A “POLÍTICA DO APAZIGUAMENTO” E O GOVERNO BOLSONARO – FINAL

Cris Couto

Hoje finalizaremos a análise de como as instituições do Estado brasileiro têm permitido, ainda que involuntariamente, que Bolsonaro intensifique suas ameaças e ataques à democracia.

Não é correto afirmar que o presidente Bolsonaro erra, tentando acertar. Bolsonaro jamais tentou acertar. Sempre esteve guiado por sua IDEOLOGIA DELIRANTE, que arregimentou tantos seguidores nos últimos anos, em quantidade suficiente para garantir sua eleição. E isso basta ao presidente. Uma vez por semana, faz sua tradicional live, onde dispara Fake News para seu público, e todos os dias perde tempo conversando inutilidades com seus fiéis seguidores. Populismo barato! TRABALHAR MESMO NÃO FAZ PARTE DA AGENDA OFICIAL DO PRESIDENTE. Segundo os próprios registros oficiais, ele trabalha, em média, três horas por dia. E mesmo assim, tirou férias que custaram 2,4 mihões de reais, em plena pandemia!!! Questionado sobre os gastos, Bolsonaro, demonstrando não ter a menor empatia com os que estão morrendo ou passando sérias necessidades financeiras devido à crise pandêmica, afirmou: “Ah, gastou milhões nas férias. Vai ter mais férias para ser gasto [dinheiro], fiquem tranquilos!”.

Mesmo durante a pior crise sanitária de nosso país, Bolsonaro jamais fez uma única visita a um hospital ou se debruçou para tentar achar soluções que contivessem o avanço do vírus e, por conseguinte, os prejuízos econômicos gerados pela pandemia. Não! Muito pelo contrário: Bolsonaro, durante toda a pandemia, só soube disseminar Fake News, brigar com prefeitos e governadores que, acertadamente, tentaram impedir a propagação da doença, dizer que o coronavírus causava apenas “uma gripezinha”, receitar cloroquina, colocar a culpa da crise nos ministros do STF e fazer apologia ao voto impresso! E o que os Poderes da República fizeram? NADA! Bolsonaro CONTINUOU A GANHAR FORÇA junto a seus apoiadores que, inclusive, reproduzem as insanidades do presidente, rejeitando o uso de máscara, criticando o distanciamento social e pregando contra as vacinas.

Mais recentemente, com o número de morte aumentando, a economia em frangalhos, o desemprego alarmante e as ações equivocadas, quiçá criminosas, do presidente, muitos dos apoiadores deixaram de seguir fielmente tudo o que Bolsonaro prega. A POPULARIDADE DO PRESIDENTE COMEÇOU A DERRETER. Se as eleições presidências fossem hoje, Bolsonaro não seria reeleito!  Um fato que colaborou e muito para o enfraquecimento de Bolsonaro foi a Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI da Covid – que vem demostrando ao povo os desmandos e atos criminosos cometidos pelo presidente e por seus aliados. Porém, mesmo assim, Bolsonaro não se intimida e continua a cometer atos lesivos ao Brasil e aos brasileiros. O presidente chega ao cúmulo de promover, em plena pandemia, as tais “motociatas”, reunindo centenas e centenas de motoqueiros, que mais se parecem com uma gangue arruaceira e que, a propósito, geram pesados custos ao erário. Só para se ter uma ideia, a motociata promovida por Bolsonaro no Rio de Janeiro custou R$ 231 mil reais aos cofres públicos. Enquanto isso, diante dos arroubos autoritários do presidente e de sua leviandade no que tange à pandemia, os demais Poderes continuavam apenas a soltar “notas de repúdio”. Há poucos dias, entretanto, o TSE enviou uma notícia-crime em face de Jair Bolsonaro ao STF. O STF também resolveu agir e autorizou investigação contra o presidente no inquérito das Fake News. Mas diante de todo o descalabro exposto, as ações do Poder Judiciário têm sido poucas e tardias! Tanto que o presidente não se preocupou com nada disso. Voltou a atacar as decisões do STF e o Estado Democrático de Direito ao falar que “Nas mãos das Forças Armadas, o poder moderador. Nas mãos das Forças Armadas a certeza da garantia da nossa liberdade, da nossa democracia, e o apoio total às decisões do presidente para o bem da nação“.

Diante do aumento da pressão do Judiciário, entretanto, Bolsonaro decidiu agir, não para finalmente começar a acertar, mas apenas para se proteger. Mexeu na estrutura ministerial, a fim de obter maior apoio do chamado “Centrão”. Ah, mas isso ele já tinha feito, então qual a novidade? A novidade tem nome e sobrenome: CIRO NOGUEIRA, senador, presidente do Partido Progressista (PP) e líder do “Centrão”, bloco informal de legendas que dá sustentação política ao presidente. Ciro Nogueira assumiu a Casa Civil com a árdua missão de ARTICULAR A POLÍTICA DO PLANALTO e afastar qualquer ameaça de impeachment, BLINDANDO Bolsonaro. O senador, agora ministro-chefe da Casa Civil, é um personagem muito conhecido entre a classe política, e apoiou todos os governos: esteve na base de FHC (PSDB), Lula (PT), Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB). No passado, ao ser questionado sobre Bolsonaro, Ciro chegou a falar que “(Ao Jair) Bolsonaro, eu tenho muita restrição. Ele tem um caráter fascista, preconceituoso. Na mesma ocasião, o parlamentar declarou que apoiava a eleição de Lula, em 2018, afirmando que o petista “foi o melhor presidente deste país, especialmente para o Piauí e o Nordeste“. Mas o que fez Ciro Nogueira mudar de opinião? Bom, a recente relação amigável com o Planalto tem rendido a Nogueira grande vantagem na distribuição das chamadas “emendas do relator”, mecanismo, sem critério e sem transparência, que foi criado no Orçamento da União em 2020 e que reserva alguns bilhões de reais para os parlamentares destinarem a suas bases eleitorais. Ou seja, está tudo na base do “toma lá, dá cá”.

