Cris Couto
Diante do extermínio do povo palestino, o Conselho de Segurança da ONU (CSNU) se reuniu para tentar salvaguardar vidas humanas. Na ocasião, o Brasil havia assumido a presidência rotativa do CSNU. O presidente Lula, por meio da Diplomacia brasileira, sugeriu um texto que condenava os ataques terroristas do Hamas e cobrava de Israel o fim do bloqueio à Faixa de Gaza, com o intuito de que civis pudessem sair em segurança da zona de conflito e para que remédios, água e comida entrassem em Gaza para que civis pudessem tentar sobreviver. O resultado da votação foi 12 votos a favor da Resolução apresentada pela Diplomacia brasileira, duas abstenções, sendo uma da Rússia, e um voto contrário, por parte dos Estados Unidos. Por se tratar de um membro permanente, o voto norte-americano resultou na rejeição da proposta brasileira. Sim, a proposta brasileira conseguiu 12 votos a favor, e devido a apenas 1 voto não houve a aprovação da tão necessária Resolução. Isso pelo fato de que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (China, França, Rússia, Reino Unido e os Estados Unidos) têm poder de veto. Além dos permanentes, há 10 membros rotativos, que atualmente são: Albânia, Brasil, Equador, Gabão, Gana, Japão, Malta, Moçambique, Suíça e Emirados Árabes. Para que uma resolução seja aprovada, é preciso o apoio de nove do total de 15 membros – a proposta do Brasil conseguiu 12 -, sendo que nenhum dos membros permanentes pode vetar o texto.
Não é de hoje que a diplomacia brasileira vem contestando o poder de veto de apenas 5 países do mundo. Ora, 5 países podem mudar a história de vida de milhares de pessoas, por qual motivo? Se na época da criação da Organização das Nações Unidas, em 1945, isso se justificava, atualmente não há mais razões para se manter o instituto do veto. O presidente Lula, após a rejeição da proposta brasileira na ONU, afirmou que: “É preciso acabar com o direito de veto, ou seja, se tiver dúvida, vota a maioria, ganha e cumpre-se. Então, eu vou continuar falando em paz, vou continuar falando porque eu acredito que é a coisa mais extraordinária tentar superar o poder das balas com o poder da conversa. (…) [A proposta brasileira] foi rejeitada por causa de uma loucura, que é o direito de veto conseguido pelo país titular do Conselho de Segurança da ONU, que eu sou totalmente e radicalmente contra. Isso não é democrático. (…) São os cinco países [permanentes] do Conselho de Segurança que fabricam arma, que vendem armas e que fazem guerra. É a contradição. Por isso que nós queremos mudar o conselho […]. O que nós queremos é democratizar o conselho da ONU porque, hoje, ele vale muito pouco”.
Após esse episódio da rejeição da proposta brasileira de Resolução, o presidente Biden foi à Israel e, segundo o representante americano na ONU, iria fazer uma “diplomacia em campo”. Embora não houvesse muitas expectativas, havia uma singela esperança de que Biden fosse tentar um corredor humanitário para levar suprimento e retirar em segurança civis que estão sendo exterminados em Gaza. No entanto, Biden apenas manifestou seu apoio a Benjamin Netanyahu. E se não bastasse todo o poderio bélico de Israel, os EUA também mandaram homens, navios de guerra e armas para apoiar o Estado israelense. Foi enviado um dos maiores navios de guerra do mundo: a embarcação tem capacidade para carregar 4.500 militares, além de 90 aviões e helicópteros. Ah, mas o Hamas fez um ataque terrorista sem precedentes e também tem armas, além de apoio do Irã, né? Sim, isso é verdade, porém nada justifica os crimes de guerra que têm sido perpetrados por Israel. Em primeiro lugar, deve-se ter em mente que o Estado israelense está combatendo um grupo terrorista, e não poderia jamais agir como tal, violando a dignidade física de civis. Obviamente, em todo conflito armado, civis sofrem danos colaterais e, por vezes, perdem a vida. Mas o que está em curso na Faixa de Gaza vai muito além de danos colaterais. O exército israelense está destruindo hospitais, maternidades, casas de civis, ambulâncias. Estão bombardeando civis de forma proposital e com a desculpa de que “pode ser que algum membro do Hamas esteja abrigado entre os civis”. Infelizmente, Israel está agindo igual – ou pior – ao grupo terrorista do Hamas.
