Cris Couto
Infelizmente, mais de 30 mil palestinos já foram assassinados no atual conflito entre Israel e o grupo terrorista Hamas, e aqueles que conseguiram sobreviver estão morrendo de fome e sede, além de inúmeros que estão desaparecidos. Há tempos, a vida do povo palestino não tem sido fácil, pois como Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês, já afirmou, a Faixa de Gaza transformou-se em verdadeiro campo de concentração a céu aberto. O mundo sempre soube disso, mas nada tem foi feito. Hoje, porém, os palestinos lutam para sobreviver de forma desesperada. Não há lugar para se abrigarem dos bombardeios de Israel. Não há comida, água potável, remédios. Médicos e jornalistas estão sendo mortos, em claro descumprimento de acordos internacionais. A ONG Repórteres Sem Fronteiras pediu ao Tribunal Penal Internacional (TPI), baseado em Haia, que as mortes e prisões arbitrárias dos jornalistas pelo exército de Israel sejam compreendidas como crimes de guerra. Israel afirma que não há previsão para o término do conflito. Netanyahu não quer permitir sequer o cessar-fogo e a abertura de corredores humanitários, iniciativas que só serviriam para fazer chegar mantimentos, água e remédios ao povo palestino. Se as coisas continuarem assim, em pouco tempo pode ser que vida em Gaza seja extinta.
Diante disso, o presidente Lula afirmou que Israel está cometendo GENOCÍDIO contra o povo palestino e que o “que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existiu em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu QUANDO HITLER RESOLVEU MATAR OS JUDEUS”. Importante ressaltar que, mesmo diante da tragédia vivida pelo povo palestino, o mundo estava já se acostumando com as mortes de crianças, mulheres e civis inocentes naquela região. Foi necessária a fala do presidente Lula para que as lideranças mundiais acordassem. Tanto que, logo após o posicionamento do presidente brasileiro, inúmeros protestos a favor do povo palestino se levantaram no mundo inteiro, inclusive em Israel. No entanto, apesar de algumas repercussões positivas, houve muita crítica ao presidente. Afinal, Lula errou ou acertou em sua fala? Na verdade, Lula errou e acertou, como veremos a seguir.
Grande parte da imprensa brasileira considerou inadmissível a fala de Lula, argumentando que nada pode se comparar ao holocausto. Essa posição foi seguida, quase imediatamente, pela extrema-direita bolsonarista e por alguns judeus no Brasil. Independentemente de ser correta ou não a comparação feita pelo presidente, o que mais assusta é ver como grande parte da sociedade brasileira e de setores da imprensa relativizaram as mortes ocorridas na Palestina. A maior parte da mídia brasileira defende mais as ações de Israel, em especial de Netanyahu, do que a própria imprensa israelense. Os jornais Haaretz e Times of Israel fizeram várias denúncias de abusos do exército de Israel em relação aos palestinos. Chegaram a relatar que soldados israelenses espancaram, despiram, algemaram e fotografaram palestinos inocentes. Além disso, urinaram em duas das vítimas e apagaram cigarros em seus corpos. Um agressor israelense tentou sodomizar uma das vítimas. O exército de Israel alegou dar início a um inquérito interno sobre o incidente. O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos pediu a apuração de relatos segundo os quais soldados israelenses estariam violentando mulheres e meninas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Esses relatos de práticas gravíssimas do exército de Israel, divulgados pela imprensa israelense, sequer foram noticiados pela grande mídia brasileira!
Ora, é natural que a fala de um líder como Lula cause impacto, porém, o presidente deve se expressar com responsabilidade. Mas o que realmente deveria chocar são as mais de 30 mil pessoas assassinadas na Faixa de Gaza no atual conflito, sendo a maior parte delas mulheres e crianças. Também deveria chocar o fato de que palestinos inocentes estejam morrendo de fome e sede, na medida em que Israel cortou serviços básicos, como água e energia elétrica, e não permite corredores humanitários para que sejam levados alimentos e remédios para a população civil palestina. No entanto, isso não parece não chocar. Inacreditável!
O holocausto, sem sobra de dúvidas, representou uma das mais tristes e sangrentas violações aos direitos humanos da história mundial e não pode ser relativizado. Observe-se que o holocausto foi a perseguição e assassinato em massa de minorias consideradas racialmente inferiores aos alemães. Adolf Hitler queria a “raça pura” e, para tanto, perseguiu e matou deliberadamente os não arianos. Mais de 6 milhões de pessoas, entre JUDEUS, NEGROS, HOMOSSEXUAIS, CIGANOS E PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, foram mortas pelo regime nazista. Ou seja, apesar de o holocausto ser lembrado pelos horrores e genocídio do povo judeu, cabe ressaltar que outros grupos populacionais também foram perseguidos e assassinados.
Claro está que o presidente Lula jamais teve a intenção de desmerecer o genocídio praticado por Hitler. Pode-se concordar ou não com sua fala, mas o fato é que ela pretendeu chamar a atenção mundial para a tentativa de um cessar-fogo na região de Gaza e, consequentemente, salvar vidas. Aliás, independentemente de se gostar ou não do presidente, não resta dúvidas de que Lula sempre se posicionou pela busca da paz e da convivência harmônica entre os estados de Israel e da Palestina.
