Cris Couto
Em vários de seus discursos, o Presidente Jair Messias Bolsonaro, cita a passagem bíblica “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (João 8:32)”, a fim de mostrar ser um homem íntegro, com princípios, além de querer angariar a simpatia e, principalmente, os votos dos evangélicos, bem como de outros cristãos. É bem verdade que, na maioria das vezes em que Bolsonaro citou essa passagem bíblica, nada tinha a ver com o contexto de sua fala. Em muitas das vezes, aliás, ficou a impressão de que ele não sabia como dar continuidade ao assunto sobre o qual estava falando ou não sabia responder a um questionamento feito pela imprensa e, para se sair bem com os seus apoiadores, acabou citando, talvez, o único versículo que conseguiu decorar: João 8:32 – “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Mas a pergunta que fica é: o que acontecerá se o povo e o judiciário REALMENTE souberem das verdades sobre Jair Bolsonaro? Sim, o POVO e não a pequena parcela da sociedade que chancela todas as arbitrariedades e as atrocidades feitas e ditas pelo presidente, por pensar igual a ele, bem como o verdadeiro JUDICIÁRIO, e não aqueles que, apesar de estarem no quadro funcional da carreira, acabam concordando com tudo apenas para, talvez, conseguirem uma cadeira no STF ou um cargo no governo.
Durante a campanha presidencial, Bolsonaro tentou se esquivar da fama de racista, homofóbico, que discriminava índios, nordestinos e imigrantes. Claro, não queria correr o risco de perder votos de índios, mulheres, nordestinos, gays e negros. E mesmo havendo repercussão de alguns atos e falas do então candidato pela imprensa e por seus adversários políticos, muitos acreditavam e, surpreendentemente, até hoje acreditam que o presidente foi alvo de mentiras. Dessa forma, vale lembrar algumas falas de Bolsonaro que estão GRAVADAS pela mídia e pela história: “Com toda certeza, o índio mudou. Está evoluindo. Cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós (23/01/2020 – live em rede social)”; “O índio é um ser humano igual a nós, não é para ficar isolado em uma reserva como se fosse um zoológico (julho/2019 – durante evento no Exército do Rio de Janeiro); “Quem quiser vir aqui (Brasil) fazer sexo com mulher, fique à vontade. O Brasil não pode ser um país de turismo gay. Temos famílias (abril/2019 – encontro com evangélicos no Rio de Janeiro)”; “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens. A quinta eu dei uma fraquejada e aí veio uma mulher (abril/2017, palestra no Rio de Janeiro, enquanto ainda era deputado federal)”; “Não empregaria [homens e mulheres] com o mesmo salário. Mas tem muita mulher que é competente (fevereiro/2016 – entrevista ao programa Superpop, de Luciana Gimenez, na Rede TV)”; “Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão (julho/2019 – conversa com Onyx Lorenzoni, durante café da manhã com jornalistas); “Se for uma reforma de japonês, ele vai embora. Lá tudo é miniatura (maio de 2019 – em recado ao ministro Paulo Guedes sobre a reforma da previdência)”; “Eu jamais ia estuprar você porque você não merece (frase dita por Bolsonaro à deputada Maria do Rosário durante uma discussão nos corredores da Câmara dos Deputados, em 2003, diante de vários jornalistas e repetida, em 2014, na tribuna da Casa); “Por isso o cara paga menos para a mulher (porque ela engravida) (2014 – entrevista ao Jornal Zero Hora)”; “Para mim é a morte [ter filho homossexual]. Digo mais: prefiro que morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo (2011 – entrevista à revista Playboy)”; “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro, ele muda o comportamento dele. Tá certo? (2010 – declaração feita ao programa Participação Popular, da TV Câmara)”; “90% desses meninos adotados (por um casal gay) vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa com toda certeza” (afirmação reproduzida em 2012 no Programa Agora é tarde, da Band)”; “Não existe homofobia no Brasil. A maioria dos que morrem, 90% dos homossexuais que morrem, morrem em locais de consumo de drogas, em local de prostituição, ou executado pelo próprio parceiro (2013 – entrevista ao documentário britânico OUT THERE, exibido pela BBC)”; “Ele [índio] deveria ir comer um capim ali fora para manter as suas origens (Bolsonaro, em 2008, assim se referiu ao índio Jacinaldo Barboza, em reunião da Câmara