Cris Couto
O cenário jurídico e político brasileiro no final de 2025 revela com nitidez uma queda de braço institucional que vai muito além da figura individual do ministro Alexandre de Moraes. O que está em curso é uma ofensiva coordenada que combina pressão midiática, oportunismo político e ativismo da extrema-direita bolsonarista com um objetivo claro: enfraquecer o Supremo Tribunal Federal (STF) como instância de contenção do autoritarismo e da corrupção! Moraes, por razões evidentes, tornou-se o alvo preferencial. O triste é ver que a grande mídia embarcou na mais nova tentativa de golpe!
É nesse contexto que surgem as denúncias veiculadas pela jornalista Malu Gaspar sobre um suposto favorecimento do Banco Master junto ao Banco Central (BC). Malu Gaspar afirma que o ministro Alexandre de Moraes teria feito contatos com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da operação envolvendo o Banco Master, banco ligado a empresa que mantém contrato com o escritório de advocacia de sua esposa. A imputação é grave: se houvesse pressão ou interferência indevida, estaríamos diante de ilícito sério. O problema é que a narrativa não apresenta provas materiais, documentos ou registros formais que sustentem a acusação. As reportagens se apoiam exclusivamente em fontes “em off”, reproduzindo um método já conhecido do público brasileiro: a fabricação de suspeição sem lastro probatório, amplamente utilizado na Lava Jato para destruir reputações e corroer instituições.
Esse padrão de jogar uma acusação sem provas foi amplificado por setores da grande imprensa. Mônica Bergamo e Eliane Cantanhêde reforçaram a narrativa sem apresentar qualquer elemento novo, recorrendo igualmente a fontes anônimas e ilações genéricas. Nenhum documento, nenhum ato concreto, nenhuma evidência. Ainda assim, construiu-se um coro midiático que tenta converter conjecturas em fatos consumados, numa clara operação de desgaste político.
É importante lembrar criticamente da atuação dessas jornalistas no contexto da Lava-Jato: Malu Gaspar, Mônica Bergamo e Eliane Cantanhêde tornaram-se símbolos do que se convencionou chamar de “viúvas da Lava-Jato”, um tipo de jornalismo que abriu mão da apuração rigorosa para atuar, na prática, como porta-voz informal das narrativas do então juiz Sergio Moro. Em vez de investigar o poder, limitaram-se a reproduzir vazamentos seletivos, versões interessadas e acusações sem contraditório, confundindo opinião política e militância com informação jornalística. Não por acaso, justamente na semana em que o ministro Dias Toffoli trouxe a público provas sobre a atuação criminosa de Sergio Moro em Curitiba, essas colunistas passaram, subitamente, a tentar descredibilizar o STF, agora concentrando seus ataques na figura do ministro Alexandre de Moraes. Muitas das falsidades daquele período — que destruíram reputações, corroeram a confiança institucional e contribuíram para a degradação democrática do país — foram legitimadas por esse jornalismo declaratório, que escreveu tudo o que Moro dizia, sem questionar, verificar ou contextualizar.
Outras jornalistas, como Daniela Lima, o UOL, e Amanda Klein, do SBT NEWS, fizeram o que se espera do jornalismo responsável: apuraram. E foram claras ao afirmar que NÃO HOUVE ILEGALIDADE. O próprio Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, declarou publicamente que não sofreu qualquer tipo de pressão, esclarecendo que o diálogo com Moraes tratou exclusivamente da repercussão internacional da Lei Magnitsky. A tentativa de envolver a Polícia Federal também ruiu. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, desmentiu de forma categórica qualquer pressão ou interferência. Esses desmentidos, no entanto, foram convenientemente ignorados por parte da mídia, que insiste em replicar apenas a versão mais sensacionalista.
