Cris Couto
O presidente Jair Bolsonaro terminou 2021 e iniciou 2022 sendo ele mesmo: uma pessoa sem empatia. Isso ficou mais que comprovado com a postura do presidente durante a condução da pandemia. A decisão de Bolsonaro de manter suas férias em Santa Catarina, enquanto milhares de pessoas sofriam com inundações na Bahia, foi alvo de críticas generalizadas, que partiram até de aliados do governo. Contudo, essa decisão apenas corroborou o que todos já sabiam: Bolsonaro é uma pessoa fria, que só pensa em si, na sua família e, logicamente, no seu poder. Qual o presidente que, diante das tragédias que recentemente assolaram os estados da Bahia e de Minas Gerais, iria deixar de comparecer ao local para prestar solidariedade, além de mobilizar esforços para apaziguar o sofrimento de milhares de brasileiros que, em questão de minutos, perderam tudo? Outras tragédias ocorrerem durante outros governos, como a queda do avião da TAM, em 1996, que matou 99 pessoas e o incêndio da boate Kiss, em 2013, que matou 242 pessoas. Tanto o presidente Fernando Henrique Cardoso, como a presidenta Dilma Rousseff estiveram presentes nos locais e mostraram solidariedade, diferentemente de Bolsonaro que preferiu dançar funk machista em uma lancha a ir trabalhar para socorrer e confortar seus compatriotas. Além de não ajudar, Bolsonaro atrapalha. Isso porque a Argentina ofereceu ajuda humanitária para a Bahia e o Ministério das Relações Exteriores, cumprindo ordem de Bolsonaro, dispensou a ajuda oferecida. As atitudes e falas do presidente vão além de qualquer ideologia ou projeto de poder. São típicas de pessoas sem sentimento, sem empatia. Ninguém soube definir melhor o presidente, diante dessa tragédia, que o líder da minoria na Câmara, Marcelo Freixo (PSB-RJ), que afirmou: “Não é só omissão e irresponsabilidade, é falta de compaixão e de amor ao próximo. Quase 500 mil pessoas foram afetadas pelas chuvas na Bahia, 20 brasileiros morreram e 77 mil estão desabrigados ou desalojados de suas casas. E onde está o presidente da República?“. Mas não é só falta de humanidade e compaixão. Bolsonaro está agindo também com total falta de inteligência, já que estamos em pleno ano eleitoral e sua desumanidade pode lhe custar caro.
Parece que nada impacta o presidente. Ele tem certeza de sua vitória nas urnas, mesmo tendo feito um PÉSSIMO GOVERNO e tendo sua popularidade em baixa. Bolsonaro continua com discursos machistas, homofóbicos, agressivos e que demonstram total desprezo pela democracia. Ele discursa para o seu “cercadinho”, o qual já não é mais do mesmo tamanho que em era 2018. É evidente que há fiéis apoiadores de Bolsonaro, os quais sempre tentam justificar as falas do presidente e, quando não conseguem, colocam a culpa no Supremo Tribunal Federal, nos governadores, no PT, na imprensa ou no comunismo!!! Mas, como evidenciam pesquisas eleitorais de diferentes órgãos, Bolsonaro tende a não vencer nas urnas em 2022. É claro que o ano eleitoral mal começou e muita coisa ainda pode mudar, porém, diante dos problemas econômicos enfrentados pelo Brasil, do desmantelamento ambiental, da destruição da pasta da educação e da cultura, do enorme desemprego, da alta da inflação, do preço da cesta básica e da gasolina, do trágico enfrentamento da pandemia, dos casos de corrupção em seu governo e em sua família, além da condição de “pária internacional” que o governo Bolsonaro colocou o Brasil, parece ser difícil reverter essa situação, embora não seja impossível.
Bolsonaro tem muita certeza de sua vitória. É verdade que ele conta com a MÁQUINA PÚBLICA, mas, diante de tantos desacertos em seu governo, somente isso não parece ser suficiente para seu êxito. O presidente conta ainda com o chamado “gabinete do ódio”, que sabe como ninguém propagar FAKE NEWS e que foi, talvez, o principal instrumento para a vitória de Bolsonaro em 2018. O atual governo, em mais uma tentativa de ludibriar o povo mais humilde, acabou com o Bolsa Família – programa assistencial de grande êxito no país – e lançou o tal Auxílio Brasil, com benefício mínimo turbinado para R$ 400 até dezembro de 2022, ou seja, com PRAZO DE VALIDADE PRÉ-DETERMINADO para, justamente, após o segundo turno das eleições de 2022 e que desperdiça a oportunidade de rever estratégias de combate à pobreza e privilegia motivações unicamente eleitoreiras. Segundo especialistas em políticas sociais, esse programa do governo Bolsonaro não objetiva o combate à miséria e à pobreza, diferenciando-se por completo do Bolsa Família, lançado no governo Lula, a partir de benefícios sociais criados no governo Fernando Henrique Cardoso, que era baseado em dados e critérios técnicos. Além disso, o presidente ainda conta com as obras públicas, iniciadas em outras administrações, mas que ele está inaugurando, tal como se deu com a transposição do Rio São Francisco, cuja obra foi iniciada no governo de Lula e estava praticamente concluída antes da posse do atual chefe do Executivo.
