LULA ACERTOU OU ERROU? – Parte 1

Cris Couto

Neste primeiro post, iremos analisar o contexto fático que levou o presidente Lula a se manifestar sobre o conflito na Faixa de Gaza de uma maneira que gerou grande repercussão na mídia brasileira e internacional. Posteriormente, iremos analisar a importância das palavras de Lula e se ele errou ou acertou em sua manifestação.

No dia 18 de fevereiro, o presidente Lula, questionado sobre a tensão na Faixa de Gaza, comparou a ação militar de Israel contra o Hamas ao assassinato em massa de judeus liderado por Adolf Hitler durante a 2ª Guerra Mundial. Disse Lula que “É muito engraçado. Quando eu vejo o mundo rico anunciar que está parando de dar contribuição para a questão humanitária aos palestinos, eu fico imaginando qual é o tamanho da consciência política dessa gente e qual é o tamanho do coração solidário dessa gente que não está vendo que na Faixa de Gaza não está acontecendo uma guerra, mas um GENOCÍDIO. De que não é uma guerra entre soldados e soldados, é uma guerra entre soldados altamente preparados e mulheres e crianças. Olha, se houve algum erro nessa instituição que apura dinheiro, que se apure quem errou. Mas não suspenda a ajuda humanitária a um povo que está há quantas décadas tentando construir o seu Estado”. Pouco depois, o presidente falou que “É importante lembrar que em 2010 o Brasil foi o 1º país a reconhecer o Estado palestino. É preciso parar de ser pequeno quando a gente tem que ser grande. O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA FAIXA DE GAZA E COM O POVO PALESTINO NÃO EXISTE NENHUM OUTRO MOMENTO HISTÓRICO. ALIÁS, EXISTIU QUANDO HITLER RESOLVEU MATAR OS JUDEUS”.

Essa fala do presidente brasileiro gerou enorme repercussão. A imprensa internacional e os líderes mundiais voltaram a falar sobre a necessidade de haver um cessar-fogo na região, tema que estava já caindo no esquecimento. Já a imprensa nacional, em sua grande maioria, resolveu defender Israel, em especial, Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense. A extrema-direita bolsonarista se mobilizou na tentativa de dar início a um processo de impeachment contra o presidente. Mas afinal, Lula errou ou acertou em sua fala? Há realmente risco de impeachment? Antes de responder tais questões, vamos atualizar o que vem acontecendo na região do conflito.

É inegável que, apesar do ato terrorista do Hamas, em 7/10/23, Israel, há muito tempo, deixou apenas de se defender e está, neste momento, cometendo crime de guerra e crime contra a humanidade em seus ataques contra os palestinos, de acordo com o Estatuto de Roma. Também é inegável que os palestinos não podem ser confundidos com o grupo terrorista do Hamas. No entanto, o exército israelense, parece não entender isso, haja vista que mais de 30 mil palestinos já foram mortos, incluindo crianças e mulheres. A desumanidade, porém, não para por aí. Benjamin Netanyahu não permite que haja corredores humanitários para que sejam levados remédios, comida e água potável. Pessoas INOCENTES estão morrendo de FOME E SEDE. Hospitais – aqueles que ainda não foram intencionalmente bombardeados pelo exército israelense – estão fazendo cirurgias sem medicamentos e até sem energia elétrica, pois até isso Israel cortou. O médico palestino Hussam Abu Safyia, diretor da ala pediátrica do Hospital Kamal Adwan, disse “Nunca, na minha vida, vi ferimentos tão graves. Vimos crianças sem cabeça. (…) Estamos trabalhando em um lugar onde a qualquer momento esperamos que nossos filhos, cônjuges, irmãos ou amigos entrem em pedaços. (…) Imagens ao vivo estão sendo transmitidas para o mundo inteiro de pessoas explodindo em pedaços, de mulheres e crianças sendo assassinadas. Por quê? O que elas fizeram de errado”? Cirurgias complexas, como a de crânio, estão sendo realizadas sem anestesia. Safyia relata que “Os gritos das crianças durante as cirurgias podem ser ouvidos do lado de fora.

O Dr. Marc Biot, médico belga que trabalhou por 34 anos na ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), afirmou que nunca havia visto ataques contra hospitais e profissionais de saúde como os que vêm sendo perpetrados atualmente pelo exército de Israel na Faixa de Gaza. Afirmou o médico e atual diretor de operações do MSF que:  “O que está acontecendo é sem precedentes. Eu e todos os meus colegas na organização nunca vimos uma destruição tão maciça de instalações médicas, bombardeio indiscriminado de civis e bloqueio de ajuda humanitária“.

