O BRASIL PRECISA DE UM HERÓI? – FINAL

Cris Couto

Neste post, daremos sequência à análise do processo pelo qual oportunistas demagogos criaram, em parte da população brasileira, uma imagem de heróis e salvadores nacionais.

O mês de junho de 2013 foi uma ruptura na história do Brasil e, para muitos estudiosos de política, foi um mês que ainda não terminou. Explico. Foi a partir desse período fatídico que alguns oportunistas vislumbraram a oportunidade de disseminar suas ideologias extremistas com fins políticos e eleitorais. ESSAS FIGURAS NUNCA FORAM CONTRA A CORRUPÇÃO! Aliás, alguns até se enriqueceram devido às práticas correntes da corrupção institucional. Mas souberam fomentar o ódio na população para chegar ao poder. Muitos eleitores, desiludidos, passaram a sentir a necessidade de ter um “herói”, ou seja, uma pessoa acima do bem e do mal disposta a sacrificar sua vida para salvar o Brasil!!! Mas, na verdade, esses “heróis” que de repente surgiram na sociedade brasileira, são GRANDES OPORTUNISTAS que aproveitaram a chance de obter visibilidade nacional e chegar ao poder. Nada além disso! Esses PSEUDO-HERÓIS SÃO DEMAGOGOS que propagam o ódio, usam o nome de Deus como instrumento para atrair eleitores religiosos, fingem ser contra a corrupção e tentam passar a imagem de “salvadores da pátria”.

Podemos citar dois personagens da política brasileira que resumem muito bem essa figura do PSEUDO-HERÓI: Jair Bolsonaro e Sérgio Moro. No que tange ao presidente, cumpre ressaltar que, até pouco tempo antes do pleito presidencial de 2018, poucas pessoas o conheciam. Apesar de estar na política há cerca de 30 anos, Bolsonaro sempre foi inexpressivo e nunca foi o representante da nova política, como se vendeu na campanha eleitoral. Aliás, BOLSONARO É A FOTOGRAFIA DA VELHA, ABJETA E VIL POLÍTICA. As “rachadinhas” já são marca registrada da família Bolsonaro, bem como o suspeito depósito de 89 mil reais na conta de Michelle Bolsonaro feita pelo Queiróz, que possui forte relação com milicianos do Rio de Janeiro; o uso indevido do apartamento funcional, mesmo possuindo imóvel próprio em Brasília – Bolsonaro disse que usava o imóvel funcional para “comer gente” – e das aquisições de mais de 15 imóveis, muitos comprados com DINHEIRO VIVO, dentre outros ilícitos, como funcionários fantasmas e superfaturamento em notas de postos de gasolina. Todos esses fatos configuram CRIMES, alguns de corrupção. Há quem diga que tudo isso é pouco perto da corrupção de outros agentes públicos. Mas essa justificativa não se sustenta. Em primeiro lugar, esses são os crimes descobertos até agora, mas muitos outros estão vindo à tona. Não se pode esquecer, por exemplo, as investigações da CPI da covid que, ao que tudo indica, alcançam diretamente o Palácio do Planalto. Em segundo lugar, independentemente do valor que engordou o patrimônio da família Bolsonaro, o fato é que crime é crime. Mas parte do povo sente necessidade de acreditar que Bolsonaro é diferente, mesmo diante de todos os fatos que comprovam o contrário.

