BOLSONARO E A PSICOLOGIA DO OPRIMIDO – PARTE 1

Cris Couto

Este é o primeiro de dois posts que analisam a perigosa escalada antidemocrática do bolsonarismo.

Jair Messias Bolsonaro é um grande entusiasta da ditadura militar. Não é novidade para ninguém que o presidente não tem o menor apreço pela democracia. Suas falas e ações comprovam seu menosprezo por todas as conquistas trazidas pela redemocratização. A liberdade de imprensa, o direito de demarcação das terras indígenas e povos quilombolas, e a equidade entre homens e mulheres são alguns exemplos de direitos consagrados pela Constituição Federal de 1988 pelos quais o presidente já esboçou seu desprezo inúmeras vezes. A título de exemplo, Bolsonaro já afirmou: “Daí vem a imprensa, imprensa esta que lamentavelmente o ministro Fux se alimenta dela para fazer uma nota. Como diz a nota do ministro Fux: ‘Contudo, como tem noticiado a imprensa brasileira’… Ora, prezado ministro Fux, se o senhor se basear na imprensa brasileira, o senhor está desinformado”; “Com toda a certeza, o índio mudou, tá evoluindo. Cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós (2020); “Os índios não falam nossa língua, não têm dinheiro, não têm cultura. São povos nativos. Como eles conseguem ter 13% do território nacional? (2015)”; “(…) eu não empregaria com o meu salário. Ah, mas tem muita mulher que é competente (…)”. Apesar de tentar, por vezes, se disfarçar de democrata, Bolsonaro, em um evento militar em Campinas (SP), disse: “Alguns acham que eu posso fazer tudo. Se tudo tivesse que depender de mim, NÃO SERIA ESSE O REGIME [DEMOCRACIA] QUE NÓS ESTARÍAMOS VIVENDO. E apesar de tudo, eu represento a democracia no Brasil.” E isso é verdade! Se dependesse do presidente, há tempos não haveria nenhum resquício de democracia no Brasil. É, porém, incontestável que nossas INSTITUIÇÕES estão muito FRAGILIZADAS e o RISCO DE UM GOLPE É IMINENTE! Nos três primeiros anos de governo, Bolsonaro promoveu, juntamente com seus aliados, verdadeiro ataque à democracia no país, feriu pactos sociais, manchou a nossa imagem internacional e, ao seguir o modelo da ultradireita extremista, colocou em risco um legado de 36 anos de regime democrático. Segundo o relatório “Variações da Democracia (V-Dem) da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, em um ranking de 202 países, o Brasil é o quarto país que mais se afastou da democracia no ano de 2020.  Esse é o Brasil de Bolsonaro!

Com as investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, que expôs negativamente seu mandato, Bolsonaro começou a se sentir, pela primeira vez, ameaçado. As investigações do Supremo Tribunal Federal sobre eventual interferência do presidente na Polícia Federal; a suposta prevaricação sobre irregularidades na negociação da vacina Covaxin; o vazamento de dados de inquérito sigiloso da Polícia Federal; e a investigação do TSE, que apura ataques, sem provas, contra o sistema de votação eletrônico, fizeram com que Bolsonaro ficasse ainda mais acuado. Tudo isso, aliado ao fato de que o ex-presidente Lula está liderando as intenções de votos para a presidência em 2022, fez com que Bolsonaro, sentindo-se PSICOLOGICAMENTE OPRIMIDO, partisse para o “tudo ou nada”.

Em entrevista ao programa “Os Pingos Nos Is”, da Rádio Jovem Pan, o presidente criticou a inclusão do nome dele como investigado no inquérito que apura ataques contra as eleições, que tramita no STF, e afirmou que “Sou presidente 24 horas por dia. O meu jogo é dentro das quatro linhas, mas se sair das quatro linhas, sou obrigado a sair das quatro linhas. É como o inquérito do Alexandre de Moraes: ele investiga, ele pune e ele prende. Se eu perder [as eleições] vou recorrer ao próprio TSE? Não tem cabimento isso”. Bolsonaro, em ameaça velada ao STF, disse, em sua live habitual, que iria pedir o impeachment do Ministro Barroso e do Ministro Alexandre de Moraes. Em relação ao Ministro Moraes, Bolsonaro chegou a formalizar o referido pedido ao Senado Federal. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), disse não vislumbrar fundamentos técnicos, jurídicos ou políticos para destituir um integrante da Suprema Corte e, corretamente, rejeitou o pedido. Esse devaneio de Bolsonaro foi duramente criticado, inclusive, por muitos de seus aliados. Mas o interessante é que o presidente sabia que o pedido de impeachment não daria em nada. Bolsonaro entrou com esse pedido apenas e tão somente para continuar dizendo aos seus aliados que sempre foi ‘perseguido’ pelos Ministros do STF e do TSE. Assim, no caso de não ser vencedor no pleito de 2022, haverá uma justificativa para um golpe, pois como o “mito” mesmo destacou “(…) se perder as [eleições] vou recorrer ao TSE?”. Loucura demais, né? Mas esse é o pensamento dessa “turma” que habita o Planalto.