que discutia a demarcação da reserva indígena)”; “Fui num quilombola em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais (2017 – palestra no Clube Hebraica)”; “Quem usa cota, no meu entender, está assinando embaixo que é incompetente. Eu não entraria num avião pilotado por um cotista. Nem aceitaria ser operado por um médico cotista (2011 – entrevista ao Programa CQC, da Band)”; “A escória do mundo está chegando ao Brasil como se não tivéssemos problemas demais para resolver (2015 – ao falar dos haitinanos, senegaleses, sírios, bolivianos ao Jornal Opção, de Goiás)”. Todas essas falas, ditas pelo presidente Bolsonaro, são eivadas de preconceito. E preconceito é CRIME, conforme a Lei nº 7.716/89, que visa preservar os objetivos fundamentais previstos na Constituição Federal, mais especificamente promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Ah, Bolsonaro tem esse jeito de falar qualquer coisa, mas pelo menos ele representa a nova política e não está envolvido com corrupção, não é? Não!!! Jair Messias Bolsonaro, capitão reformado do Exército, teve que abandonar a carreira militar após ter planejado a operação “Beco Sem Saída”, em 1987, que consistia em EXPLODIR BOMBAS em quartéis e academias militares para protestar pelos baixos salários. Aproveitando a fama adquirida por defender causas militares, Bolsonaro se tornou vereador no Rio de Janeiro, nas eleições municipais de 1988. Com apoio de militares de baixas patentes – a maioria dos generais, por sua vez, era contrária a ele – tornou-se deputado federal pelo Rio de Janeiro, em 1990. Permaneceu no Congresso por mais SEIS MANDATOS. Exerceu o cargo de deputado federal por 28 anos, a despeito de nunca ter se destacado. BOLSONARO ESTÁ NA POLÍTICA HÁ MAIS DE 30 ANOS, apesar de inexpressivo, pois, após todos esses anos como deputado, conseguiu aprovar apenas dois projetos. Que nova política ele representa? Nenhuma. Aliás, Bolsonaro é a fotografia da velha, abjeta e vil política.
Assim como outros políticos, Bolsonaro fez da política “um negócio de família”, tanto que três dos seus cinco filhos possuem cargos eletivos: Flávio, senador; Eduardo, deputado federal e Carlos, vereador no Rio de Janeiro, muito embora passe mais tempo em Brasília, comandando o conhecido “gabinete do ódio”. Em 28 anos, a família Bolsonaro nomeou para seus gabinetes 286 assessores, sendo que 102 pessoas possuíam laços familiares e, pelo menos 39 eram FUNCIONÁRIOS FANTASMAS. Mas isso é corrupção? Sim, no sentido amplo do termo, haja vista que se trata de desvio ou mau uso do dinheiro público. Para o senso comum, o termo corrupção é muitas vezes utilizado para fazer referência a todos os crimes que afetam, direta ou indiretamente, a Administração Pública, como o peculato, a prevaricação e a concussão. Segundo denúncias, Bolsonaro manteve um esquema de “rachadinhas” em seu gabinete, entre os anos de 1991 e 2018, e o uso de ex-funcionários comissionados para desvios de dinheiro público. Esse esquema também ocorreu no gabinete de Flávio Bolsonaro e, conforme Ministério Público do Rio de janeiro, os servidores eram obrigados a depositar parte dos salários na conta do ex-assessor Fabrício Queiroz, que hoje cumpre prisão domiciliar. Sim, o mesmo Queiroz que depositou 89 mil reais na conta de Michelle Bolsonaro. Que dinheiro é esse? O presidente afirma que havia feito um empréstimo a Queiroz, que resolveu pagar depositando na conta da primeira dama. Mas se isso é verdade, onde está o comprovante do empréstimo? Onde estão os cheques dados por Bolsonaro a Queiroz ou mesmo prova desse valor na declaração de imposto de renda do presidente? Não há prova desse empréstimo. O fato é que esse valor depositado por Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro representa apenas a ponta do iceberg de uma transação financeira obscura entre a família Bolsonaro e Queiroz, que, como se sabe, é ligado aos milicianos do Rio de Janeiro. Consta ainda que o Queiroz fazia muitos outros pagamentos para a família Bolsonaro: boletos, parcelas de apartamentos, mensalidades escolares e planos de saúde. O valor repassado e até então conhecido por Queiroz à família Bolsonaro é de quase 450 mil reais, cuja origem é desconhecida. O MP-RJ suspeita que o senador Flávio Bolsonaro tenha realizado vários negócios imobiliários com o objetivo de lavar dinheiro fruto dessas “rachadinhas”.