Segundo apuração da Revista Fórum, a principal “fonte” de Malu Gaspar seria André Esteves, dono do BTG Pactual, o que por si só lança sérias dúvidas sobre a credibilidade das informações divulgadas. Trata-se de um banqueiro com interesses econômicos diretos em disputas regulatórias e financeiras — inclusive envolvendo o Banco Master — e com histórico profundamente controverso: Esteves já foi preso na Operação Lava Jato, acusado de tentar obstruir a Justiça, episódio que, embora posteriormente arquivado, marcou sua trajetória pública e evidencia sua atuação nos bastidores do poder econômico. Além disso, é um personagem politicamente ativo, que no dia 17/12 se reuniu com Flávio Bolsonaro e também já manteve encontros com Donald Trump, demonstrando proximidade com o bolsonarismo e com a extrema direita internacional, justamente os campos políticos mais interessados em enfraquecer o STF e, em especial, o ministro Alexandre de Moraes. Se confirmada essa autoria indireta, NÃO SE TRATA DE UMA “FONTE JORNALÍSTICA” NEUTRA, MAS DE UM AGENTE COM EVIDENTES CONFLITOS DE INTERESSE, MOVIDO POR DISPUTAS DE MERCADO, ALINHAMENTOS POLÍTICOS E ESTRATÉGIAS DE PRESSÃO INSTITUCIONAL. Conferir credibilidade a um bilionário com esse perfil — e apresentá-lo como informante desinteressado — não é jornalismo investigativo, mas adesão consciente a uma narrativa que busca deslegitimar o Supremo Tribunal Federal e atacar o ministro que mais diretamente enfrentou o golpismo no Brasil.
Antes mesmo das acusações sem provas contra o ministro Alexandre de Moraes, já circulava na imprensa a informação de que o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, mantinha um suposto contrato com o Banco Master. O contrato foi firmado no início de 2024, com vigência até 2027, portanto ANTERIOR à crise que envolveu o banco, que se tornou pública apenas em novembro de 2025, quando vieram à tona as investigações que culminaram em sua liquidação. O valor reiteradamente destacado — cerca de R$ 129 milhões — refere-se ao teto contratual estimado ao longo de três anos, típico de contratos advocatícios empresariais, nos quais os honorários decorrem de percentuais vinculados às causas e à efetiva prestação dos serviços, e não de repasses automáticos. Além disso, as informações disponíveis indicam que Viviane Barci de Moraes possui poderes para atuação em demandas criminais e contenciosas, não havendo qualquer indício de atuação junto ao Banco Central ou em procedimentos regulatórios. Ainda assim, esse dado passou a ser mobilizado como peça central de uma narrativa de suspeição, em um movimento clássico de jornalismo por ilação: parte-se de uma relação privada lícita, ignora-se a cronologia dos fatos e constrói-se, sem prova concreta, a aparência de escândalo. Esse é o método que não informa o público, mas contribui para a erosão deliberada da credibilidade institucional.
A presença de ministros do STF cujos vínculos familiares mantêm atuação na advocacia tem sido alvo de debates públicos, mas não configura ilegalidade: Gilmar Mendes tem a esposa Guiomar Mendes (há poucos dias ex-esposa) e as filhas Laura Schertel Ferreira Mendes e Daniele Mendes atuando como advogadas, além da enteada Maria Carolina Feitosa Tarelho, todas ligadas a escritórios de grande porte como o Sérgio Bermudes; Dias Toffoli é casado com Roberta Maria Rangel, dona do escritório Rangel Advocacia, que patrocinou causas bilionárias como a da J&F; Luiz Fux tem o filho Rodrigo Fux, advogado empresarial, e a filha Marianna Fux, que passou pelo Sérgio Bermudes antes de se tornar juíza; Edson Fachin tem a filha Melina Girardi Fachin e o genro Marcos Alberto Rocha Gonçalves à frente do escritório familiar Fachin Advogados, diretamente beneficiado pela recusa do ministro em ampliar impedimentos; Luís Roberto Barroso tem o sobrinho e o pai ligados ao escritório BFBM, sucessor direto de seu antigo escritório; Kassio Nunes Marques tem a irmã Karine Nunes Marques atuando como advogada em disputas bilionárias; Cristiano Zanin mantém sociedade profissional com a esposa Valeska Zanin Martins em causas de alto valor; e, de forma ainda mais grave, André Mendonça protagoniza o caso mais inescrupuloso de todos, ao manter o Instituto Iter — uma fundação privada de fachada, com atuação ideológica e contratos milionários com o poder público e entidades como a Fiesp — enquanto julga interesses diretos desse mesmo meio econômico, sem jamais ter sido submetido a campanha pública de linchamento, o que escancara que o ataque direcionado à esposa de Alexandre de Moraes não é ética nem jornalismo, mas arma política golpista, seletiva e deliberada.