No dia 3/11, Israel atacou três hospitais em um único dia em Gaza. Um dos ataques israelense atingiu o hospital al-Shifa e diversas ambulâncias que transportavam doentes para o sul da região. Dezenas de pessoas foram mortas e feridas devido a esse ataque, que também caracteriza crime de guerra. Foi estarrecedor. Corpos em pedaços na avenida. Crianças e civis carbonizados. Uma cena de uma criança sem metade da cabeça chocou o mundo – ou deveria ter chocado. A tese de alguns cientistas políticos, inclusive israelenses, de que Israel, sob o comando de Benjamin Netanyahu, está querendo promover uma “limpeza étnica” e acabar com os palestinos, está cada vez mais evidente. A justificativa de Israel para bombardeios é sempre a mesma: poderia haver membros do Hamas entre os civis. Ora, nada justifica assassinar crianças e civis. Isso viola o Direito Internacional e todas as regras humanitárias. Mesmo que Israel tivesse certeza de que houvesse o chefe supremo do Hamas dentro do hospital, ainda assim a matança de civis não se justificaria. Soldados israelenses poderiam ter sido enviados em uma missão para tentar prendê-lo, mas nunca o Estado poderia adotar uma linha de ação que matasse centenas de inocentes. ISSO É DESUMANO E CRIMINOSO. O jornalista Jorge Pontual, da Globonews, tentou justificar o injustificável. Sem a menor empatia, apoiou o ato criminoso e também terrorista de Israel. Pontual disse que “atacar terroristas do Hamas é um direito que Israel tem. Se eles estavam em uma ambulância, infelizmente, era isso que Israel tinha que fazer: alvejar esses inimigos”. Parte considerável da imprensa brasileira, pelo visto, escolheu um lado: Israel. Triste, pois nessa disputa sangrenta só há um lado que deveria ser escolhido: a vida de inocentes, independentemente de sua nacionalidade. Nada, nenhum argumento pode justificar ceifar a vida de civis inocentes.
A ONU confirmou, no dia 4/11, que Israel bombardeou uma escola, em Gaza, que era administrada pela ONU e que servia de abrigo para palestinos (crianças, mulheres, idosos e homens inocentes) que tentavam se proteger dos bombardeios israelenses. Isso é inadmissível e pode ser contabilizado como mais um crime de guerra cometido pelo Estado israelense. Um menino com cerca de 10 anos teve que carregar dois corpos, segundo a agencia Reuters. A ONU afirmou haver muitas crianças dentre os mortos desse bombardeio. Israel ainda não comentou esse ataque, mas já sabemos o que irá ser dito: “poderia haver alguém do Hamas na escola”, o que não justifica. O médico palestino Hussam Abu Safyia, diretor da ala pediátrica do Hospital Kamal Adwan, disse “Nunca, na minha vida, vi ferimentos tão graves. Vimos crianças sem cabeça. (…) Estamos trabalhando em um lugar onde a qualquer momento esperamos que nossos filhos, cônjuges, irmãos ou amigos entrem em pedaços. (…) Imagens ao vivo estão sendo transmitidas para o mundo inteiro de pessoas explodindo em pedaços, de mulheres e crianças sendo assassinadas. Por quê? O que elas fizeram de errado”? Cirurgias complexas, como a de crânio, estão sendo realizadas sem anestesia. Safyia relata que “Os gritos das crianças durante as cirurgias podem ser ouvidos do lado de fora”. Os médicos trabalham sob a luz de smartphones, pois Israel cortou a energia elétrica. Algum ser humano acha essa situação normal? Quero acreditar que não.