E por falar em negócios imobiliários, como a família Bolsonaro gosta de imóveis! Ana Cristina Siqueira Valle, ex-esposa do presidente, comprou 14 imóveis, parte deles em DINHEIRO VIVO, enquanto casada com Bolsonaro. Ana Cristina, que não possuía nenhum bem, saiu da relação matrimonial com um patrimônio de 5,3 milhões em valores corrigidos pela inflação. Eduardo Bolsonaro comprou dois imóveis na zona sul do Rio de Janeiro e, como parece costume de família, pagou 150 mil reais em DINHEIRO VIVO. O filho “zero dois” do presidente, Carlos Bolsonaro, não fugiu à tradição familiar e, em 2003, comprou imóvel também com DINHEIRO VIVO, cujo valor corrigido é de 366 mil reais. Flávio, o primogênito, comprou 19 imóveis por 9 milhões e, segundo procuradores, as operações possuem indícios de lavagem de dinheiro, além do fato de que o valor dos bens foi maior que os rendimentos como deputado. Quem tem dinheiro vivo para comprar um apartamento? E 14 apartamentos? E mais 2, mais 1, mais 19….são muitos imóveis. Dinheiro vivo? Isso é possível? É claro que não! Os políticos brasileiros ganham bem, mas não ao ponto de se enriquecer dessa maneira, comprando tantos imóveis e com DINHEIRO VIVO, cuja procedência é desconhecida.
O presidente, mesmo possuindo imóvel próprio em Brasília (mais um imóvel da família Bolsonaro), sempre defendeu o recebimento do auxílio-moradia pela Câmara. Durante a campanha presidencial, foi questionado pelo jornal Folha de São Paulo se ele havia usado o dinheiro do benefício para comprar seu apartamento. Irritado, Bolsonaro respondeu que “Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio-moradia eu usava para comer gente“. O estranho não é a aspereza da resposta, pois Bolsonaro é um homem que nunca respeitou a liturgia do cargo, seja como deputado seja como presidente. Mas o que é de se estranhar é o incômodo que a pergunta ocasionou a Bolsonaro. Ficou nítido que ele se irritou por ter que dizer a procedência do dinheiro que possibilitou a compra de seu apartamento.
Acuado pelas investigações da “rachadinha”, o presidente tentou interferir na Polícia Federal, com o objetivo de barrar as investigações contra seu filho, Flávio. O ex-ministro Sérgio Moro, disse que recebeu em seu whatsapp a seguinte mensagem de Bolsonaro: “Moro, você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”. Há inquérito no Supremo Tribunal Federal que investiga o caso.
Ainda durante a campanha, Bolsonaro defendia a redução do número de ministérios. “Nós temos tudo para ganhar no primeiro turno e ganharíamos três semanas para montar um ministério enxuto, com no máximo 15 ministros, que possa representar os interesses da população, não de partidos”, prometeu Bolsonaro no Facebook, em outubro de 2018. Em seu Twitter, Bolsonaro escreveu, em setembro de 2018: “Assumi compromisso de reduzir número de ministérios, extinguir e privatizar grande parte das estatais que hoje existem. São gastos desnecessários que devem atender a população. Recusar acordões que negociam cargos em troca de apoio já faz parte deste objetivo”. Atualmente, a Esplanada em Brasília, possui 23 pastas – oito a mais do que as 15 prometidas pelo presidente. Mas isso é só um descumprimento de promessa de campanha, não? Mais ou menos, pois o presidente, com a proximidade da eleição para as presidências da Câmara e do Senado, passou a discutir a possibilidade de recriar mais três ministérios, caso seus aliados fossem eleitos. O que isso quer dizer? Quer dizer que o presidente, que em sua campanha, dizia ser contra acordões, negociação de cargos em troca de apoio, mudou completamente de ideia, pois passou a negociar cargos. E está negociando com quem? Com o famoso “centrão”, que é um conjunto de partidos políticos, de diversas orientações ideológicas, que se unem para ter maior influência no Parlamento e conseguir negociar apoio ao executivo federal em TROCA DE CARGOS E VANTAGENS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. O “centrão” é a alma da velha política. O deputado Arthur Lira (PP) e o senador Rodrigo Pacheco (DEM) fazem parte do “centrão” e foram publicamente apoiados pelo presidente. Ah, mas até aí todos os presidentes fizerem isso, não é? Sim e foram muito criticados por todos, inclusive por Bolsonaro, que dizia representar a nova política – e o que ele está fazendo, e sempre fez, foi a mais velha e nefasta política.