Ademais, cabe destacar que a atuação profissional da esposa do ministro Alexandre de Moraes foi artificialmente transformada em escândalo: Viviane Barci de Moraes não comete crime algum ao advogar, assim como não cometem os familiares de outros ministros que exercem a mesma profissão, inclusive em causas relevantes. Isso nunca gerou campanhas de linchamento midiático semelhantes!!! Pode-se debater ética e transparência. E isso seria um debate legítimo. Mas inventar ilegalidade onde ela não existe é desonestidade política. A seletividade dos ataques revela seu verdadeiro caráter e expõe mais uma tentativa de deslegitimação do Supremo Tribunal Federal, agora por meio da corrosão da confiança pública naquele ministro que mais diretamente enfrentou o golpismo!
Após as notícias inescrupulosas veiculadas pela grande mídia contra Moraes, a extrema-direita bolsonarista ficou excitada! O senador Alessandro Vieira, herdeiro direto do lavajatismo, passou a defender a instalação de uma CPMI e a apresentação de pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes. A iniciativa, embora formalmente institucional, integra o mesmo movimento de pressão política sobre o STF, convertendo ilações midiáticas em instrumentos de constrangimento do Judiciário e reforçando a estratégia de desgaste contínuo da Corte. NÃO SE TRATA DE BUSCAR A VERDADE, MAS DE CRIAR FATO POLÍTICO, CONSTRANGER O STF E TENTAR FORÇAR ALEXANDRE DE MORAES A RECUAR NOS PROCESSOS SOBRE OS ATOS GOLPISTAS DE 8 DE JANEIRO E AS INVESTIGAÇÕES CONTRA JAIR BOLSONARO. Trata-se também de abrir caminho eleitoral para a direita e a extrema-direita, que dependem do enfraquecimento simbólico do Supremo para se reorganizar.
Ressalte-se que não é de hoje a ofensiva da extrema-direita bolsonarista contra ministros do STF. Na verdade, essa ofensiva faz parte de uma estratégia contínua de corrosão institucional. O impeachment passou a ser instrumentalizado não como mecanismo constitucional de responsabilização, mas como arma de intimidação do Poder Judiciário, numa tentativa deliberada de subjugar a Corte, paralisar investigações e assegurar a impunidade de práticas ilícitas, como aquelas associadas ao orçamento secreto, além de manter viva uma agenda abertamente golpista. Essa lógica autoritária segue um roteiro conhecido: desacreditar juízes, fabricar narrativas de abuso e, por fim, neutralizar o árbitro da democracia. É nesse contexto que Alexandre de Moraes se tornou o alvo prioritário da ofensiva, não por violar a Constituição, mas por se recusar a abdicar de seu dever institucional diante do avanço autoritário. A construção midiática de Moraes como suposta “ameaça à democracia”, reproduzida por setores da imprensa e amplificada por redes bolsonaristas, opera como peça central de um processo de deslegitimação do Judiciário que inverte deliberadamente os polos da ordem democrática, transformando o guardião da Constituição em vilão e os violadores reiterados da legalidade em vítimas.
Do ponto de vista jurídico, contudo, essa investida encontra hoje obstáculos mais robustos do que em qualquer outro momento recente. A liminar do ministro Gilmar Mendes redesenhou o rito do impeachment de ministros do STF, erguendo um verdadeiro escudo institucional contra aventuras golpistas travestidas de legalidade: passou-se a exigir quórum qualificado de dois terços do Senado — 54 senadores — para a mera admissibilidade do pedido. Além disso, ficou consolidado o entendimento de que o conteúdo das decisões judiciais não configura crime de responsabilidade. Por fim, não há mais o afastamento automático do ministro no início do processo. O impeachment, assim, foi reconduzido ao seu lugar constitucional: uma exceção extrema para situações igualmente extremas, e não um instrumento de chantagem permanente contra o Judiciário e, em última instância, contra a própria democracia.
