Cris Couto
Este é o primeiro de dois posts que analisarão como oportunistas demagogos criaram, em parte da população brasileira, uma imagem de heróis e salvadores nacionais.
Não é novidade que a política brasileira é complicada e que, nos últimos anos, vem sendo explorada por forças ideológicas perigosas. A POLÍTICA, que deveria aproximar as pessoas para a discussão de pautas de interesse de toda a sociedade, gerando maior participação e inclusão social, acaba por causar REPULSA e DESGOSTO na população em geral. O maior problema, talvez, sejam os inúmeros casos de CORRUPÇÃO no país. Não se pode deixar de ressaltar que a corrupção no Brasil é ENDÊMICA. Não começou no governo Bolsonaro, nem no governo Lula, nem no governo FHC. É bem verdade que, em todos os governos citados, houve muita corrupção. Todavia, a corrupção é muito mais antiga, tendo se originado ainda durante os tempos coloniais. Devido à essa desilusão, boa parte das pessoas deixaram de se interessar por política. Um grande erro, pois é justamente quando algo está errado que devemos nos interessar, a fim de mudar o que está em descompasso com a legalidade e com a democracia!
Porém, nos últimos anos, constatou-se um efeito contrário em nossa sociedade. De repente, a maioria dos brasileiros começou não apenas a se interessar por política – ou pelo que acreditam que seja política -, como também passou a ter certezas absolutas sobre determinados fatos e ideias sem sequer se debruçarem para conferir sua veracidade! Esta é a “ERA DAS FAKE NEWS”! Com a propagação rápida de notícias, muitas vezes FALSAS e sem FUNDAMENTO, a revolta tomou conta da sociedade brasileira! Pessoas que, nitidamente nunca pararam para estudar sobre os tempos sombrios da Ditadura Militar no Brasil, passaram a ir às ruas pedindo a volta do AI-5 e exigindo o fim do comunismo no Brasil (!), sem saber absolutamente nada sobre comunismo ou socialismo. Esses brasileiros passaram a pedir Intervenção Militar para garantir a liberdade dos brasileiros!!! Parece mentira, mas é verdade! Essa falta de coerência e de conhecimento revela como o Brasil é POBRE, PRINCIPALMENTE EM EDUCAÇÃO. Não que desinformação seja uma característica exclusiva de nosso país. Não, de forma alguma! Porém, em um país que investe em educação, a ignorância tende a ser menor. No Brasil, A EDUCAÇÃO DE BAIXA QUALIDADE tem inúmeras causas históricas, mas entre as principais, pode-se mencionar justamente a CORRUPÇÃO ENDÊMICA e os anos da DITADURA MILITAR.
No que tange à corrupção, a relação causal é quase autoexplicativa: grandes rombos nos cofres públicos têm como consequência menos dinheiro destinado à Educação. Já no que concerne ao período militar, a explicação é um pouco mais complexa. Como é de conhecimento de todos, durante os chamados “Anos de Chumbo”, o regime restringiu as liberdades individuais e políticas, censurou a opinião pública, a imprensa e as artes, criminalizando e torturando opositores. Educadores e estudantes foram perseguidos, presos, torturados, exilados e alguns assassinados. Nesse período, houve a imposição de políticas educacionais que difundiam uma ideologia favorável ao regime. Mas, para além da propaganda ideológica e da doutrinação, os GOVERNOS DITATORIAIS, para manter o povo sob controle, recorrem também ao MEDO e à ALIENAÇÃO! Nesse contexto, os estudantes deixaram de ter em seus currículos matérias como Sociologia ou Filosofia, e em seu lugar o governo militar criou outras disciplinas: Educação Moral e Cívica, Estudos de Problemas Brasileiros e Organização Social e Política Brasileira (OSPB) – todas com um único objetivo: exaltar o Brasil dos militares! O ensino de História e Geografia também ficou comprometido, pois as aulas se tornaram menos críticas e mais factuais, exaltando a história dos grandes personagens (os que o regime assim considerava), como foi o caso de Duque de Caxias. Ou seja, os estudantes brasileiros DEIXARAM DE SER INCENTIVADOS A DESENVOLVER SENSO CRÍTICO e capacidade de pensar e de questionar, o que é um perigo em termos educacionais e civilizacionais! Houve, incontestavelmente, um programa educacional oficial que objetivava a ALIENAÇÃO DOS ESTUDANTES. Isso tudo começou a ser alterado com a redemocratização, porém, como a maioria dos professores foi formada durante o período militar, não se espera que esses mesmos professores tenham desenvoltura para introduzir as matérias de forma crítica. Isso certamente prejudica o objetivo de se alcançar uma educação de qualidade no Brasil.