Além de hospitais, Israel também já bombardeou intencionalmente escolas, maternidades, igrejas, templos, cerca de 20 prédios da Organização das Nações Unidas (ONU), além de casas de civis. Uma escola utilizada pela Agência para Refugiados Palestinos da ONU (UNRWA) para receber civis que fugiam dos bombardeios e que já haviam perdido suas casas, foi atingida por um ataque do exército israelense. As informações são de Philippe Lazzarini, comissário geral da UNRWA que afirmou: “Isto é ultrajante e mostra mais uma vez um flagrante desrespeito pela vida dos civis. Nenhum lugar é seguro em Gaza, nem mesmo as instalações da UNRWA“.

Para a ONU, o cerco de Israel pode ser considerado como uma “punição coletiva”, o que é proibido pelo Direito Internacional Humanitário. Josep Borrel, Alto Representante para os Negócios Estrangeiros da União Europeia, afirmou que: “Gaza está em completo blockout e isolamento enquanto continuam os bombardeamentos pesados. A UNRWA (A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente) alerta para a situação desesperante da população de Gaza sem eletricidade, alimentos, água. Demasiados civis, incluindo crianças, foram mortos. Isto é contra o Direito Internacional Humanitário“. Volter Turk, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, disse que “a violência precisa cessar, e é necessário fazer esforços determinados para buscar uma alternativa para esta CARNIFICINA”. As ações do exército de Israel destruíram a Faixa de Gaza. Toda a infraestrutura foi afetada, além de ruas, casas e prédios públicos. Se a guerra acabasse hoje, o que seria do povo palestino? A Faixa de Gaza é hoje uma terra arrasada. James Elder, porta-voz da UNICEF, declarou que “Gaza se tornou em um cemitério para milhares de crianças e adolescentes”.

No dia 29/2, um ataque israelense matou mais de 100 palestinos e deixou mais de 760 feridos em Gaza. E, de acordo com os Médicos Sem Fronteiras, o número de mortes deve aumentar, já que não existe rede hospitalar para todos os feridos, pois ações militares israelenses destruíram centros de saúde de Gaza. As vítimas palestinas estavam em uma fila de distribuição de alimentos. Ou seja, Israel matou civis – crianças, mulheres, idosos e homens inocentes – que aguardavam para retirar comida de comboio com ajuda humanitária quando foram atingidos por disparos de fogo! O exército israelense realizou o ataque com tanques, drones e metralhadoras. Segundo jornalistas da Al Jazeera, os tanques israelenses avançaram sobre parte dos corpos que estavam na rua. Um oficial israelense justificou os ataques dizendo que as tropas responderam ao que perceberam como uma “ameaça iminente à sua segurança”. Ora, que ameaça mulheres, crianças e civis que estão em uma fila desesperados por comida podem representar a um dos exércitos mais bem equipados do planeta, que é o exército israelense?

Pouco depois de o ataque vir ao conhecimento público, Ben-Gvir, o ministro da Segurança Nacional de Israel, extremista que já foi CONDENADO PELO TRIBUNAL DE JUSTIÇA ISRAELENSE POR APOIAR O TERRORISMO E INCITAR O RACISMO CONTRA OS PALESTINOS, disse que: “Deve ser dado apoio total aos nossos heroicos combatentes que operam em Gaza, que agiram de forma excelente contra uma multidão de Gaza que tentou prejudicá-los”. Como palestinos esfomeados em uma fila podem prejudicar soldados fortemente armados? Inacreditável! Porém, o ministro israelense foi além, pois corroborou que Israel deveria BLOQUEAR TODOS OS ENVIOS DE AJUDA HUMANITÁRIA a Gaza. Disse Ben-Gvir: “Hoje ficou provado que a transferência de ajuda humanitária para Gaza não é apenas uma loucura enquanto os nossos raptados estão detidos na Faixa em condições precárias, mas também põe em perigo os soldados das FDI (Forças de Defesa de Israel, como são chamadas localmente as Forças Armadas do país). Esta é outra razão clara pela qual devemos parar de transferir esta ajuda, que é na verdade uma ajuda para prejudicar os soldados das FDI e oxigénio para o Hamas”. Vale lembrar que o atual ministro da Segurança Nacional de Israel, antes de entrar para o governo, fazia protestos com cartazes que diziam “Fora árabes”, “Ou nós ou eles” e “Há uma solução: expulsar o inimigo árabe”.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a Autoridade Palestina não é competente para governar a Faixa de Gaza. Essa declaração se deu após Joe Biden, presidente dos Estados Unidos, maior aliado de Israel, dizer que a Autoridade Palestina deveria governar Gaza e a Cisjordânia após o término do conflito.  Vale lembrar que as terras destinadas ao povo palestino são: 1) Faixa de Gaza, administrada pelo Hamas, que já teve Netanyahu como aliado; 2) Cisjordânia, administrada pela Autoridade Palestina que é sediada em Ramallah (seu principal partido, o Fatah, é o principal rival palestino do Hamas, o grupo terrorista que controla Gaza desde 2007). Netanyahu afirmou que Israel deve manter a “responsabilidade militar geral” em Gaza “no futuro próximo”. Ou seja, para Israel, o território da Faixa de Gaza e da Cisjordania devem ser controlados por Israel. Não admite sequer a ideia da Autoridade Palestina, que visa resguardar os direitos do povo palestino e que não aceita o Hamas, administrar os territórios da Palestina – Gaza e Cisjordania.