Em segundo lugar, Lula afirmou que está havendo um GENOCÍDIO em Gaza. Vale esclarecer que o genocídio consiste em matar deliberadamente um grande grupo de pessoas, na maioria das vezes porque pertencem a uma determinada nacionalidade, raça ou religião. É o ato de tentar dizimar todo um grupo de pessoas. O artigo II da Convenção de 1948 sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio previu o seguinte: “Na presente Convenção, entende-se por genocídio qualquer dos seguintes atos, cometidos com a intenção de destruir no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal: a) matar membros do grupo; b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; c) submeter intencionalmente o grupo a condição de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio de grupo; e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”. Ora, alguém ainda duvida que a alta cúpula do governo extremista de Israel – e não o povo israelense – pretende destruir o povo palestino? Só para lembrar: são mais de 30 mil pessoas inocentes mortas no atual conflito, sendo a maioria de crianças e mulheres assassinadas. De forma abrupta, Israel determinou que os habitantes de Gaza saíssem imediatamente do norte da região e se dirigissem para o sul, mesmo sabendo ser isso impossível. Há bombardeios em hospitais e mesquitas. Houve o assassinado de civis famintos em busca de alimentos, sem contar as inúmeras outras violações às normas de Direito Internacional. Quando Israel é questionado sobre os atos que indiscutivelmente constituem crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, o que se ouvem são pronunciamentos abjetos de membros do governo israelense, como vimos no post anterior. A título de exemplo, a ministra da Igualdade Social e Empoderamento Feminino de Israel, May Golan, afirmou estar “orgulhosa das ruínas” na Faixa de Gaza. Se não bastasse tal afirmação, o ministro do Patrimônio israelense, Amichay Eliyahu, referiu-se a um possível uso de artefato nuclear contra a população palestina. Indagado a respeito do conflito, ele afirmou que “não há inocentes em Gaza”. Tais declarações demonstram a tese genocida do governo extremista de Benjamin Netanyahu, como bem definiu o jornalista político Reinado Azevedo, em novembro de 2023. E mais: a vontade de exterminar o povo palestino não é de agora. Há tempos que atrocidades vêm sendo cometidas, e a comunidade internacional simplesmente fecha os olhos. Não é possível que perdure, em pleno 2024, a prática de criação indiscriminada de ASSENTAMENTOS ILEGAIS de famílias israelenses em território palestino. Como pode Israel determinar a quantidade de horas durante as quais o povo palestino pode ter acesso a energia elétrica, por exemplo? Isso não é aceitável!!! Israel sempre tratou Gaza e a Cisjordânia como se fossem suas terras ocupadas por intrusos. Aliás, Israel jamais respeitou as regras internacionais. Não respeita as resoluções da ONU, nem se importa com a vida dos palestinos. Lembre-se que o ministro israelense da Defesa, Yoav Gallant, disse que os palestinos são “animais humanos”. Mas isso a imprensa brasileira não reporta, né?
Além disso, o presidente Lula não foi o primeiro líder mundial a afirmar que Israel estava cometendo GENOCÍDIO contra os palestinos. A África do Sul acusou formalmente Israel da prática de genocídio e pediu à Corte Internacional de Justiça que ordenasse o fim das operações militares. O ministro da Justiça sul-africano, Ronald Lamola, afirmou que o sofrimento do povo palestino não já dura 76 anos. O advogado da África do Sul, Tembeka Ngcukaitobi, afirmou “A tentativa de genocídio de Israel está enraizada na crença de que o inimigo não é apenas o braço militar do Hamas, nem o Hamas de maneira geral, mas o povo palestino em Gaza. No dia 7 de outubro, em um discurso televisionado, o premiê israelense Benjamin Netanyahu declarou guerra a Gaza“. Mais de 70 países apoiaram ação da África do Sul. Outros países que, por razões políticas, não apoiaram a tese do genocídio, naquele momento, pediram que Israel realizasse cessar-fogo, o que não aconteceu.
Ademais, Lula não usou o termo “holocausto”. Disse o presidente “(…) quando Hitler resolveu matar os judeus”. Ora, mas não é a mesma coisa? Não, e vou explicar. Quando Hitler começou a perseguir o povo judeu – assim como negros, pessoas com deficiência, homossexuais e ciganos – não havia 6 milhões de mortos. Não havia campos de concentração, nem câmaras de gás. Todos os horrores perpetrados por Hitler foram se intensificando ao longo do tempo, até que se chegou à marca de 6 milhões de mortos. E o mundo, com a tal “política de Apaziguamento”, havia perdido qualquer possibilidade de reverter os crimes do regime nazista. Lula apenas chamou a atenção para o óbvio: com a escalada da tensão, com os assassinatos de 30 mil palestinos inocentes, com a destruição da infraestrutura de Gaza e com a proibição de ajuda humanitária, além das falas criminosas do alto escalão do governo israelense – como a ideia de se construírem ilhas artificiais para servirem de depósito de palestinos – o mundo corre o risco de perder o controle sobre a situação, fazendo com que o número de mortos e as atrocidades alcancem os níveis tenebrosos do período que hoje conhecemos como holocausto. O fato é que o presidente Lula usou uma fala para chamar a atenção mundial, na tentativa de salvar vidas humanas. E parece que conseguiu. É o que veremos no nosso próximo post.