Cris Couto
Dando continuidade à série de posts dedicados à política ambiental do governo Bolsonaro, hoje analisaremos a repercussão do discurso do presidente na Cúpula do Clima.
Entre 22 e 23 de abril, ocorreu a Cúpula de Líderes sobre o Clima, evento organizado pelo presidente dos EUA, Joe Biden, com o objetivo de incentivar os países a estabelecerem novas metas de redução de emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa e outras políticas de combate às mudanças climáticas. É de se ressaltar que Biden sempre mostrou seu compromisso com o meio ambiente. Durante a Cúpula, quarenta líderes mundiais expuseram suas metas. O presidente americano, por exemplo, disse ter um plano para cortar em 50% as emissões de gases de efeito estufa até 2030. Xi Jinping, presidente da China, afirmou que o país vai limitar o consumo de carvão mineral como fonte de energia até 2025 e eliminar completamente essa fonte até 2030. Angela Merkel, chanceler alemã, afirmou que a Alemanha, assim como outros países da Europa, usa como parâmetro as emissões do ano de 1990. Disse, ainda, que seu país pretende reduzir em 55% as emissões até 2030 e que dobrou seu financiamento à economia sustentável. E o presidente brasileiro? Bom, Bolsonaro fez um discurso que, sinceramente, não enganou e não convenceu ninguém!
O discurso de Jair Bolsonaro na Cúpula de Líderes foi, no mínimo, pífio. Pressionado globalmente para reduzir o desmatamento da Amazônia, o presidente brasileiro adotou uma ESTRATÉGIA NADA CONVINCENTE, além de VEXATÓRIA: usou um tom sereno – apesar de estar nitidamente irritado – para se comprometer a zerar até 2030 o desmatamento ilegal, reduzir as emissões e buscar neutralidade climática até 2050 (uma antecipação de dez anos do prazo anteriormente assumido pelo Brasil). Além disso, Bolsonaro RESOLVEU COBRAR APOIO FINANCEIRO DOS PAÍSES RICOS para as ações de preservação ambiental no território brasileiro. Mas não foi justamente o presidente que, há menos de dois anos, desfez da ajuda bilionária da Alemanha e da Noruega ao Fundo Amazônia? Agora está tentando obter novamente os recursos que o Brasil deixou de receber, devido à incompetência e às falas desrespeitosas e debochadas de Bolsonaro! Mas não para por aí. O presidente disse em seu discurso que “(…) o Brasil está na vanguarda do enfrentamento ao aquecimento global.” Essa declaração é mentirosa, pois o plano de ações contra as mudanças climáticas do Brasil de Bolsonaro é considerado altamente insuficiente por cientistas e órgãos de monitoramento. Além disso, o Brasil revisou para baixo suas metas de redução de emissões de poluentes que haviam sido assumidas no âmbito do Acordo de Paris. Bolsonaro ainda afirmou que “O Brasil participou com menos de 1% das emissões históricas de gases de efeito estufa”, o que também é falso, pois segundo foi verificado pelo site “Aos Fatos”, informações do Climate Watch, que reúne dados da UNFCC (Convenção da ONU sobre a Mudança do Clima), o Brasil foi responsável por 1,7% da emissões de gases causadores do efeito estufa (gás carbônico, metano, óxido nitroso e gases fluoretados) de 1850 a 2018. Essa série histórica não inclui a emissão de gases por atividades agrícolas, dado que começou a ser coletado a partir de 1990. Ao considerar esse dado, 4,3% das emissões de gases de efeito estufa no mundo entre 1990 e 2018 foram causadas pelo Brasil. O dado citado por Bolsonaro corresponde à participação do Brasil apenas na emissão de gás carbônico. Segundo o portal Our World in Data, o país foi responsável por 0,9% das emissões de gás carbônico registradas entre 1751 e 2017. Mas a parte mais mentirosa do discurso foi quando o presidente disse: “reitero o compromisso do Brasil e de meu governo com os esforços internacionais de proteção ao meio ambiente, combate à mudança do clima e promoção do desenvolvimento sustentável.” Sério, até o presente momento, não sei se a gente ri ou chora diante dessa afirmação, pois, como se sabe, Bolsonaro sempre atuou com vistas ao desmonte dos órgãos ambientais e das regras de preservação ambiental, colocando em risco o patrimônio ecológico de todos os brasileiros.