Mesmo com a máquina federal à sua disposição, mas já prevendo uma possível DERROTA nas urnas, Bolsonaro tentou, por inúmeras vezes, desacreditar a seriedade e a legalidade do processo eleitoral brasileiro. Vários foram os ataques antidemocráticos feitos pelo presidente que chegou até a colocar em xeque a seriedade e a segurança das urnas eletrônicas. Apresentou uma PEC para tentar impor o voto impresso no Brasil, o que seria verdadeiro retrocesso e que ocasionaria total insegurança no pleito eleitoral. Felizmente, a PEC foi rejeitada. Bolsonaro, no entanto, não desistiu de tentar desacreditar a segurança do voto eletrônico. O presidente chegou a afirmar ter provas de fraudes na urna eletrônica e convocou a imprensa para mostrar que estava certo. Na ocasião, contudo, Bolsonaro mudou um pouco o tom e disse que havia “indícios fortíssimos ainda em fase de aprofundamento que nos levam a crer que temos que mudar esse processo eleitoral”. Complementou dizendo que “Não tem como se comprovar que as eleições não foram ou foram fraudadas. São indícios. Crime se desvenda com vários indícios”. O fato é que o presidente não trouxe nenhuma prova, nem mesmo indícios que justifiquem o descrédito no processo eleitoral brasileiro ou na urna eletrônica. O curioso é que Bolsonaro, diferentemente de Aécio Neves – que, em 2014, também questionou a segurança das urnas -, saiu vitorioso do pleito eleitoral de 2018! Como ele diz ter havido fraude em eleições que lhe deram vitória incontestável? A verdade é que Bolsonaro, prevendo o insucesso nas eleições de 2022, já tenta inculcar na cabeça de seus seguidores motivos para um possível golpe, tal como tentou seu ídolo, Donald Trump, derrotado nas eleições americanas.
O presidente, em mais uma conversa esdrúxula com seus apoiadores, no dia 10 de fevereiro, afirmou que, nos próximos dias, acontecerá algo para “nos salvar”. A declaração obscura e sem muito sentido, foi feita após referências a ditaduras, não veio acompanhada de explicação por parte do chefe do Executivo mas, como era de se esperar, foi muito bem recebida pelo “cercadinho”. Afirmou o presidente: “Qual a diferença de uma ditadura que vem pelas armas, como Cuba e Venezuela, e a que vem pelas canetas? Nenhuma. Vocês sabem o que está acontecendo pelo Brasil. Eu acredito em Deus. Nos próximos dias, vai acontecer algo que vai nos salvar no Brasil“.
Poucos dias depois, Bolsonaro viajou à Rússia, para se encontrar com o presidente Vladimir Putin, mesmo diante do acirramento das tensões entre a Moscou e Kiev. Segundo o Palácio do Planalto, a agenda presidencial dessa viagem deveu-se importância de relações comerciais com a Rússia, sobretudo no campo dos fertilizantes. Ora, mesmo que a viagem fosse imprescindível e realmente relevante, teria que ocorrer justamente quando a Rússia estava para deflagrar guerra contra um país vizinho? Não poderia haver um encontro virtual entre os presidentes, como é tão comum hoje em dia? Desde quando Bolsonaro dá importância para assuntos como fertilizantes? E quando foi que “o país vermelho” se tornou prioridade para o presidente que jurou que “nossa bandeira jamais será vermelha?”. Não sou adepta de teorias da conspiração, mas fica difícil não relacionar o fato de que a Rússia interferiu na eleição presidencial americana de 2016, ajudando a eleger Donald Trump, conforme investigações do FBI, da CIA e da NSA (Agência de Segurança Nacional), com a viagem inesperada de Bolsonaro e com sua fala aos apoiadores de que “(…) nos próximos dias, vai acontecer algo que vai nos salvar no Brasil”. Diante do desastre de seu governo e das pesquisas eleitorais nada animadoras, não é impossível acreditar que Bolsonaro possa sim recorrer aos mesmos instrumentos usados por Trump para vencer sua oponente Hillary Clinton.
Para continuar no cargo, Bolsonaro fará qualquer coisa. Não só pelo poder, mas também para não responder aos inúmeros processos criminais que traz contra si ao término de seu governo. Além, é claro, de tentar proteger seus filhos que, tal como o pai, apresentam uma longa lista de suspeitas e indícios de práticas ilícitas e criminosas. A nossa democracia está em risco. Não dá para flertar com atos antidemocráticos. Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda e João Goulart sabiam disso. Tanto que, mesmo sendo opositores políticos, se uniram em uma FRENTE AMPLA, passando por cima das diferenças em prol da causa comum do retorno à democracia. Devido ao endurecimento do regime militar à época e às várias arbitrariedades que se seguiram, os democratas não obtiveram êxito em sua luta. Mas a atitude desses três políticos nos deixa uma lição atualíssima: diante da fragilidade da democracia, políticos bem-intencionados que prezem pela manutenção do Estado democrático de Direito devem se unir em uma FRENTE AMPLA, a fim de afastar qualquer possiblidade de golpe. Diante de fatos concretos que evidenciam que nossa democracia está em risco, não dá para ficar flertando com as possibilidades da tal “terceira via”. Há apenas duas vias: golpistas e democratas. A história mostrará de que lado estamos!
“Algo Vai Nos Salvar” Nossa oportunidade de nos salvar está na próxima eleição se o povo brasileiro estiver consciente da desgraça que tem sido Bolsonaro e substitui-lo
Concordo totalmente!!!