Cris Couto
Este post encerra a série sobre o projeto político de Sérgio Moro e suas ligações e coincidências com o bolsonarismo e a extrema-direita brasileira.
Como vimos no post anterior, o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro residiu, por um tempo, nos EUA, onde trabalhou na consultoria Alvarez e Marsal. Retornou ao Brasil para se filiar ao PODEMOS, e, quem sabe, disputar ao cargo de presidente da República. Ora, vamos imaginar que não houvesse nada de errado, nem de sombrio, com essa candidatura. Ainda assim, fica o questionamento: como um cidadão que desconhece princípios e processos basilares da política, e, como já ficou demonstrado, ignora a própria realidade do país, almeja obter o cargo máximo da República brasileira, ainda mais em um momento em que o Brasil atravessa, talvez, a pior crise de sua história? Tenho convicção de que, na disputa eleitoral de 2022, haverá muitos outros candidatos que possuem conhecimento e vivência política para ser presidente. Moro deve ter, ao menos, a humildade de reconhecer que não dá para ser presidente sendo amador. O Brasil não merece outro “mito”, outro “herói”, outro “outsider”.
Até acredito que a intenção de Moro fosse se candidatar para o Senado Federal, mas devido à grande exposição do PODEMOS e a campanha velada feita por parte de alguns VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO, Moro ficou entusiasmado e sua AMBIÇÃO está, novamente, falando mais alto. Há de se ressaltar que, para parte da mídia, aquela que se diz profissional, mas nem sempre age com profissionalismo, Moro ainda é um “herói”. Triste ver que há profissionais da imprensa que não agem com a isenção devida e que acabam, com isso, criando os mitos e os heróis que levam o Brasil à estagnação, à polarização e ao fracasso.
E falando em ambição, cabe destacar que, no dia 28 de janeiro, Moro, em uma live, acabou revelando o valor que recebera pelos “trabalhos prestados” ao escritório de consultoria Alvarez e Marsal, o qual é o responsável pela administração judicial de empreiteiras investigadas pela Lava Jato e na qual, como já tratamos em outro post, o ex-juiz jamais poderia ter aceitado trabalhar, justamente por haver evidente CONFLITO DE INTERESSES. Moro revelou ter recebido por 12 meses a formidável quantia de R$ 3,537 milhões, por um trabalho que, até o presente momento, ninguém soube explicar qual foi. Indubitavelmente, é um valor muito alto, e raros são os grandes executivos que chegam a perceber remuneração tão exorbitante. Aposto que, no Brasil, Moro jamais ganharia essa quantia, justamente por ser notória a sua falta de conhecimento jurídico. Fica então o questionamento: qual foi o interesse da empresa em pagar esse valor absurdo ao ex-juiz da Lava Jato? Será porque Moro, além de ainda ter amigos que atuam nos processos das empreiteiras, conhece detalhes dos processos que poderiam facilitar o trabalho do escritório americano? Moro ainda afirmou que os valores que recebeu da consultora não foram tão altos. Afirmou o ex-juiz, com a maior desfaçatez: “Falam que eu enriqueci. Eu não enriqueci. Eu tinha um bom salário. É normal com todas as qualificações, que você tenha um salário bom para os padrões dos Estados Unidos e da função que eu ocupava. Mas longe de qualquer perspectiva de enriquecer“. Ora, estamos falando de, pelo menos 3,6 milhões de reais!!!! Se isso não é enriquecer, o que é? O que fica claro é que um SALÁRIO DESPROPORCIONAL ao trabalho prestado pode ser INDÍCIO de um CRIME. Alguns juristas renomandos já sustentam a tese de possível ocorrência de CORRUPÇÃO PASSIVA e TRÁFICO DE INFLUÊNCIA. Sérgio Moro e nem mesmo o escritório Alvarez e Marsal não souberam sequer declarar qual a função exercida pelo ex-juiz no tempo em que esteve contratado. No site da Alvarez&Marsal, constava a informação de que o Moro era diretor. Contudo, o ex-juiz sempre afirmou ser mero consultor – que, vale corroborar, ganhou 3,6 milhões em apenas 1 ano!!! Vale ainda lembrar que Moro, enquanto juiz, não prestou atenção no que dizia o escritório Alvarez Marsal, seus futuros sócios ou empregadores. Isso porque o escritório chegou a enviar documentos para a 13ª Vara de Curitiba comprovando que o tal tríplex do Guarujá era de propriedade da OAS e jamais foi do ex-presidente Lula, o qual, portanto, não poderia ter sido condenado naquele caso. Mas Moro ignorou este fato e preferiu condenar, sem provas, o ex-presidente. Estarrecedor!!!!
