Cris Couto
Jair Messias Bolsonaro, capitão reformado do Exército, teve que abandonar a carreira militar após ter planejado a operação “Beco Sem Saída”, em 1987, que consistia em EXPLODIR BOMBAS em quartéis e academias militares para protestar pelos baixos salários. Aproveitando a fama adquirida por defender causas militares, Bolsonaro se tornou vereador no Rio de Janeiro, eleito em 1988. Com apoio de militares de baixas patentes – a maioria dos generais, por sua vez, era contrária a ele – tornou-se deputado federal pelo Rio de Janeiro, em 1990. Permaneceu no Congresso por mais SEIS MANDATOS. Exerceu o cargo de deputado federal por 28 anos, a despeito de nunca ter se destacado em sua atuação parlamentar. BOLSONARO ESTÁ NA POLÍTICA HÁ MAIS DE 30 ANOS, durante os quais sempre foi um político inexpressivo, pois, após todos esses anos como deputado, conseguiu aprovar apenas dois projetos. Que “nova política” ele representa? Nenhuma. Aliás, BOLSONARO É A FOTOGRAFIA DA VELHA, ABJETA E VIL POLÍTICA. Apesar dessa BIOGRAFIA IRRELEVANTE, Bolsonaro se tornou presidente, em 2018, com 57,8 milhões de votos. O que explica essa ascensão de Jair Messias Bolsonaro?
É preciso ressaltar, antes de qualquer outra ponderação, que a eleição de Bolsonaro à Presidência foi atípica. Até então, os requisitos compreendidos como obrigatórios para a vitória de qualquer pleito eleitoral no Brasil eram: grande financiamento de campanha eleitoral, tempo razoável de rádio e televisão (horário eleitoral) e apoio de partidos importantes. No entanto, Bolsonaro foi eleito sem aglutinar esses requisitos, pois ganhou o pleito presidencial sem muitos recursos – pelo menos no tocante aos recursos declarados -; obteve apenas oito segundos em cada bloco de propaganda e onze inserções ao longo do primeiro turno da campanha eleitoral, conforme informou o TSE, e não obteve apoio de nenhuma liderança estadual importante. É fato que a vitória do candidato de extrema-direita foi um FENÔMENO COMPLEXO, para o qual contribuíram fatores econômicos, políticos, morais, culturais e até religiosos, e culminou com o fim da tradicional polarização entre PT e PSDB.
Há quem considere que Bolsonaro chegou ao poder devido ao ódio de boa parte dos eleitores ao Partido dos Trabalhadores (PT) e a vontade dos brasileiros de acabar com a corrupção no país. Mas essa é uma visão muito simplista. Explico. Nas eleições presidenciais de 2018, havia 14 candidatos. Nada justificava, portanto, o voto em Bolsonaro no primeiro turno! Esses eleitores que queriam repelir o PT do cenário político poderiam ter votado em um candidato mais moderado, como o Geraldo Alckmin (PSDB), ou mesmo em um candidato com ficha muito limpa, como Ciro Gomes (PDT) ou Marina Silva (REDE). Mas não. Escolheram UM CANDIDATO OBSCURO, sem projetos reais para o país, com discurso excludente e de ódio e que, em inúmeras oportunidades, se mostrou racista, homofóbico, a favor de armas e contra as minorias – que, no caso do Brasil, acabam constituindo a maioria da população. Ademais, apesar de o discurso anticorrupção ter se concentrado em demonizar o PT, no fundo, as pessoas que têm acesso à informação sabem QUE O PROBLEMA DA CORRUPÇÃO É ENDÊMICO NO SISTEMA POLÍTICO BRASILEIRO! O PT não é e nunca foi a principal ou a única fonte de corrupção do país.