Os seguidores do presidente, contudo, não só concordam com suas ideias TRANSLOUCADAS e quiçá CRIMINOSAS, como acabam agindo no mesmo sentindo. O presidente nacional do PTB e ex-deputado Roberto Jefferson, preso preventivamente por envolvimento em uma suposta milícia digital que atua contra a democracia, aparece em vídeos empunhando armas, pedindo o fechamento do STF e criticando medidas sanitárias contra a Covid-19. Roberto Jefferson divulgou, ainda, um texto incitando o presidente a “jogar fora das quatro linhas”, além de um áudio ofendendo o Ministro Alexandre de Moraes. Outro fato muito delirante ocorrido nos últimos dias foi a convocação de caminhoneiros para “fechar Brasília” e “parar tudo” em apoio a Bolsonaro, promovido pelo ex-deputado federal e cantor Sérgio Reis. Segundo o bolsonarista, “Estamos fazendo um movimento para salvar o nosso país, vai ser uma coisa séria. Vamos fazer um movimento clássico, sem agressões, sem nada. Queremos dar um jeito de movimentar esse país e salvar o nosso povo. Estamos organizando talvez [nos dias] 4, 5 e 6 de setembro — no dia 7 de setembro não queremos fazer nada para não atrapalhar o nosso capitão Bolsonaro, o nosso presidente, no desfile [do Dia Independencia], porque é uma data importante, sem criar tumulto”. Posteriormente, Sérgio Reis chegou a convocar diretamente um protesto de caminhoneiros, cujo alvo seria o STF. Disse o cantor “Nós vamos parar 72 horas. Se não fizer nada, nas próximas 72 horas, ninguém anda no país, não vai ter nem caminhão para trazer feijão para vocês aqui dentro”, teria dito Reis em uma reunião em Brasília, com representantes do agronegócio, sentado ao lado do presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), Antonio Galvan – que também é alvo da operação da PF nesta sexta (20). Nada vai ser igual, nunca foi igual ao que vai acontecer em 7, 8, 9 e 10 de setembro e se eles não obedecerem nosso pedido, eles vão ver como a cobra vai fumar, e ai do caminhoneiro que furar esse bloqueio”.

Mas dentre as atrocidades ocorridas nos últimos dias, o mais assustador é verificar que, indubitavelmente, a Polícia Militar está aparelhada politicamente. Policiais das mais variadas patentes, alocados em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Espírito Santo, Paraíba e Ceará, passaram a se mobilizar para apoiar o presidente no ato marcado para o dia 7 de setembro, de caráter antidemocrático, por incluir, por exemplo, ameaças de invasão ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal. O Sargento Lima, de Santa Catarina, compartilhou convocações aos atos, dizendo que “Chamar de gado é fácil. Difícil vai ser aguentar o estouro da boiada. Vai ser gigante em SC”. Já o sargento da ativa Eduardo da Silva Marques Junior compartilhou com seus 162 mil seguidores no Facebook uma imagem em que aparece ao lado do presidente, com a seguinte legenda: “Soldados do Povo! Guerreiros por Natureza! 7 de Setembro será um grande dia! Milhões de cidadãos de bem de todas as regiões do Brasil estão com o senhor!”. Em São Paulo, o governador João Doria (PSDB) afastou por indisciplina o Coronel da ativa, Aleksander Lacerda, por convocar “amigos” para manifestação contra instituições democráticas. A convocações para tais movimentos antidemocráticos dentro da Polícia Militar vêm crescendo assustadoramente. E isso é muito grave! As forças armadas, como um todo, têm a função institucional de proteger todo e qualquer cidadão. Não devem fazer política!!! Agora, o fato de um oficial ter perdido o constrangimento de realizar um ato político e manifestar publicamente opiniões antidemocráticas é, por si só, muito perigoso. Isso deve ser encarado como verdadeiro risco de um MOTIM BOLSONARISTA DENTRO DAS POLÍCIAS ESTADUAIS. Aliás, quem não se lembra do motim dos policiais militares no Ceará, em 2020? Na ocasião, o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, e o presidente Bolsonaro não só respaldaram a insubordinação, como tentaram legalizar os atos criminosos cometidos pelos policiais. Por quê? Ora, justamente para angariar apoio dessa classe. E deu certo! Tais atitudes são muito perigosas, pois quem tem arma, não deve se meter com política! O risco de uma guerra civil é grande, infelizmente!

No próximo post, continuaremos analisando a perigosa escalada antidemocrática do bolsonarismo.

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