Em 2014, Bolsonaro recebeu da JBS – pivô da crise política do Brasil em anos recentes – 200 mil reais. Se Bolsonaro realmente não quisesse o dinheiro, teria feito o quê? Devolvido à JBS, mas, ao invés disso, o presidente encaminhou o dinheiro para seu partido que, na época, era o PP. Pouco depois, Ciro Nogueira, então presidente do PP, ligou para Bolsonaro e disse que iria depositar 300 mil em sua conta. “Disse que tudo bem, mas que colocasse 200 mil na minha conta e 100 mil na conta do meu filho”, ressaltou o presidente. Obviamente que esse o dinheiro veio da JBS. Quando questionado se o seu partido recebeu propina, Bolsonaro disse “partido recebeu propina sim, mas qual partido não recebe propina?”.
O presidente do Brasil, uma das maiores democracias do mundo, passou grande parte do mandato fazendo apologia à ditadura militar e pregando atos atentatórios ao Estado Democrático de Direito. Inúmeras foram as vezes em que Bolsonaro exaltou torturadores. “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas forças armadas…” (abril/2016); “Eu louvo o AI-5” (dezembro/2008). Em meio à pandemia do coronavírus, o presidente participou de vários atos atentatórios à democracia. Um, em especial, foi promovido por seus apoiadores, para atacar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso. “Queremos a independência verdadeira, não apenas uma letra da Constituição, não queremos isso. Chega de interferência, não vamos admitir mais interferência, vamos levar o Brasil pra frente. Acabou a paciência”, disse Bolsonaro em frente ao Palácio do Planalto (vídeos divulgados por apoiadores nas redes sociais).
Há ainda evidências de crimes cometidos pelo presidente durante a pandemia, tais como perigo para a vida ou saúde de outrem (art. 132 CP); subtração, ocultação ou inutilização de material de salvamento (art. 257 CP) e infração de medida sanitária preventiva (art. 268 CP). Bolsonaro, desde o início, minimizou o problema, insistiu no uso de remédios não comprovados cientificamente, gastou muito dinheiro público na compra e fabricação da cloroquina, dinheiro este que deveria ter sido usado no combate da Covid-19, usou parte do dinheiro destinado à pandemia para sua esposa – a Empresa Marfrig fez doação ao Ministério da Saúde, no valor de 7,5 milhões para testes de Covid, mas o valor foi desviado para o programa Pátria Voluntária, liderado pela primeira-dama – sem contar no descaso ocorrido no estado de Amazonas, onde pessoas morreram asfixiadas por falta de oxigênio.
E quanto a fake news? Bolsonaro e seus apoiadores tem como hábito a mentira. Espalham fake news sobre tudo e contra todos. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, 700 mil postagens foram feitas pela família Bolsonaro e seus apoiadores para deslegitimar o sistema eleitoral e exigir o retorno do voto impresso. Durante campanha presidencial, Bolsonaro quase não falou, devido ao atentado de que foi vítima – talvez por isso tenha sido eleito – mas quando falava ou postava alguma coisa em redes sociais, quase sempre era fake news.
O desgoverno de Bolsonaro, os atos e possíveis crimes dele e de sua família são tantos que merecem ser retomados em outros encontros. Mas o fato é que se as verdades do senhor Jair Messias Bolsonaro, forem realmente conhecidas, nem o povo, nem a justiça o libertará. Muito pelo contrário. E mais, a História o condenará.