É inegável que os protestos de junho de 2013 culminaram na DESCRENÇA EM PARTIDOS TRADICIONAIS E NAS INSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS – e isso é um perigo para qualquer Estado Democrático de Direito! Neste contexto, movimentos de direita e de extrema-direita começaram buscar maior protagonismo, utilizando-se de discursos moralistas que alimentaram o ressentimento social. Em 2014, esse ressentimento ganhou força com o avanço da operação Lava-Jato. Aqui vale uma ressalva: a operação Lava-Jato começou bem. Porém, o “sucesso subiu à cabeça” de alguns Procuradores e do então juiz Sérgio Moro. Assim, essa operação ou pelo menos parte dela, deixou de ser motivada por fatores jurídicos e passou a ser determinada, fundamentalmente, por considerações políticas e eleitorais. A Lava-Jato desmoralizou nacionalmente o PT e seu principal político – Luís Inácio Lula da Silva. Moro, ao sentenciar Lula – sem provas – retirou do jogo politico o principal adversário de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Ou seja, Moro ajudou, e muito, a vitória de Bolsonaro! Pode-se afirmar que Moro foi o principal e mais importante “cabo eleitoral” de Jair Bolsonaro!
Uma onda de extrema-direita mundial ganhou muita força entre 2013 e 2018, e isso também contribuiu para a eleição de Bolsonaro. Apesar de possuírem algumas características diferentes, movimentos semelhantes ao do Brasil já foram verificados nos Estados Unidos, na Polônia, na Hungria, na Suécia, na França e na Holanda. A vitória de Donald Trump – líder da extrema-direita americana -, em 2017, também fortaleceu a base bolsonarista. Alguns teóricos dessa “extrema-direita” ganharam notoriedade nesse momento: Olavo de Carvalho, o grande “guru” dos grupos bolsonaristas, e Steve Bannon, ideólogo e estrategista de Donald Trump. Mas o que têm em comum Olavo de Carvalho e Steve Bannon? Entre outras coisas, ambos são adeptos do Tradicionalismo e possuem ojeriza à China. Bannon criou um grupo chamado The Movement, o qual objetivava eleger líderes de direita na Europa e obter assentos no Parlamento Europeu. No Brasil, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) disse em uma rede social, em janeiro de 2019, que Bannon o havia escolhido para liderar o movimento na América Latina. Olavo não se cansa de defender teorias da conspiração, denunciando complôs transnacionais de dominação mundial que atuariam por meio de movimentos como o “marxismo cultural” e o “globalismo”. Filipe Martins, seguidor de Olavo de Carvalho e assessor da Assessoria de Assuntos Internacionais do presidente Bolsonaro, postou em uma rede social, que o “globalismo quer destruir a nação para favorecer os interesses políticos de uma elite transnacional ou pós-nacional, para acorrentar o pensamento humano, para privar o homem da liberdade e do senso de propósito. Esse é o projeto contra o qual o Brasil está sendo chamado a lutar”. Parece paranoia? Pois é! Mas o fato é que há muitos seguidores dessas ideias mundo a fora!
Não resta dúvida de que essa ideologia promoveu o avanço de pautas isolacionistas, ultranacionalistas e negacionistas, incluindo a negação da ciência, e, mais recentemente, até da própria pandemia de Covid-19. Aliás, os discursos de extrema-direita conseguiram capitanear muitos seguidores em curto espaço de tempo. Muitos eleitores em diversos países passaram a preferir governos conservadores e autoritários, configurando uma onda conservadora no mundo. Assim, é certo afirmar que A VITÓRIA DE JAIR BOLSONARO PARA PRESIDENTE NÃO PODE SER ANALISADA COMO UM FENÔMENO ISOLADO. Mas como essa ascensão da extrema-direita ocorreu? Algumas das bandeiras empunhadas por esses movimentos têm forte apelo junto a parcelas da população que estejam passando por problemas pessoais ou enfrentando necessidades econômicas, ou que sejam mais suscetíveis a discursos de ódio e xenofobia – “o cidadão de nosso país está sem emprego porque os empregos vão para os imigrantes” – ou visões simplistas da realidade política e social – “tudo em sua vida está ruim devido à corrupção”. Assim, a eleição de Bolsonaro também pode ser compreendida como resultante de um crescimento de IDEIAS CONSERVADORAS E REACIONÁRIAS, quando não FASCISTAS.
