ISRAEL X HAMAS E A GUERRA DA DESINFORMAÇÃO (Parte 1)

Cris Couto

No dia 7/10, o grupo radical Hamas, que controla a Faixa de Gaza, bombardeou Israel, em um ataque terrorista, deixando centenas de mortos e capturando reféns. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou guerra e afirmou que os PALESTINOS pagariam um preço alto pelo ataque e que a resposta de Israel a Gaza “mudará o oriente médio”. Milhares de palestinos já foram mortos e a guerra está longe de ter um fim. Os conflitos nessa região existem há mais de 70 anos. Tentar explicar qualquer ofensiva armada analisando apenas o que aconteceu em outubro de 2023 é, no mínimo, tentar reproduzir desconhecimentos fáticos e históricos. O presente artigo não tem a intenção de justificar o conflito, nem nenhuma morte. Também não há a intenção de torcer por Israel ou pela Palestina, pois não se trata de uma partida de futebol e sim de vidas humanas que correm risco. Mas iremos tentar explicar as razões pelas quais essa guerra é perigosa não só para a região, mas para o mundo.

Antes de qualquer outra ponderação, é preciso afirmar que o HAMAS é um GRUPO TERRORISTA que praticou crime de guerra contra Israel. No entanto, deve-se esclarecer que o exército israelense, sob o comando de Benjamin Netanyahu, está cometendo crime de guerra e crime contra a humanidade em relação ao povo palestino que nada tem a ver com os atos do Hamas. Aliás, é preciso ainda deixar claro que o primeiro-ministro israelense já flertou, em vários momentos, com o Hamas: Netanyahu apoiava o HAMAS, grupo terrorista, a fim de diminuir a força do Fatah, partido político que visa, por meio da política, alcançar a paz na região e direitos palestinos respeitados. É óbvio que nada disso justifica o ATAQUE TERRORISTA praticado pelo Hamas. Porém, algumas informações são necessárias para que se possa entender que esse conflito ultrapassa a região do Oriente Médio.

Em um recorte histórico muito singelo, pode-se afirmar que o conflito entre Palestina e Israel começou por volta de 1948. Nessa data, quem ocupava tudo o que hoje se compreende ser Israel, Cisjordania e Faixa de Gaza era o povo palestino. Os israelenses começaram a migrar em grande medida para essas terras, reivindicando um território para “chamar de seu”, justificando a propriedade por meio de textos bíblicos. A maioria dos países, compadecida com os horrores vividos pelos judeus, na Segunda Guerra Mundial, apoiou a causa israelense. A Organização das Nações Unidas (ONU), por sua vez, dividiu o território: a partir da Resolução 181, a divisão do território da Palestina foi aprovada. Assim, 53,5% do território foi designado para ser Israel e 45,4% das terras seriam domínio dos palestinos. Os judeus ficariam com a maior parte do território, mesmo tendo apenas 30% da população. O povo palestino não aceitou pacificamente a partilha e muitas guerras foram travadas desde então. No entanto, um fato deve ser lembrado: os EUA sempre apoiaram Israel que, portanto, sempre dispôs de maior poderio bélico. Israel foi, devido aos conflitos, angariando cada vez mais território. Atualmente, os palestinos NÃO possuem sequer um Estado Nacional, nem têm seus territórios delimitados. O povo palestino vive em duas regiões: 1- Faixa de Gaza – controlada pelo Hamas; 2- Cisplatina – governada pela Autoridade Palestina. No mapa abaixo, em verde, pode-se compreender o espaço territorial que pertencia à Palestina, em 1946, e o que hoje é destinado ao povo palestino.

Estudiosos, cientistas políticos e ativistas afirmam que os palestinos que residem na Faixa de Gaza vivem, na verdade, no maior CAMPO DE CONCENTRAÇÃO a céu aberto do mundo. E isso antes da atual guerra. Há 16 anos, 2,3 milhões de palestinos vivem sob o bloqueio de Israel que controla até as horas em que eles poderão usar energia elétrica. O mundo faz de conta que não vê. O ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, afirmou que a Faixa de Gaza é “a maior prisão do mundo a céu aberto”. Esses fatos são geradores de todos os conflitos sanguinários na região e, sem dúvida alguma, podem gerar um conflito mundial. Ah, então isso justifica o atentado do dia 7 de outubro? NÃO!!! Nada justifica um atentado terrorista e a morte de civis inocentes. Mas se quisermos a construção de paz, temos que compreender a origem do conflito para que alguma solução diplomática possa ser construída. O secretário-geral da ONU, Antonio Guterrez, afirmou que não há solução para o conflito entre Palestina e Israel senão a coexistência de dois Estados, com Jerusalém como a capital compartilhada de ambos, já que tal cidade é muito importante para ambos os povos. O representante dos EUA e o representante de Israel não concordam.

