ISRAEL X HAMAS E A GUERRA DA DESINFORMAÇÃO (Parte 2)

Cris Couto

Israel possui um dos mais bem preparados exércitos do mundo, com as mais avançadas tecnologias e que seria capaz de barrar o ataque terrorista do Hamas, como explicam os maiores especialistas na área. Israel diz ter sido pego de surpresa. Porém, o Egito afirma que, três dias antes da violência ser consumada, avisou Israel sobre potenciais investidas terroristas do Hamas, mas, apesar disso, Israel manteve-se inerte. Então a culpa do atentado é de Israel? Óbvio que não! Nada retirará a culpa dessa violência do Hamas. No entanto, para evitar que esse conflito tome dimensões mundiais e para que se construa a paz na região, é preciso que analisemos as causas e circunstâncias profundas do que está acontecendo. 

Benjamin Netanyahu responde por vários processos na justiça israelense por corrupção passiva, fraude e abuso de poder. Para tentar não ser preso, Netanyahu se aliou a grupos da extrema-direita no Knesset (Parlamento de Israel). O primeiro-ministro de Israel ainda estava propondo e trabalhando seriamente para uma profunda reforma do Poder Judiciário israelense, com o objetivo de fugir de qualquer condenação criminal.  Algo bem parecido com o que está sendo proposto no Brasil pela extrema-direita bolsonarista que, para se livrar de condenações criminais, está propondo um projeto de emenda à Constituição Federal (PEC) com o objetivo de poder alterar as decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o que é flagrantemente inconstitucional. É claro que não se está afirmando que a culpa do ataque terrorista do Hamas é de Netanyahu. No entanto, é verdade que a situação calamitosa vivenciada por Israel no dia 7/10 e a contundente reação para “proteger o povo israelense” poderia ter deixado o primeiro-ministro israelense mais forte e longe da prisão, bem como já aconteceu inúmeras outras vezes.

Grande parte da imprensa israelense afirma que Netanyahu tem responsabilidade no ataque do dia 7/10. Quatro entre cinco israelenses também. O Haaretz, principal e mais sério veículo de imprensa de Israel, publicou editorial afirmando que Benjamim Netanyahu era o responsável pelos ataques sem precedentes e orquestrados pelo Hamas. Tal jornal também destacou a incapacidade do premier de avaliar os riscos inerentes à escalada do conflito na região, provocados pelas próprias políticas hostis aos palestinos e pela presença no governo de representantes da ultradireita religiosa radicalmente antiárabe. Afirmou o Haaretz que “O primeiro-ministro, que se vangloria da vasta experiência política e da sabedoria insubstituível em matéria de segurança, falhou completamente em identificar os perigos a que conscientemente direcionava Israel, ao estabelecer um governo de anexação e desapropriação, ao indicar Bezalel Smotrich [ministro das Finanças] e Itamar Ben-Gvir [ministro da Segurança Nacional, da extrema direita] para postos-chave, enquanto adotava uma política externa que abertamente ignorava a existência e os direitos dos palestinos”. Novamente cabe esclarecer que mesmo que o premier israelense tenha alguma responsabilidade, direta ou indireta, no ataque terrorista, isso em nada diminui a culpa do Hamas, que é um grupo terrorista e que praticou o ataque. Nada pode justificar o que Hamas fez. Assim como nada justifica as ações desproporcionais que Israel vem praticando, atingindo mulheres, crianças e homens inocentes, que não fazem parte do grupo terrorista.

Como pode ser percebido, os jornais brasileiros são mais pró-Israel – ou pró-Benjamin Netanyahu – do que a própria imprensa israelense. Talvez pelo fato de os EUA apoiarem Israel. O pior é que o apoio da imprensa ocidental aos crimes de guerra e crimes contra a Humanidade que, nesse exato momento, estão sendo praticados por Israel contra o povo palestino, que não se confunde com o Hamas, estimula mais atrocidades, xenofobia e violência, o que pode eventualmente desencadear a Terceira Guerra Mundial. Não é de hoje que, por exemplo, o ocidente vê o povo palestino e, árabes em geral, como “terroristas” e Israel como o “povo de Deus”. Parem com isso! Em todos os países existem pessoas boas e pessoas criminosas. Fazer esse recorte interessa a quem? Quem sabe aos EUA, que passaram a ter Israel como um aliado incondicional no Oriente Médio, região que é a maior produtora mundial de petróleo. Será que os EUA possuem algum interesse econômico na região?

