Cris Couto
É certo que os anos de 2020 e 2021 foram assolados por duas crises associadas: a crise pandêmica e a crise econômica! Como vimos, a economia no país já não estava boa, mas piorou com as dificuldades trazidas com a paralisação das atividades econômicas devido à pandemia. Os brasileiros viram os preços dos alimentos subirem de forma acelerada e, para piorar a situação, a renda das famílias diminuiu e o desemprego aumentou. A crise afetou desproporcionalmente os mais pobres. Isso porque, embora o valor nominal dos produtos seja o mesmo para todos os consumidores, o impacto da inflação varia para cada família! Em um ano de pandemia, a inflação sentida pelas famílias brasileiras mais pobres foi de 6,75%. Essa taxa representa o dobro do impacto para as famílias mais ricas, de 3,43% no mesmo período, segundo os dados do indicador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) de inflação por faixa de renda. E o resultado disso é a fome, o aumento do número de pessoas morando nas ruas, a evasão escolar dentre outras tragédias. E o que fez Bolsonaro diante dessa situação? NADA! É certo que o governo federal ofereceu um auxílio emergencial às pessoas de baixa renda. Mas, na verdade, esse auxílio somente foi possível graças à atuação do Congresso Nacional. Após o término das parcelas previstas no ano de 2020, o governo federal demorou TRÊS MESES na revalidação do auxílio e, quando decidiu voltar a pagar, diminuiu os valores – de R$ 600 reais para R$150 ou, em alguns casos, R$ 375. São valores obviamente insuficiente para contornar os impactos da pandemia de covid-19 na vida do cidadão brasileiro que perdeu seus meios de subsistência. Centenas de milhares de famílias enfrentam a fome e o medo da morte pelo coronavírus. Quando questionado, o presidente tenta transferir sua responsabilidade dizendo que a situação no país é devido às medidas de isolamento social impostas em alguns casos por prefeitos e governadores. HIPOCRISIA, IRRESPONSABILIDADE E FALTA DE HUMANIDADE!!!
Jair Bolsonaro nunca foi um admirador da democracia. Pelo contrário, o presidente jamais escondeu seu SAUDOSISMO pela DITADURA MILITAR, seja participando de atos pró-ditadura; militarizando as estruturas ministeriais; agindo como ditador ao, constantemente, perseguir e desqualificar a imprensa livre e ofender e humilhar jornalistas; louvando o AI-5 (o ato institucional mais opressor do período militar) ou homenageando publicamente conhecidos torturadores. Quem não se lembra quando, na votação do impeachment da então presidente Dilma Roussef, em 2016, Bolsonaro, ao anunciar seu voto no Plenário, bradou: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff“. Em abril de 2020, em meio à pandemia, Bolsonaro, que foi eleito democraticamente, participou de uma manifestação pró-intervenção militar, em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília. Mas essa não foi a única vez em que o presidente, durante a crise pandêmica, promoveu aglomerações com fins anti-democráticos. Em maio de 2020, o “mito” participou de um ato promovido por seus apoiadores, em Brasília, para atacar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Na ocasião, Bolsonaro disse que não vai mais admitir “interferência” e que tem o povo e as Forças Armadas ao seu lado. No pior momento da pandemia, em maio de 2021, Bolsonaro promoveu uma “motociata” no Rio de Janeiro e, juntamente com seu ex-ministro da Saúde, o General Eduardo Pazuello, discursou e atacou a democracia. Estes foram apenas alguns exemplos de iniciativas anti-democráticas do presidente, pois durante seu governo, inúmeros foram os ataques à democracia, além de sempre ameaçar as instituições, tentando demonstrar que as Forças Armadas estão do seu lado e prontas para um golpe! Como se pode observar, mais uma vez, a pandemia foi boa para o presidente. Isso pelo fato de que, nesse período, Bolsonaro pode estimular o sentimento de raiva, ódio ou medo das pessoas, na tentativa de conseguir mais apoio para seu PROJETO GOLPISTA!