Um outro personagem que caiu nas graças do povo é o ex-juiz Sérgio Moro. O juiz Federal de Curitiba ganhou projeção nacional com a Operação Lava-Jato que, na minha opinião, começou muito bem, mas devido à ambição política de alguns de seus membros, desvirtuou-se e cometeu equívocos que abalaram sua credibilidade. Os processos contra o ex-presidente Lula que estavam na Vara de Curitiba, por exemplo, foram, no mínimo, heterodoxos do ponto de vista jurídico. As audiências, o comportamento do juiz em relação à defesa, a obtenção das “provas”, nada correu de forma “normal”. A agilidade do julgamento então, nem se fala! Mas o pior mesmo foram as sentenças! O próprio ex-juiz Moro chegou a dizer que “Não há prova de que os recursos obtidos pela OAS com o contrato com a Petrobrás foram especificamente utilizados para pagamento ao Presidente.” A única “prova” foi a palavra de um delator que, aparentemente, foi coagido a imputar culpa a Lula na esperança de ter as penas reduzidas e que deveria apresentar, como a própria legislação prevê, alguma prova concreta, além de sua própria palavra, mas que nada apresentou. Aliás, o próprio Procurador Federal chegou a afirmar que “Não tenho prova, mas tenho convicção”. Ora, estamos em um Estado Democrático de Direito! Para alguém perder seu direito à liberdade não basta convicção de opositores políticos ou promotores: é necessário que se apresentem provas. Ninguém está afirmando que o ex-presidente Lula é inocente. Não! O que se está afirmando é que, diante dos meros indícios probatórios levantados nos processos, Lula não poderia ser considerado culpado. Em resumo: NÃO HAVIA PROVAS nas sentenças do juiz Moro! Mas Moro não agiu apenas para salvar o país da corrupção? Como? Sendo corrupto? Em primeiro lugar: nada, absolutamente nada pode fazer com que um juiz condene alguém sem provas! Ah, mas todo mundo sabe da corrupção do PT. Sim, todos sabem que houve muita corrupção durante os governos petistas, mas nada prova – de forma robusta, contundente e inequívoca – que Lula foi responsável ou conivente com a corrupção ocorrida em seu governo, a qual, aliás, existiu em todos os outros governos anteriores e posteriores a ele, em especial no que tange à Petrobrás e às empreiteiras. Ora, se queremos que haja justiça, sejamos justos!

Ademais, conforme o art. 317 do Código Penal, é CORRUPÇÃO PASSIVA “solicitar ou receber, para si ou para outros, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, VANTAGEM INDEVIDA, ou aceitar promessa de tal vantagem”. Como se pode verificar com uma simples leitura, para haver corrupção não é necessário receber dinheiro. Pode haver inúmeras outras vantagens, que não o dinheiro em espécie. E está claro que Sérgio Moro recebeu vantagem indevida ao condenar à prisão o principal candidato à presidência da República, retirando-o do pleito eleitoral e, assim, pavimentando a vitória de Bolsonaro que, coincidentemente o convida para ser ministro da Justiça! Tratou-se de ação sorrateira contra o Estado Democrático de Direito, contra a Constituição Federal e leis infraconstitucionais, em especial o Código Penal e o Código de Processo Penal. Ora, um juiz que se diz contra a corrupção, em primeiro lugar, não aceitaria ser ministro de Jair Bolsonaro, pelos motivos já explicitados. Além disso, não iria se aventurar na política durante a operação mais importante contra a corrupção da história do Brasil. E pior, por muito tempo, como ministro da Justiça, Moro acobertou todos os desmandos do presidente. Apenas saiu do governo por se ver contrariado. E mais, saiu para tentar limpar sua imagem para uma possível candidatura nas próximas eleições, pois parcela considerável da população ainda o vê como um herói nacional. Em outra oportunidade, falaremos mais de Sérgio Moro, pois os crimes por ele cometidos vão muito além do crime de corrupção.

O fato é que o Brasil NÃO PRECISA DE HERÓIS! Nosso país precisa de pessoas honestas e dispostas a trabalhar em um cargo eletivo em prol dos interesses da população. Precisamos de homens e mulheres dignos, que não queiram dividir a sociedade brasileira. Em uma democracia, a disputa e o debate político e ideológico não só devem ser respeitados, como incentivados, haja vista que é por meio desses debates que se originam grandes ideias e alguns consensos que só fazem bem à população. Mas impor uma ideologia e demonizar outra, criando polarização e radicalismo em nosso país, é inaceitável! O dramaturgo e contista alemão Bertolt Brecht já dizia: “Infeliz a nação que precisa de heróis”. E isso é a mais pura verdade, pois quando se há a busca por heróis, o que geralmente emerge na política são os anti-heróis, pessoas sem caráter e sem qualificação que se aproveitam da desilusão dos eleitores e fazem tudo pelo poder.

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