Há uma parte do discurso de Bolsonaro que merece, no entanto, destaque especial, devido à “cara de pau” do presidente. Explico. Na Cúpula do Clima, Bolsonaro afirmou, com a maior desfaçatez, que, “Apesar das limitações orçamentárias do Governo, determinei o fortalecimento dos órgãos ambientais, duplicando os recursos destinados às ações de fiscalização.” A informação já era FALSA no dia 22 de abril, data do pronunciamento do presidente, haja vista que os recursos de órgãos federais para fiscalização e combate ao desmatamento e incêndios florestais sofreram cortes e estão no menor patamar dos últimos cinco anos, conforme a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo). No entanto, apenas um dia depois de o presidente prometer à 40 líderes mundiais que iria dobrar os repasses públicos para as áreas de fiscalização ambiental, Bolsonaro anunciou um corte de R$ 240 milhões no orçamento geral dedicado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA)! Tudo bem que o presidente não parece ser uma pessoa muito inteligente, mas acredito que saiba que dobrar (multiplicar) é diferente de cortar (subtrair). A questão é: como o Brasil conseguirá transmitir credibilidade ao mundo com ações tão irresponsáveis e, por vezes, criminosas, do governo federal?
É bem verdade que, no discurso de Bolsonaro, houve menção a dados e ações de proteção ambiental no Brasil que são reais e que transmitem a imagem de um país que verdadeiramente se importa com o meio ambiente. Todavia, TODAS AS AÇÕES POSITIVAS MENCIONADA FORAM REALIZADAS EM GOVERNOS ANTERIORES, e Bolsonaro, desde o primeiro dia de sua gestão, tem-se esforçado para revertê-las e para destruir o legado de proteção ambiental arduamente construído no Brasil ao longo de anos!!!
É muito triste ver que a IMAGEM INTERNACIONAL do Brasil está sendo DESPRESTIGIADA a cada dia, nas mais diferentes pautas. O Brasil, que já foi visto como um exemplo e um líder na questão ambiental, possui hoje um presidente e um ministro do Meio Ambiente que são reconhecidos como “VILÕES AMBIENTAIS”. E isso acarretará sérios e, talvez, irreversíveis prejuízos para o Brasil, suas empresas, suas exportações, seus investimentos, infelizmente! Bolsonaro, contudo, deve ser visto como uma pessoa coerente com suas pautas, apesar de “suas pautas” serem, por vezes, desastrosas e até criminosas. O presidente está apenas cumprindo o que sempre prometeu durante a campanha presidencial de 2018. Bolsonaro nunca escondeu sua predileção pelo AGRONEGÓCIO RETRÓGRADO, NÃO SUSTENTÁVEL, e o fato de não se importar com políticas ambientais. Nunca ocultou seu desprezo às comunidades indígenas e quilombolas. O mais próximo que Bolsonaro e seus apoiadores chegaram de demonstrar algum interesse pelo meio ambiente foram nas seguintes ocasiões: quando o presidente ofereceu cloroquina à uma ema no Palácio da Alvorada; quando Onyx Lorenzoni disse que o lockdown não funcionaria porque o passarinho, o cão de rua, o gato, o rato, a pulga, a formiga e os insetos se locomovem pelas cidades; quando o secretário de pesca, em live com o presidente, disse que “peixe é um ‘bicho’ inteligente e foge da manta de óleo” [por ocasião do derramamento de petróleo no litoral do Nordeste]; e quando Bolsonaro disse que mergulhou de máscara no mar para “não pegar covid nos peixinhos”. Momento de descontração! Mas voltando à triste realidade, Bolsonaro já fez passar muitas pautas negativas para desconstruir a política ambiental de nosso país e há, ainda, muitas outras iniciativas em andamento. A BOIADA DE BOLSONARO NÃO TEM LIMITES, e o custo disso dessa política criminosa imporá severos prejuízos para o mundo e, em especial, para o Brasil.