Moro, aquele que não lê, aquele que fala “cônge”, querendo dizer cônjuge, agora é escritor. Sim, Moro escreveu um livro! Na verdade, esse livro nada mais é do que a tentativa de Moro de fazer PROPAGANDA ELEITORAL ANTECIPADA, sem ser apenado pela legislação eleitoral. Explico. Moro, sob o pretexto de divulgar seu livro, reunirá pessoas em livrarias e faculdades pelo Brasil inteiro e, em tais oportunidades, poderá “discutir política”. Em seu livro, Sérgio Moro disse NÃO TER VISTO CRIME nas “rachadinhas”, nem nas seguidas agressões de Bolsonaro às instituições democráticas, nem na “enquadrada” do General Villas Boas no STF, quando fez uma ameaça velada à Corte, no julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula. Mas será mesmo que Moro não vê crimes nesses episódios? Esse é um problema sério, pois se Moro realmente não vê crime em “rachadinha”, então ele acredita que corrupção não é crime, pois RACHADINHA nada mais é que um nome bonitinho e engraçado para CORRUPÇÃO ou, a depender da forma como foi praticada, é crime de PECULATO, previsto no art. 312 do CP! Se Moro não sabe, ou finge não saber disso, então não poderia ter sido juiz, não poderia ter julgado nem condenado ninguém na Operação Lava Jato. Mas é claro que Moro sabe que todos esses atos são crimes! Ele mente apenas para poder conquistar voto dos apoiadores de Bolsonaro, ou seja, da EXTREMA-DIREITA!
Moro segue os mesmos passos de seu mestre e mito, Jair Bolsonaro. Ele já conquistou e trouxe para seu lado parte dos militares que, até poucos dias atrás, levantavam a bandeira de mito para Bolsonaro. O ex-juiz se apresenta com um discurso contra a corrupção e contra a velha política – mas se uniu ao PODEMOS, partido composto por inúmeros políticos tradicionais, muitos que já foram condenados, inclusive por corrupção. Moro se diz conservador, religioso, defensor da família e dos bons costumes – o que será que isso significa para um juiz que agiu de forma tão perniciosa na magistratura em busca de dividendos políticos? Tenta se apresentar como herói, a salvação do país contra o comunismo, diz que quer adotar uma agenda liberal (ou ultraliberal) na economia e, tal como Bolsonaro, por não saber nada de economia, a primeira coisa que fez foi apresentar seu próprio “Posto Ipiranga”, ou seja, um economista milagroso que supostamente vai pairar acima do bem e do mal em um eventual governo Moro.
Essa similitude, ou mais que isso, essa continuidade mesmo entre Moro e Bolsonaro, embora com diferentes vernizes, foi muito bem sintetizada pelo cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas: “(…) tanto Bolsonaro como Moro, embora de maneiras diferentes, não reconhecem os limites do Estado de direito como questões relevantes. Bolsonaro o faz investindo contra o Supremo e os limites federativos. Moro, por sua vez, o fez como juiz, ao não respeitar o devido processo legal, ao abusar dos instrumentos investigativos e do processo penal, aplicando instrumentos de coação sobre testemunhas e investigados“. Couto ainda assinala que “Há um desapreço igual. Moro é sim um autoritário, não há como negar isso. Mas são autoritários de natureza distinta. Bolsonaro tem traços fascistas no sentido pleno. Creio que Moro está mais para um conservador autoritário do que um fascista. Isso não quer dizer que conservadores autoritários e fascistas não possam se associar. Eles fazem isso com uma certa frequência, como aconteceu na Espanha franquista e até no início do nazismo.” Analise preocupante, mas profundamente verdadeira!!!
Sérgio Moro está sendo, principalmente para os apoiadores de Bolsonaro que se decepcionaram com o mito, uma “tábua de salvação” para a mesma ideologia extremista, com uma diferença: Moro finge ser um pouco mais moderado para conquistar, além da extrema direita, os eleitores do centro. Os pensamentos, a ideologia, o discurso, a ignorância, a falta de cultura, o baixo conhecimento, o baixo teor democrático, são iguais em Moro e em Bolsonaro. Não acredito que haja chances reais de Moro chegar, em 2022, à presidência, salvo se todos os demais pré-candidatos da direita apoiarem o ex-juiz, cenário que acredito ser praticamente impossível. Dadas as atuais circunstâncias, o mais provável será um segundo turno polarizado entre Bolsonaro e Lula. Mas lembremos que a campanha política sequer começou, pelo menos formalmente. Há ainda muita coisa para acontecer e muita coisa pode mudar. O Brasil passa por um momento grave em sua história: crise econômica, sanitária, social, educacional e, principalmente, institucional. Um candidato com boas intenções, mas despreparado, já seria um problema. Mas um candidato despreparado e ainda por cima com os mesmos vícios morais e políticos do atual presidente, será a bancarrota de nosso país.
Hegel disse que “a história repete-se sempre, pelo menos duas vezes”. Por seu turno, Karl Marx, sabiamente, complementou tal citação dizendo que “a primeira vez como tragédia; a segunda, como farsa”. Moro é Bolsonaro, só que um pouco pior, pois o presidente nunca escondeu ser quem é. Já Moro é o verdadeiro lobo em pele de cordeiro.