Mas Bolsonaro não se tornou presidente por acaso! Não! Bolsonaro se elegeu porque ele encarna os valores e a forma de pensar de milhares de brasileiros, infelizmente! Prova disso é que, nas eleições de 1989, o candidato Enéas Carneiro – representante do conservadorismo e da extrema direita – foi o terceiro colocado nas eleições presidenciais, deixando Mário Covas, Ulisses Guimarães e Brizola para trás! É lógico que nem todo mundo que votou no Bolsonaro pensa como ele. Mas seu jeito simplório, direto e, por vezes rude e chulo de falar pode ser mais facilmente compreendido pelas parcelas mais humildes do eleitorado. Esse cidadão comum, por vezes, não compreendia o jeito machista, homofóbico ou racista do presidente. Não! Para esse eleitor, era apenas o “jeitão” de Bolsonaro! E pior: para esse eleitorado, a mídia fantasiava ou mentia a respeito dele, pois o então candidato era “simples e honesto”. A grande maioria desse grupo de eleitores não buscou verificar ou não tinha condições de verificar a veracidade das informações sobre Bolsonaro veiculadas pela mídia. Mas não se pode deixar de considerar que boa parte desse grupo de eleitores carece de instrução básica. O Brasil é um “continente”. Há muitas DIFERENÇAS SOCIAIS E EDUCACIONAIS. Não se pode viver em uma “bolha” e achar que todos os brasileiros possuem as mesmas condições e facilidades.
A campanha de Jair Bolsonaro soube utilizar como ninguém as REDES SOCIAIS. Bolsonaro soube se valer, como nenhum outro candidato à presidência, dos dispositivos modernos de comunicação digital e direta com o eleitor. A distribuição de mensagens via WhatsApp em larga escala foi uma das principais marcas desta campanha. Contudo, essa distribuição de mensagens está sob investigação, já que teria violado regras, além de ter recebido o financiamento de empresários para a disseminação massiva de mensagens com conteúdo falso. Quem nunca ouviu falar do “Kit gay” que, segundo Bolsonaro, teria sido distribuído nas escolas para crianças de 6 anos?! Ou que Fernando Haddad, que disputava com Bolsonaro o segundo turno das eleições presidenciais, defendia o incesto e o comunismo?! Ambas as afirmações, espalhadas por Jair Bolsonaro, são comprovadamente FALSAS! Assim, uma das armas de Bolsonaro para se eleger foi, sem dúvida nenhuma, a UTILIZAÇÃO EM LARGA ESCALA DAS “FAKE NEWS”. Mentir era a palavra de ordem da campanha bolsonarista!
Há quem tenha escolhido Bolsonaro por MOTIVOS RELIGIOSOS. Bolsonaro, durante toda a campanha eleitoral e mesmo após ter sido eleito, repetiu exaustivamente o versículo bíblico “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32). Foi como uma espécie de mantra do presidente, a fim de tentar passar a imagem de um homem religioso. E isso, inacreditavelmente, funcionou! O presidente Bolsonaro diz ser católico, mas frequenta e até foi batizado em uma igreja evangélica. Até aí, nenhum problema! Pelo contrário, pois não há religião certa ou errada. Todas as religiões são louváveis e merecem respeito. Seria muito bonito, portanto, o ecumenismo do presidente Bolsonaro, se fosse verdadeiro! O problema é que BOLSONARO USA A RELIGIÃO COMO INSTRUMENTO POLÍTICO. Cientes de que as igrejas neopentecostais cresceram enormemente nos últimos anos, principalmente nas periferias pobres e urbanas, Bolsonaro e sua equipe constataram também que, nas últimas eleições, principalmente parlamentares, essas igrejas apoiaram alguns deputados e senadores, o que gerou expressivo crescimento da BANCADA EVANGÉLICA no Congresso Nacional, com agenda conservadora e, por vezes, reacionária. Bolsonaro foi perspicaz ao verificar que poderia angariar muitos votos aproximando-se de pastores evangélicos, principalmente aqueles de “grandes igrejas”, com muitos fiéis ou com canais de televisão. Nunca se viu o candidato tirando fotos com pastores de igrejas mais humildes ou os convidando para suas tradicionais lives nas redes sociais! Não! São somente os pastores mais “comerciais” ou “televisivos” que disfrutam dessa aproximação com o presidente!
No próximo post, continuaremos a análise das causas profundas que permitiram a ascensão do bolsonarismo e a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República.
Uma visão clara e objetiva de quem é Bolsonaro e quais caminhos utilizou para chegar a presidência. O povo brasileiro foi enganado e induzido a votar num homem totalmente desqualificado
Concordo plenamente!!!
Concordo plenamente!!!