Após o ataque terrorista do Hamas, o primeiro-ministro de Israel deu algumas declarações polêmicas. Chegou a afirmar “que os PALESTINOS pagariam um preço alto pelo ataque e que a resposta de Israel a Gaza mudará o oriente médio”. Ora, os palestinos NÃO SÃO O HAMAS! Netanyahu disse ainda que “Vamos transformar Gaza numa ilha deserta. Aos cidadãos de Gaza, eu digo: vocês devem partir agora. Iremos atacar todos e cada um dos cantos da Faixa”. Mas o problema é: partir para onde? Não há para onde os palestinos irem e o primeiro-ministro de Israel sabe disso. Mesmo porque, para qualquer pessoa entrar ou sair de Gaza precisa de autorização de Israel. Yoav Gallant, ministro da Defesa de Tel Aviv (Israel), com uma declaração incontestavelmente racista, qualificou palestinos como ‘animais humanos’ para justificar bloqueio total de energia, água, remédios e alimentos à cidade. Bloqueios assim são também uma forma de matar civis inocentes! Atualmente, há cirurgias sendo feitas em hospitais na Faixa de Gaza SEM ANESTESIA. Crianças são operadas sem sedação por falta de anestésicos na Faixa de Gaza. Isso é DESUMANO!!! James Elder, porta-voz da UNICEF, declarou que “Gaza tornou-se em um cemitério para milhares de crianças e adolescentes”.

Diante do ataque terrorista feito pelo Hamas, é claro que Israel tem direito de se defender e de desmantelar o grupo terrorista. Porém, algumas coisas devem ser esclarecidas: 1-) O povo palestino NÃO se confunde com o Hamas, como Netanyahu tentou dizer ao afirmar que os palestinos pagarão alto preço. Dizer que todo palestino faz parte do Hamas é o mesmo que afirmar que todo morador de periferia ou do morro carioca é traficante ou miliciano, que todo homem é machista ou que todo ser humano gosta de carne; 2-) o Direito Internacional previu que, infelizmente, guerras nem sempre seriam evitadas e normatizou o Direito de Guerra, sempre na tentativa de proteger civis. Israel, no entanto, não vem respeitando normas internacionais e, por isso, civis inocentes estão sendo assassinados. Israel desrespeita o Direito Humanitário, os Direitos Humanos e o Direito de Guerra. Infelizmente, parte da mídia ocidental, continua a tratar o conflito bélico e o genocídio que está acontecendo na Faixa de Gaza, no presente momento, como se fosse um jogo de futebol. Não! São vidas humanas que estão sendo dizimadas. NÃO SE PODE ESCOLHER UM LADO, SALVO O DE PROTEGER VIDAS, INDEPENDENTEMENTE DA NACIONALIDADE. E, para tanto, é preciso ter inteligência e estratégia.

Logo após o ataque de Hamas, no dia 7/10, o presidente Lula, de imediato, disse: “Fiquei chocado com os ATAQUES TERRORISTAS realizados hoje contra civis em Israel, que causaram numerosas vítimas. Ao expressar minhas condolências aos familiares das vítimas, reafirmo meu REPÚDIO AO TERRORISMO em qualquer de suas formas. O Brasil não poupará esforços para evitar a escalada do conflito, inclusive no exercício da Presidência do Conselho de Segurança da ONU. Conclamo a comunidade internacional a trabalhar para que se retomem imediatamente negociações que conduzam a uma solução ao conflito que garanta a existência de um Estado Palestino economicamente viável, convivendo pacificamente com Israel dentro de fronteiras seguras para ambos os lados”.  Parte considerável da imprensa brasileira, no entanto, começou a dizer que o presidente Lula sequer repudiou o ataque terrorista e, como vimos, isso é MENTIRA. Pouco depois, o Itamaraty também soltou uma nota oficial que repudiou os ataques terroristas. A imprensa voltou a criticar por “não haver repúdio ao grupo terrorista”. Mentira, pois, como pode ser visto na nota presidencial, houve o repúdio imediato por parte do governo brasileiro. Ah, mas Lula não citou o Hamas! Vamos pensar um pouco? A partir do momento em que o presidente Lula diz expressamente que repudia o ataque terrorista ocorrido em Israel e quem praticou referido ataque foi Hamas, o que fez o presidente? Repudiou os atos do Hamas. Não precisa ser muito esperto para entender isso. No dia 20/10, o presidente Lula soltou outra nota onde, novamente, repeliu os ataques terroristas. A imprensa teve a capacidade de dizer que “pela primeira vez o presidente diz que houve ataque terrorista”. Inacreditável!