Na verdade, fica cada vez mais evidente que Netanyahu pretende anexar, de uma vez por todas, as terras onde vivem os palestinos. Essa pretensão israelense apenas corrobora o que já sabemos: o atual primeiro-ministro de Israel fará tudo o que estiver a seu alcance para boicotar a solução de dois Estados proposta pela ONU – projeto de criação e de coexistência pacífica dos Estados independentes de Israel e da Palestina, que visa acabar com as disputas de soberania política, territorial e militar na região e que o presidente Lula afirma ser a única solução para a paz na região.  O chefe de diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, disse haver um consenso entre os países do G20 sobre o apoio à solução de dois Estados para a crise entre israelenses e palestinos. No entanto, o premiê Benyamin Netanyahu reafirmou que seu governo se opõe à criação de um Estado palestino qualquer que seja o cenário pós-guerra. Aliás, o primeiro ministro de Israel sempre foi contra a criação de um Estado Palestino. Em 2009, Netanyahu, prometeu que não haveria Estado palestino se fosse reeleito.

A posição de Israel já deveria ter chamado a atenção mundial quando houve o ataque terrorista do Hamas, pois logo de início, Netanyahu declarou guerra e afirmou que os PALESTINOS pagariam um preço alto pelo ataque e que a resposta de Israel a Gaza “mudará o Oriente Médio”. Ressalte-se que o premier disse que os palestinos pagariam pelo atentado e não o Hamas. Ou seja, em nenhum momento Netanyahu fez distinção de algo que o mundo sabe, ou deveria saber: os palestinos não se confundem com o Hamas. Se isso não bastasse para alertar o mundo sobre a posição radical de Netanyanhu, ele ainda afirmou na ocasião: “Vamos transformar Gaza numa ilha deserta. Aos cidadãos de Gaza, eu digo: vocês devem partir agora. Iremos atacar todos e cada um dos cantos da Faixa”. Mas o problema é: partir para onde? Não há para onde os palestinos irem e o primeiro-ministro de Israel sabe disso. Mesmo porque, para qualquer pessoa entrar ou sair de Gaza precisa de autorização de Israel.

Por sua vez, Yoav Gallant, ministro da Defesa de Israel, com uma declaração incontestavelmente racista, qualificou palestinos como ‘animais humanos’ para justificar bloqueio total de energia, água, remédios e alimentos à cidade. Bloqueios assim são também uma forma de matar civis inocentes! Em outra oportunidade, Israel Katz, ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel, afirmou ter um plano de construção de uma ilha artificial ao largo da costa de Gaza, para alocar os palestinos. Ou seja, Katz deseja retirar o povo palestino de suas terras e depositá-los uma ilha artificial como prisioneiros a mercê do governo israelense.

A cada dia parece mais evidente que o governo israelense se aproveita do atentado sofrido para: 1) proteger Benjamin Netanyahu que responde por vários processos na justiça israelense por corrupção passiva, fraude e abuso de poder (o ataque terrorista contra Israel e a incisiva reação para “proteger o povo israelense” poderia ter deixado o primeiro-ministro mais forte e longe da prisão, como já aconteceu inúmeras outras vezes); 2) mostrar ao mundo a superioridade militar de Israel; e 3) colocar em prática uma política de “limpeza étnica” e anexação de terras.

O Haaretz, maior órgão de imprensa israelense, diz que durante o governo de Netanyahu, houve uma expansão maciça de assentamentos ILEGAIS em TERRAS PALESTINAS ROUBADAS, provocações na mesquita sagrada de Al-Aqsa em Jerusalém e conversas abertas sobre uma ‘segunda Nakba’ (termo usado para designar a limpeza étnica, estupros, assassinatos e pilhagens perpetradas por grupos paramilitares terroristas israelenses em 1948, após a declaração do estado de Israel. Mais de 750 mil palestinos foram expulsos e 15 mil foram assassinados). Essa política de limpeza étnica, obviamente, fomenta a escalada de tensões entre Israel e a Palestina.

No próximo, passaremos à análise da fala do presidente Lula sobre o conflito que gerou repercussão em diversos segmentos da sociedade brasileiro e mesmo internacional.

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