É inquestionável a FORÇA POLÍTICA que Ciro Nogueira representa. Pela primeira vez, o presidente saiu da sua zona de conforto, onde “um manda (Bolsonaro) e o outro obedece (seus ministros e seguidores)”. Agora, Bolsonaro trouxe para o jogo político um jogador poderoso e que pode articular a ajuda política para blindar o presidente, a fim de que ele NÃO SOFRA IMPEACHMENT, bem como angariar força para sua REELEIÇÃO. Não se deve esquecer que a política deve ser encarada como uma foto. Hoje, Bolsonaro não ganharia o pleito presidencial. Contudo, em 2022, todos já estarão vacinados e haverá certa normalidade econômica, o que impulsionará ainda mais sua popularidade. Isso sem contar com o novo Bolsa Família, batizado como Auxilio Brasil, que, de repente, entrou na lista das prioridades de Bolsonaro, sabedor como é o presidente de que tal instrumento é CRUCIAL PARA SUA REELEIÇÃO. Não se pode deixar de lembrar que Bolsonaro SEMPRE FOI UM GRANDE CRÍTICO DO BOLSA FAMÍLIA E DE PROGRAMAS ASSISTÊNCIAIS. Já chegou a declarar que “O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado? Ele já vai viver do bolsa família, não vai fazer nada! Não produz bens nem serviços, não produz nada|!Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos e aqueles oito filhos vão ter que ter creche, escola, depois cota lá na frente, para ser o que na sociedade? Vai ser nada! (2015)”; “Você vê meninas no nordeste que bate a mão na barriga grávida, que tem também auxílio maternidade e diz que esse aqui vai ser uma geladeira, esse aqui vai ser uma máquina de lavar. E não querem trabalhar! (2014)”; “Não tô preocupado com o voto de vocês, tá ok? Se querem votar num macho, sou eu. O VOTO DO IDIOTA, O VOTO DO IDIOTA É COMPRADO COM O BOLSA FAMÍLIA (2011)”; “O Renda Brasil, e ontem eu falei tá suspenso. Vamos voltar a conversar. A proposta que uma equipe econômica apareceu para mim não será enviada ao Parlamento. Não posso tirar de pobres para dar para paupérrimos (2020)”; “O governo gasta né, em primeira mão para você, entre seguro desemprego e Bolsa Família, o ano passado, ele gastou 40 bilhões de reais. E tem aumentado esses custos, e isso daí é tudo voto de cabresto. Se eu der vinte reais para você votar em mim nas eleições, eu posso perder meu registro (2018)”; “O ministro da Cidadania nosso, o que acontece, ele fez um levantamento de 3000 famílias que recebe Bolsa Família. Pegou a garotada de zero a três anos. E essa garotada foi acompanhada por algum tempo. Chegou-se à conclusão de que o desenvolvimento intelectual dessa garotada de zero a três anos, filhos de Bolsa Família, tá, o desenvolvimento deles equivalia a um terço da média mundial (2019)”.

Teremos, nas eleições de 2022, portanto, OUTRO CENÁRIO. É logico que os desmandos e os “supostos” atos criminosos cometidos por Bolsonaro e seu governo não serão esquecidos. Porém, do ponto de vista político, isso não valerá nada se houver um grande “acordão” e uma articulação bem amarrada para reeleger o presidente, o que Ciro Nogueira sabe fazer como ninguém. Bolsonaro, portanto, não está fora do jogo eleitoral! E se Bolsonaro se reeleger, podem apostar que seu segundo mandato terá caráter ainda mais ditatorial. As coisas serão ainda mais difíceis para as minorias. A democracia estará ainda mais ameaçada. No caso de Bolsonaro não se reeleger, no entanto, ainda haverá um risco muito grande de ameaça à democracia, pois pelos discursos e atos do presidente, ele não aceitará a derrota, e, muito provavelmente, tentará organizar um golpe. Em qualquer cenário, há o RISCO IMINENTE DE RUPTURA DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO. Mas as instituições e os chefes dos outros Poderes deixaram sua assinatura nessa situação trágica que o Brasil está vivendo. Isso por que não agiram quando deveriam ter agido, deixando Bolsonaro e sua turma ganhar espaço, força e poder. Tem havido, por assim dizer, uma “POLÍTICA DO APAZIGUAMENTO TUPINIQUIM” em relação ao presidente e sua escalada golpista. E isso pode sair caro. O preço pode ser a nossa DEMOCRACIA!

2 comentários em “A “POLÍTICA DO APAZIGUAMENTO” E O GOVERNO BOLSONARO – FINAL

  1. Análise perfeita, demonstrando que Bolsonaro não é apenas um dos piores presidentes do mundo, mas um ser humano de péssima qualidade, espiritualmente atrasado.. A reação dos demais poderes constituídos preocupa demais. Dodrigo Pacheco com o papo de “buscar o diálogo” precisa cair na real; Ora… diálogo …. com Bolsonaro?… só se for de baixo calão. Lamentável!

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