A imprensa brasileira, mais preocupada com as palavras do presidente Lula do que com as vidas que estão sendo ceifadas no Oriente Médio, não entende o motivo pelo qual Lula e o Itamaraty não diziam com todas as letras que Hamas é um grupo terrorista, muito embora, como já destacado, de forma indireta, isso foi dito, pois quem comete ataque terrorista, terrorista é. Há três motivos pelos quais a diplomacia brasileira evita usar o termo “grupo terrorista”: 1-)  segundo a tradição da política externa brasileira (PEB), o Brasil só considera “grupos terroristas” aqueles que a ONU, mais precisamente o Conselho de Segurança da ONU (CSNU), classifica como tais. O Brasil sempre seguiu a classificação da ONU e não tem razão de mudar isso. E, até o presente momento, a ONU não considera o Hamas um grupo terrorista; 2-) Havia e, infelizmente, ainda há alguns brasileiros na região. O Brasil está se esforçando para retirar os nacionais da zona de conflito. Nas tratativas para retirar tais brasileiros e trazê-los com segurança para o Brasil, por vezes, a diplomacia brasileira tem que conversar com as partes envolvidas na guerra. Não é nem um pouco inteligente afrontar, nesse momento, os terroristas do Hamas; 3-) o Brasil tinha acabado de assumir a presidência rotativa do Conselho de Segurança da ONU e estava tentando construir um caminho para a paz e o imediato cessar-fogo. Qualquer classificação ou palavra errada do presidente Lula, naquele momento, retiraria a isenção necessária para o trabalho a ser executado na aprovação de uma Resolução que visava apenas salvar vidas.

A operação “Voltando em Paz”, lançada pelo governo federal para resgatar brasileiros que estavam na zona de conflito, chamou a atenção da comunidade internacional, sendo elogiada pela rapidez e eficiência. O governo não mediu esforços para repatriar brasileiros que estavam em Israel, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. O Brasil foi o primeiro país do mundo que se mobilizou para resgatar seus cidadãos. O presidente Lula vem se engajando pessoalmente nas negociações, a fim de conseguir maior segurança e agilidade no resgate. Historicamente, a diplomacia brasileira se destaca por sua ênfase no diálogo, o que facilitou os trâmites para a realização desses voos de resgate. Corrobore-se que se trata de um resgate em meio a uma guerra. Ainda há brasileiros na zona de conflito e, alguns, sequestrados pelo Hamas. Diante dessas informações, pergunto: o que é mais importante, negociar e salvar a vida dos brasileiros ou, apenas para saciar a vontade de parte da mídia, falar que o Hamas é um grupo terrorista? No entanto, cabe destacar, novamente, que o presidente Lula disse sim que se tratava de ataque terrorista e, desde o dia do ataque, repudiou todo ato de violência. A operação foi tão bem articulada que até os animais de estimação dos brasileiros puderam vir para o Brasil. O presidente Lula colocou à disposição até o avião presidencial para agilizar o resgate. Países do entorno do Brasil pediram ajuda ao presidente brasileiro para regatar seus nacionais e Lula afirmou que, após todos os brasileiros estarem em segurança, iria ajudar a repatriação de todos os nossos vizinhos. Destaque-se, ainda, que toda essa repatriação foi sem nenhum custo aos brasileiros, diferentemente do que ocorreu com os EUA e com o Reino Unido que só fizeram o resgate de seus nacionais mediante o pagamento de um valor considerável.

No próximo post, iremos mostrar que o presidente Lula, assim como a maior parte dos líderes mundiais, repudiam corretamente as ações do exército de Israel que, por sua vez, comete crime de guerra e crime contra a humanidade.

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