Ben-Gvir, o ministro da Segurança Nacional de Israel, é um extremista que foi condenado pelo Tribunal de Justiça israelense por apoiar o terrorismo e incitar o racismo contra os palestinos. Antes de entrar para o governo, ele protestou com cartazes que diziam “Fora árabes”, “Ou nós ou eles” e “Há uma solução: expulsar o inimigo árabe”. O Haaretz ressalta o problema que é a política de “limpeza étnica” do governo de Netanyahu: durante seu governo, houve uma expansão maciça de assentamentos (ilegais) em terras palestinas roubadas, provocações na mesquita sagrada de Al-Aqsa em Jerusalém e conversas abertas sobre uma ‘segunda Nakba’ (termo usado para designar a limpeza étnica, estupros, assassinatos e pilhagens perpetrada por grupos paramilitares terroristas israelenses em 1948, após a declaração do estado de Israel. Mais de 750 mil palestinos foram expulsos e 15 mil foram assassinados). Essa política de limpeza étnica, obviamente, fomenta a escalada de tensões entre Israel e a Palestina.

O Haaretz publicou provas de que Netanyahu não quer a paz e que ele fortalece o Hamas para justificar sua agressão beligerante como “antiterrorismo”. Em 2019, Netanyahu disse aos congressistas de seu partido, Likud, que “qualquer pessoa que queira impedir o estabelecimento de um estado palestino tem de apoiar o fortalecimento do Hamas e a transferência de dinheiro para o Hamas. Isso faz parte da nossa estratégia”. Aqui cabe uma ponderação: assim como o povo palestino não pode ser confundido com o Hamas, o povo israelense também não deve ser confundido com Benjamin Netanyahu, nem com suas falas ou ações eticamente condenáveis.

 Já está cansativo, mas antes que alguma voz desavisada tente dizer que estamos tentando justificar o ataque do Hamas, vamos corroborar que: 1) Hamas é um grupo terrorista que praticou um ataque desumano contra o povo de Israel; 2) A política de Benjamin Netanyahu é desumana e mantém, em Gaza, um verdadeiro campo de concentração, onde quem manda é Israel, e o povo palestino não tem liberdade para nada em uma terra que, pelo Direito Internacional, pertence aos palestinos.

Como já destacado, o exército israelense é o mais bem preparado do mundo e, se não bastasse isso, os EUA mandaram soldados e armas para auxiliar Israel no combate contra o Hamas. É inequívoco que Israel pode e deve ir atrás dos terroristas que lançaram bombas, em uma ação sem precedentes em solo israelense. Porém, Israel está dizimando palestinos civis inocentes. Israel está bombardeando hospitais, maternidades, escolas. Não permite que ajuda humanitária entre em Gaza. Já cortou luz, água, combustível, suprimentos médicos e internet. Já não há remédios para que os profissionais de saúde possam ajudar os doentes. Está havendo cirurgias sem anestesia. Isso é desumano!!!

Israel chegou a ordenar que cerca de 1,1 milhão de palestinos se desloquem para o sul da Faixa de Gaza em 24 horas se quisessem se livrar dos bombardeios. Ocorre que isso era impossível. Não havia como tantas pessoas saírem tão rapidamente do norte e irem para o sul. Como isso ocorreria? Fugiriam a pé? Para onde? A ONU afirmou que tal deslocamento era impossível e que desencadearia consequências humanitárias devastadoras.

A mídia internacional erra ao dizer que, em Gaza, atualmente, está ocorrendo uma guerra. Definitivamente não. O que ocorre é um verdadeiro extermínio! O povo palestino não tem para onde correr. Não tem como se defender. Está sendo exterminado. E a mídia ocidental parece tratar desse fato como se fosse uma partida de futebol.

No próximo artigo, analisaremos como o Brasil vem se posicionando em relação à situação em Gaza.

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