O governo brasileiro segue com as tratativas para repatriar brasileiros e familiares que ainda permanecem na zona de conflito. Em novembro, havia 34 brasileiros que aguardavam autorização para deixar Gaza. Um grupo de parlamentares da extrema-direita bolsonarista foi até a Embaixada de Israel para solicitar que o país dificultasse a saída dos brasileiros que se encontravam em solo palestino, com o objetivo de macular a imagem de Lula frente ao conflito. Como o governo brasileiro vem ganhando elogios de líderes mundiais com a repatriação de brasileiros e por ser o primeiro país a buscar seus nacionais na zona de conflito, os bolsonaristas ficaram com medo de que isso pudesse melhorar ainda mais a imagem do atual chefe do executivo.
O Brasil ficou de fora de mais uma lista de pessoas autorizadas a saírem da Faixa de Gaza, no dia 4/11. O critério para a inclusão de cidadãos dos mais diversos países não é claro. A permissão de saída é resultado de um acordo mediado pelo Catar com Israel, Egito e Hamas. A extrema-direita brasileira comemorou que brasileiros não conseguiram sair de Gaza! Além de ser desumano, chega a ser criminosa a ação desses bolsonaristas. Eles preferem mortes apenas para terem uma narrativa – ainda que frágil – para atacar Lula.
Porém, essa não inclusão de brasileiros na lista que permite a saída de pessoas da zona de conflito em nada tem a ver com nenhuma política nacional. É verdade que Lula, na última semana, afirmou que não se pode aceitar que crianças inocentes morram e que está havendo um extermínio em Gaza. E o presidente está correto! Inúmeros outros líderes mundiais, inclusive alguns alinhados com Israel, tiveram o mesmo posicionamento. Isso em nada contribuiu para a não inclusão dos nacionais na lista! Assim como, queremos crer, que o pedido dos bolsonaristas ao Embaixador de Israel no Brasil não resultou na ausência de nossos compatriotas na autorização. Shahed al Banna, brasileira que mora na Faixa de Gaza e que faz parte dos brasileiros que desejam deixar o local, disse que a fronteira com o Egito foi fechada devido ao bombardeio no hospital do dia 4/11, o que pode ter restringindo ainda mais o número de pessoas que deixam a área de conflito. O Embaixador do Brasil em Israel, Frederico Meyer, disse que a falta de brasileiros na lista que permite pessoas saírem de Gaza em nada tem a ver com o posicionamento do Brasil frente ao conflito, mesmo porque, não se pode esquecer que o Brasil foi o primeiro país e o que mais conseguiu repatriar seus cidadãos desde que essa guerra se iniciou. Meyer disse que “Interpretar isso [a não inclusão de brasileiros] como sendo fruto da relação bilateral, ou política, é realmente uma análise incorreta. A lista não tem nada a ver com a relação bilateral dos países. Na primeira lista, por exemplo, onde não constava os EUA, constava a Indonésia, que não reconhece Israel”.
Na verdade, Israel está bombardeando toda a Faixa de Gaza e não se importa com quem esteja morrendo, quem esteja saindo ou permanecendo na zona de conflito. Tanto isso é verdade que uma senhora palestina, com cidadania americana, disse que a Embaixada dos EUA havia passado coordenadas para onde ela e outros palestinos, todos com cidadania americana, deveriam ir. Contudo, Israel atacou essas pessoas. Ressalte-se: todos com cidadania americana e, como se sabe, os EUA são alinhados de primeira hora do Estado israelense.
Israel está promovendo um extermínio que pode ser compreendido como uma tentativa de limpeza étnica. Porém, cabe destacar que uma coisa é a política criminosa adotada por Israel, outra bem diferente é o posicionamento do povo israelense. Obviamente, a população de Israel não concorda com o ataque terrorista promovido pelo Hamas e queria sim uma reação de seu país. No entanto, a grande maioria não concorda com a resposta dada por Benjamin Netanyahu e acredita haver excesso e extermínio de pessoas inocentes.