Após as manifestações de 2013, ficou notório que grande parte da população não se sentia mais representada politicamente. Esse é um cenário muito preocupante, haja vista que, historicamente, sempre que isso ocorre, quem costuma a obter maior prestígio, a fim de ocupar esse “espaço vazio”, são as IDEOLOGIAS EXTREMISTAS. E como se sabe, os movimentos políticos mais alinhados ao extremismo, em regra, se baseiam em discursos de ódio, na homofobia, na xenofonia, no machismo e se autoproclamam defensores da moral, dos bons costumes e tudo em nome de Deus, tá ok? Daí vem o questionamento: esse tipo de extremismo encontra eco na sociedade brasileira? Infelizmente sim, em especial, em dois grupos específicos: aqueles que realmente compartilham tais ideias e concordam com discursos de ódio, e aqueles que, de tão desiludidos com a política e com a situação do país acabam optando por uma mudança brusca, radical, qualquer que seja ela, sem prever o quão deletérias podem ser suas consequências.
E a desilusão no Brasil foi realmente grande! Isso não há como negar. Em 2013, a economia estava em frangalhos. O Brasil começou a sentir de forma mais severa os efeitos da crise internacional de 2008. Mas esse não foi o principal problema de nossa economia. Pedaladas fiscais, gastos com a Copa do Mundo e muitas denúncias de corrupção começaram a vir à tona. Mas sempre houve corrupção, não é? O que realmente motivou as pessoas a irem às ruas protestar? Bem, parte da população estava mais desiludida que o normal. Isso pelo fato de que o Lula fora, por muitos anos, o grande ídolo dessas pessoas e, com as denúncias de corrupção contra o ex-presidente, houve uma sensação de traição em parte desses apoiadores. Também, parte da elite que jamais aceitou que um sindicalista tivesse ocupado o Palácio do Planalto nem se preocupou em saber se as denúncias contra o Lula eram ou não verdadeiras. Para essa parcela da população, bastava existir o escândalo de corrupção para que se fossem construindo “narrativas” a fim de tornar o Lula e o PT os grandes vilões da história brasileira. Essa foi a forma que encontraram para abrir um caminho político viável para as forças mais alinhadas à direita. Disso, decorreram os inúmeros PLEITOS DESENCONTRADOS NAS MANIFESTAÇÕES DE 2013: estudantes contra o aumento das tarifas do transporte público, médicos que protestavam contra o Programa Mais Médicos – mais precisamente contra a criação do segundo ciclo do curso de medicina que, segundo o ex-Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, iria ajudar os médicos formados no Brasil a ter uma visão mais humanista -, protestos contra a Copa do Mundo FIFA de 2014, conhecidos como “Não vai ter Copa”, professores querendo aumento salarial, dentre tantas outras pautas. Não havia, portanto, uma única e específica reivindicação. O combate à corrupção foi uma pauta que permeou e uniu os diferentes pleitos, só isso.
No próximo post, continuaremos a análise do processo pelo qual oportunistas demagogos criaram, em parte da população brasileira, uma imagem de heróis e salvadores nacionais.