes, não consegue construir uma linha de pensamento lógico, com começo, meio e fim. Se tivesse comparecido aos debates, com certeza teria desmotivado muitos daqueles que pretendiam depositar nele sua confiança – e seu voto. O fato de que a condição de saúde do candidato foi usada como desculpa para poupá-lo de ter que debater com os demais candidatos ficou evidente: Bolsonaro alegava que não podia comparecer aos debates, mas participava de vários outros eventos públicos.
E o apelo ao chamado “cidadão de bem”? Também foi um lance de marketing inteligente. O problema é que, embora o cidadão de bem de Jair Bolsonaro não seja o mesmo da maioria das pessoas, elas não entenderam isso! Para Bolsonaro, por exemplo, ser um cidadão de bem é andar armado, não ser homossexual (e rejeitar quem o seja), achar natural que mulher receba um salário menor do que um homem, dentre outros absurdos que Bolsonaro e sua família propagam abertamente até hoje, promovendo, junto à população brasileira, a homofobia, a xenofobia, o racismo e o ódio!
Outra bandeira levantada por Bolsonaro era que ele representava a “nova política” e que “não era corrupto”. Já se sabe que nada há de novo na política bolsonarista. Isso ficou evidente após a aproximação de Bolsonaro com os partidos que compõe o chamado “centrão”. E o fato de não ser corrupto? Sem contar as famosas “rachadinhas”, que já são marca registrada da família Bolsonaro, há o suspeito depósito de 89 mil reais na conta de Michelle Bolsonaro. Que dinheiro é esse? O presidente afirma que havia feito um empréstimo a Queiroz, que resolveu pagar depositando na conta da primeira dama. Mas se isso é verdade, onde está o comprovante do empréstimo? Onde estão os cheques dados por Bolsonaro a Queiroz ou mesmo prova desse valor na declaração de imposto de renda do presidente? Não há qualquer evidência desse empréstimo. O fato é que esse valor depositado por Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro representa apenas a ponta do iceberg de uma transação financeira obscura entre a família Bolsonaro e Queiroz, que, como se sabe, é ligado aos milicianos do Rio de Janeiro. Ana Cristina Siqueira Valle, ex-esposa do presidente, comprou 14 imóveis, parte deles em DINHEIRO VIVO, enquanto casada com Bolsonaro. Ana Cristina, que não possuía nenhum bem, saiu da relação matrimonial com um patrimônio de R$ 5,3 milhões em valores corrigidos pela inflação. Muito estranho, para dizer o mínimo!
Além disso, para quem se apresentava como um candidato anticorrupção, Bolsonaro se cercou de figuras corruptas, pôs em dúvida o sistema judiciário e apoiou ações predatórias contra a Amazônia que enriqueceram muitos proprietários de terras. Bolsonaro chegou a ser eleito o “corrupto do ano” pela mídia internacional!
Bolsonaro despreza a democracia! Há tempos seus atos e falas demonstram que o presidente, assim como seus filhos e apoiadores mais próximos, nutre verdadeira ojeriza ao Estado Democrático de Direito e, em contrapartida, uma preferência explícita pela ditadura militar. Isso é sim inacreditável, uma vez que Bolsonaro e 3 dos seus 5 filhos FIZERAM DA POLÍTICA SUA PROFISSÃO, em pleno regime democrático! Muitos brasileiros, no entanto, embarcaram na ilusão de que jamais houve golpe militar no Brasil e que durante os governos militares (1964-1985) não havia corrupção, que tudo, enfim, era lindo e maravilhoso. Trata-se de um pensamento equivocado, sem base na realidade histórica! Explico. Houve sim um GOLPE CIVIL-MILITAR no Brasil, em 1964, cuja justificativa era impedir a tomada do poder pelos comunistas. Mas quem tem um mínimo de conhecimento historiográfico sabe que o então presidente João Goulart, eleito democraticamente, não tinha nada de comunista; queria, isso sim, implementar algumas reformas que favorecessem a população mais pobre, dentre elas a reforma agrária, palavra que é quase uma ofensa à elite brasileira. No período militar que se seguiu ao golpe de 1964, houve muita corrupção, que, entretanto, não era noticiada, pois quem ousasse dizer qualquer coisa do gênero, simplesmente era morto ou desaparecia. Havia muita tortura e muita censura. Aquele que pretendesse pensar para além do que o regime permitia, era brutalmente intimidado. Escolas e faculdades passaram a ser monitoradas, e professores cassados e perseguidos. Só se podia ensinar o que o governo militar achasse conveniente. E o conveniente era achar que tudo estava perfeito, ser religioso (católico) e respeitar os militares acima de tudo. Qualquer pensamento contrário ou qualquer questionamento…CUIDADO! Em razão da precariedade da educação no Brasil, a maioria da população não sabe ou não entende o que realmente representou o período ditatorial. Outras, mesmo que tenham recebido ótima educação e acesso ao conhecimento histórico, nutrem um pensamento elitista que rejeita a igualdade e o respeito a certos valores e direitos consagrados na Constituição democrática de 1988. E são essas as pessoas que vão às ruas pedir “intervenção militar com Bolsonaro no poder” e o fechamento do Congresso Nacional e do STF!
Engana-se quem acredita que a vitória de Bolsonaro foi simplesmente mais um “passo fora da cadência”. Também se ilude quem acredita que Bolsonaro não tem chances reais de ser reeleito, simplesmente por não ter feito nada de construtivo ou por ter feito do Brasil um pária internacional ou, ainda, por ter errado em toda a condução da pandemia e provocado, direta ou indiretamente, a morte de milhares de brasileiros. Quem enxerga o jogo eleitoral dessa maneira, está tendo uma visão míope! O presidente mesmo afirmou que “O Brasil não é um terreno aberto onde nós iremos construir coisas para o nosso povo. Nós temos que desconstruir muita coisa“. E isso ele fez de sobra: destruiu a imagem do Brasil, destruiu o meio ambiente, destruiu empregos e vidas!
A eleição de Bolsonaro representa um PROJETO DE PODER DA EXTREMA-DIREITA. E para levar adiante esse projeto, Bolsonaro está disposto a qualquer coisa. Prova disso é que o presidente nunca “desceu do palanque”. Bolsonaro nunca se comportou como presidente, pelo fato de que seu objetivo não era simplesmente alcançar a Presidência. O escopo da extrema-direita é a perpetuação do poder e, para isso, não é necessário ser um bom presidente. Não! É melhor ser um “bom candidato”: aquele que mente, que ludibria, que joga a culpa dos problemas nos outros. A narrativa do voto impresso já é um indício de que Bolsonaro, caso perca as eleições presidenciais de 2022, não aceitará a derrota! Ele mobilizará seus apoiadores, dentre estes a polícia e parte do exército.
A leviandade de se questionar os votos e pôr em dúvida as instituições democráticas, praticada em 2014 pelo então candidato à presidência Aécio Neves, também contribuiu para que emergisse o “mostro do Lago Ness” tupiniquim! Com a extrema direita não se brinca. São perigosos e gostam do poder! Brasil acima de tudo, Deus acima de todos! O problema é que, para essa extrema direita, eles são Deus!
Um comentário em “O QUE FEZ BOLSONARO CHEGAR À PRESIDÊNCIA DO BRASIL? – PARTE FINAL”