Se não bastasse todo o imbróglio no Oriente Médio, Israel anda causando alguns constrangimentos mundo afora. O Embaixador de Israel no Brasil, Daniel Zonshine, esteve no Congresso Nacional com políticos de extrema-direita, sob a justificativa de que iria exibir imagens do conflito. Na ocasião, Bolsonaro esteve presente, ocasionando mais um mal-estar diplomático. Apesar de o Embaixador ter dito que não sabia que o ex-presidente compareceria ao evento, havia plaquinha com o nome de Bolsonaro na sala de reuniões, o que comprova que ele era sim esperado. É inacreditável, mas a extrema-direita bolsonarista tentou “lacrar” ao dizer que se houvesse a repatriação de brasileiros seria graças ao Bolsonaro – informação inteiramente mentirosa, pois o Embaixador israelense no Brasil não tem nenhuma ingerência sobre o que está acontecendo em Israel. Quem decide é o governo de Israel, mais particularmente, o Ministro das Relações exteriores israelense e Benjamin Netanyahu, os quais estão em tratativas com Mauro Vieria, Ministro das Relações Exteriores do Brasil, e com o presidente Lula. É bizarro que Bolsonaro esteja tentando faturar publicidade gratuita às custas de vidas humanas. Sem contar o fato de que, enquanto foi presidente da República, Jair Bolsonaro não se mostrou preocupado em repatriar os brasileiros que estavam na China, durante a pandemia de COVID-19, nem os brasileiros que estavam na Ucrânia, quando eclodiu a guerra.
No dia 13/11, o avião com brasileiros que estavam em Gaza saiu da zona de conflito rumo à Brasília. Dos 34 brasileiros que pediram repatriação, apenas 32 deixaram o local. Segundo o Itamaraty, duas brasileiras – mãe e filha – desistiram de viajar por motivos pessoais. O Brasil segue com as tratativas.
Recentemente, a África do Sul ajuizou na Corte Internacional de Justiça (CIJ) uma ação que acusa Israel de crime de genocídio e pede o imediato cessar-fogo. Seis países da América Latina, um grupo de 57 membros da Organização de Cooperação Islâmica e a Liga Árabe, composta por 22 Estados, anunciaram apoio à decisão da África do Sul. O Itamaraty afirmou que “à luz das flagrantes violações ao direito internacional humanitário, o presidente manifestou seu apoio à iniciativa da África do Sul de acionar a Corte Internacional de Justiça para que determine que Israel cesse imediatamente todos os atos e medidas que possam constituir genocídio ou crimes relacionados nos termos da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio.” Ou seja, o apoio brasileiro é mais precisamente para que haja o imediato cessar-fogo.
O conflito segue cada vez mais sanguinário. O fato é que a pessoa que não ficou emocionada com os relatos das atrocidades mútuas até agora cometidas deixou de ser humano e passou a ser um terrorista em potencial. Nada justifica o ato terrorista do Hamas. Porém, as atrocidades que Israel está cometendo contra crianças, mulheres e civis são igualmente inaceitáveis e só confirma a tese de que Benjamin Netanyahu pretende fazer uma limpeza étnica na região, ou seja, dizimar os palestinos e tomar a Faixa de Gaza de uma vez por todas.
Violência gera violência. Há muito tempo, Israel vem massacrando o povo palestino, e os países desenvolvidos fingem não saber. Infelizmente, era de se esperar que alguma reação violenta poderia acontecer a qualquer momento. E essa violência está longe de acabar, mesmo que a guerra e o massacre ao povo palestino terminem hoje. Isso porque aquelas crianças que viram seus pais morrerem durante o atual genocídio que está sendo cometido por Israel em Gaza estarão marcadas para sempre por traumas e sentimentos de vingança. Grupos terroristas sempre existirão para cooptar pessoas revoltadas. Israel, por sua vez, está se profissionalizando em produzir pessoas revoltadas por meio de suas atrocidades.
Perfeta exposiçao com toda clareza da situaçao, que infeliznente a midia tradicional mais confunde do que esclarece