Convém ainda ressaltar que o LADO NADA DEMOCRÁTICO de Bolsonaro nunca foi sequer disfarçado. Não se pode dizer que seja novidade! Vale lembrar, assim, alguns conhecidos posicionamentos do presidente, muitos deles reiterados recentemente. Quando questionado se, no caso de ser presidente da República, fecharia o Congresso Nacional, Bolsonaro respondeu que “Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia, no mesmo dia. Não funciona! E tenho certeza que pelo menos 90% da população ia fazer festa e bater palma, porque não funciona. O Congresso, hoje em dia, não serve pra nada, xará. Só vota o que o presidente quer. Se ele é a pessoa que decide, que manda, que tripudia em cima do Congresso, dê logo o golpe, pô. Parte logo pra Ditadura!(23/05/1999)”; “Pau de arara funciona! Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso. E o povo é favorável também (23/05/1999)”; “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre! Já que eles gostam da Venezuela, essa turma tem que ir pra lá (01/09/2018)”; “Violência se combate com violência (20/03/2017)”; “Eu sou liberal. Se eu quero empregar na minha empresa você ganhando R$2.000,00 por mês e D. Maria ganhando R$ 1.500,00 , se a D. Maria não quiser isso, que procure outro emprego. O patrão sou eu! (09/12/2014)”; “Orgulho (da história de vida do Hitler) não tenho, né? O que você tem que entender é o seguinte: guerra é guerra! Ele foi um grande estrategista! (26/03/2012)”; “Já (dei uns sopapos em uma mulher). Era garoto no Eldorado. Uma menina que forçou a barra pra cima de mim (26/03/2012); “Eu vou dar carta branca para a polícia matar (08/10/2017)”; “Vamos acabar com o coitadismo de nordestino, gay, negro e mulher (23/10/2018)”; “ATRAVÉS DO VOTO, VOCÊ NÃO VAI MUDAR NADA NESSE PAÍS. NADA! ABSOLUTAMENTE NADA! SÓ VAI MUDAR, INFELIZMENTE, QUANDO UM DIA NÓS PARTIRMOS PARA UMA GUERRA CIVIL AQUI DENTRO, E FAZENDO O TRABALHO QUE O REGIME MILITAR NÃO FEZ: MATANDO UNS 30 MIL, COMEÇANDO COM O FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, NÃO DEIXAR PRA FORA, NÃO. MATANDO! SE VAI MORRER ALGUNS INOCENTES, TUDO BEM, TUDO QUANTO É GUERRA MORRE INOCENTE (23//05/1999)”.
Sentindo-se acuado pela CPI da covid-19 e pelas pesquisas de intenção de voto, Bolsonaro começou a construir uma narrativa de que é necessário o VOTO IMPRESSO. Essa é uma estratégia do presidente para tentar deslegitimar a eleição de 2022, caso seja derrotado nas urnas! Bolsonaro, como fiel seguidor de Donald Trump, fez a “lição de casa” e, assim como seu ídolo, tenta antecipar qualquer resultado não favorável a ele, atacando a credibilidade do processo eleitoral, e, dessa forma, angariando apoiadores para um eventual golpe! Mas o mais engraçado é que o presidente questiona a urna eletrônica, mecanismo pelo qual ele próprio foi eleito! É claro que esta é mais uma narrativa, mais uma “cortina de fumaça” de Jair Bolsonaro. Não resta dúvidas de que as urnas eletrônicas são seguras. O presidente está apenas implantando dúvidas na cabeça da população para fortalecer seu movimento golpista, caso perca as eleições. É uma tentativa frágil de se questionar as eleições antecipadamente.
Bolsonaro não agiu eficazmente para combater a pandemia por uma razão simples: o covid-19 agilizou e auxiliou, de certa forma, os projetos do presidente. O vírus matou centenas de milhares de brasileiros (mas, não tem problema, porque “em toda guerra morre uns inocentes”, né?); diminuiu o número de estudantes que pensavam em fazer faculdade (mas isso não é problema, já que “ter diploma é tara da garotada”); distraiu a opinião pública abrindo espaço para a destruição do meio ambiente (a boiada passou sem nenhuma resistência); foi a desculpa perfeita para que o governo não fosse crucificado pela péssima condução da economia e, principalmente, fez com que a sociedade ficasse ainda mais dividida. E é nisso que Bolsonaro se apega. Explico. Ficou claro que o presidente nunca teve e jamais terá projetos para o país. Para tentar se reeleger, o ideal é fomentar o ódio de parte da população pela esquerda e apresentar-se como um líder injustiçado! Aí entra a RETÓRICA – quase anedótica – do presidente, que insiste ter agido corretamente no combate à pandemia, que não teve sucesso porque STF o teria proibido de tomar medidas, que os governadores e prefeitos destruíram a economia, que a cloroquina era eficaz, e que quiseram abafar isso apenas para destruir seu governo!!! Com o crescente número de pessoas mortas ou infectadas, essa retórica vai ficando cada vez mais fragilizada. Verificado isso, o presidente trouxe mais um fator à baila: o voto impresso! Bolsonaro está com seu plano de GOLPE TOTALMENTE ARQUITETADO. Há ainda muitas pessoas que apoiam o presidente. Para que a democracia resista a esse golpe, temos que esquecer as diferenças, que fazem parte do jogo democrático, momentaneamente, e buscar a união entre partidos e lideranças políticas. Caso contrário, corremos sério risco de enfrentar em um futuro breve novos “anos de chumbo”!