Sim, está havendo uma ofensiva direta contra o ministro Alexandre de Moraes. Porém, vale frisar que essa ofensiva não é inédita. Já tentaram enquadrar Moraes pela Lei Magnitsky, criminalizar sua atuação, espalhar acusações falsas, como as de Tagliaferro, posteriormente desmentidas, e houve até tentativa de homicídio. O método atual é mais sofisticado: não busca apenas ataque jurídico, mas produção deliberada de rejeição popular, fabricação de escândalos morais e paralisia institucional por pressão pública. É um impeachment de reputação, já que as travas jurídicas hoje tornam inviável qualquer avanço sem prova incontestável de crime, como visto acima.
O ministro Gilmar Mendes (STF) foi célere ao reagir à matéria de Malu Gaspar, defendendo Alexandre de Moraes e denunciando o uso irresponsável de insinuações sem prova. Sua nota não foi um gesto corporativo, mas um alerta institucional: o ataque não é a um ministro, é ao próprio Supremo. De igual forma, Flávio Dino (STF) manifestou apoio público, reforçando que não há ilegalidade e que o que está em curso é uma tentativa de desmoralização do Judiciário.
Um elemento ainda mais preocupante é ver setores do próprio campo progressista caírem na armadilha da extrema-direita, reproduzindo essa mesma narrativa. Há veículos e influenciadores que se dizem progressistas e democráticos, como o Instituto Conhecimento Liberta (ICL), que passaram a tensionar publicamente Moraes neste momento específico, ajudando a normalizar suspeições sem prova e a reforçar o desgaste institucional. Isso não é crítica de esquerda!!! É, na verdade, ingenuidade política. Ir contra Moraes agora, no centro de uma ofensiva golpista em curso, é objetivamente enfraquecer a democracia.
É importante deixar claro que não se trata de defender um Supremo Tribunal Federal intocável ou acima de qualquer crítica. O STF pode e deve ser debatido, questionado e cobrado democraticamente. Mas a forma, o momento e o contexto dessas críticas importam. Há situações em que a crítica pública, feita fora de hora e sem considerar a correlação real de forças, não ajuda a corrigir problemas nem a fortalecer a democracia. Ao contrário, acaba servindo aos interesses de quem quer enfraquecer as instituições. No cenário atual, alimentar narrativas que fragilizam o Supremo não contribui para o debate público. Pelo contrário, pois reforça, ainda que indiretamente, a estratégia do bolsonarismo de desgaste e corrosão institucional.
A história recente do Brasil já mostrou onde esse tipo de complacência com campanhas de desmoralização nos levou. Repetir isso agora seria não apenas ingenuidade, mas cumplicidade. A Lava Jato abriu caminho para o autoritarismo ao corroer instituições sob aplausos da grande mídia e do mercado. Não podemos aceitar a reedição desse roteiro que, como se sabe, é desastroso para o Brasil e, principalmente, para a democracia.
Dessa forma, defender Alexandre de Moraes hoje não significa endossar decisões sem crítica nem abdicar do debate democrático. Significa, antes de tudo, defender o Estado Democrático de Direito diante de uma ofensiva que busca enfraquecer o único poder que, até aqui, foi capaz de impor limites institucionais ao autoritarismo. O que está em jogo não é a biografia de um ministro, mas a própria sobrevivência de um arranjo institucional mínimo capaz de conter o avanço autoritário da extrema-direita bolsonarista. Sem provas, sem crime e sem base legal, o que se vê não é fiscalização legítima, mas intimidação política. Nessa conjuntura, não há neutralidade possível: ou se defende a democracia e suas instituições, ou se contribui, ainda que involuntariamente, para sua corrosão. Relativizar ataques sem prova, naturalizar campanhas de desmoralização ou silenciar diante do linchamento institucional é, na prática, escolher um lado. A história brasileira mostra que a erosão democrática raramente começa com rupturas explícitas. Na verdade, ela começa com denúncias vazias, moralismo seletivo e a conivência de quem acredita estar acima da disputa. Desta vez, não se trata de erro de avaliação, mas de responsabilidade histórica: ou essa ofensiva é interrompida agora, ou se aceita participar do processo que pavimenta o próximo ataque à democracia. O golpe ainda está aí!