Cris Couto
Dando continuidade à série de posts dedicados à política ambiental do governo Bolsonaro, hoje analisaremos mais algumas atitudes desastrosas e que repercutiram negativamente no âmbito internacional.
Dentre as ações inconsequentes de Jair Bolsonaro, no que se refere à pauta ambiental, merece destaque a INTERRUPÇÃO DO BILIONÁRIO FUNDO AMAZÔNIA, que financiava mais de uma centena de projetos de proteção da floresta e seus povos, mas que teve os recursos suspensos pelas fontes doadoras – Noruega e Alemanha – devido ao AUMENTO DO DESMATAMENTO e à EXTINÇÃO DOS CONSELHOS QUE FAZIAM A GESTÃO DOS RECURSOS. A Alemanha deixou de investir mais de 155 milhões de reais que eram destinados à preservação da Floresta Amazônica. Bolsonaro disse que resolveu paralisar as ações do fundo, porque encontrou irregularidades na condução do programa. Como é do seu feitio, o presidente ALEGOU, mas NÃO PROVOU a existência de nenhuma irregularidade! Ficou a impressão de que o governo federal queria paralisar as ações ambientais para transferir o dinheiro do Fundo Amazônia para outros projetos, até então desconhecidos e quiçá escusos, mas, como não foi possível, pois os países doadores fiscalizavam as ações do Fundo, o presidente resolveu desacreditar o programa ambiental.
Assim, iniciou-se mais um episódio de desgaste provocado pelo mandatário brasileiro, que contribuiu e muito para a CORROSÃO DA IMAGEM do Brasil no exterior! Bolsonaro, nitidamente consternado, disse que a Alemanha “não vai mais comprar a Amazônia, não vai deixar de comprar a prestação a Amazônia. Pode fazer bom uso dessa ‘grana’. O Brasil não precisa disso”. Inacreditável a ignorância do presidente do Brasil! Ninguém está querendo comprar a Amazônia, até porque ela não está à venda! O que alguns países querem é preservar a floresta! Por que são bonzinhos? Aqui não se trata de benevolência ou de maldade. O que está em jogo é a SOBREVIVÊNCIA DO NOSSO PLANETA! Os impactos ambientais causados pela destruição da floresta são TRANSFRONTEIRIÇOS! No que tange às questões ambientais, há uma evidente INTERDEPENDÊNCIA GLOBAL, já que os problemas gerados em um país afetam ou podem afetar diretamente os demais países. A questão ambiental é sim globalizada! Ademais, não se pode esquecer que, no âmbito do Acordo de Paris, as metas assumidas voluntariamente pelo Brasil requerem, entre outras ações, o combate ao desmatamento, que é uma das principais fontes das emissões brasileiras de gases causadores do efeito estufa.
E foi, portanto, com o intuito de preservação que houve a criação de um fundo para que a Amazônia, maior floresta tropical do mundo, fosse preservada. A chanceler alemã, Angela Merkel, em meio a todo esse impasse político, afirmou que “vê com grande preocupação as ações de Bolsonaro sobre o desmatamento no país”. Por sua vez, Bolsonaro, de forma nada sensata, muito menos diplomática, rebateu Merkel, afirmando que “Temos exemplo para dar à Alemanha, inclusive sobre meio ambiente. A indústria deles continua sendo fóssil, em grande parte de carvão, e a nossa não. Eles têm a aprender muito conosco”. A Embaixada da Alemanha, em resposta ao presidente brasileiro, publicou um vídeo que mostra como são preservadas as florestas alemãs. A Noruega também decidiu suspender a verba para o Fundo Amazônia, no valor equivalente a 132 milhões de reais, porque o governo brasileiro começou a contestar os dados de desmatamento apurados e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), atacando a credibilidade de um dos institutos mais respeitados do mundo. As mudanças na política ambiental promovidas por Bolsonaro também alarmaram a Noruega. O mandatário brasileiro comentou: “Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós. Pega a grana e ajuda a [chanceler alemã] Angela Merkel a reflorestar a Alemanha”. Mais uma vez, o presidente foi grosseiro, ocasionou mais um mal estar internacional totalmente desnecessário e, o que é pior, rechaçou uma valiosa ajuda financeira internacional que poderia estar sendo usada para proteger a Amazônia da destruição!
É incontestável que Bolsonaro desdenhou das doações que compunham o Fundo Amazônia! Porém, pouco tempo depois, tanto o presidente, como seu ministro do Meio Ambiente, começaram a pedir ajuda financeira internacional para ações brasileiras de proteção do meio ambiente. O governo federal começou levantar a tese de que as nações desenvolvidas, que são as maiores responsáveis pela emissão de carbono e pelo aquecimento global, devem contribuir com a proteção da Floresta Amazônica. Contraditório? Totalmente! Explico: é verdade que a política ambiental brasileira sempre defendeu a tese das “Responsabilidades comuns, porém diferenciadas” – princípio consagrado na Rio 92, que determina que os países desenvolvidos devem arcar com custos maiores para financiar o desenvolvimento sustentável. Porém, a contradição do discurso do presidente não está no pedido de auxílio internacional, mas sim no fato de ter DISPENSADO O FINANCIAMENTO QUE O BRASIL JÁ POSSUÍA, alegando que “o Brasil não precisa desse dinheiro” ou que “a Amazônia não está à venda”. Pedir FINANCIAMENTO INTERNACIONAL, tentando demonstrar a necessidade de tais recursos, como se nunca tivesse recebido nenhuma espécie de auxílio externo para a preservação da Amazônia, é, no mínimo, uma contradição constrangedora.
Na tentativa de conseguir o referido financiamento internacional, o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, chegou a dizer que o Brasil precisa de cerca de 10 bilhões de dólares por ano em investimentos estrangeiros para poder antecipar para 2050 a meta de alcançar uma economia neutra em emissões de carbono, anteriormente prevista para 2060. Além disso, em uma carta enviada ao presidente americano, Joe Biden, o presidente Bolsonaro expôs a meta brasileira de zerar o desmatamento ilegal até 2030 e apresentou o objetivo de atingir uma economia neutra em emissão de carbono até 2060. Para quem não precisava de ajuda externa, o governo federal está se empenhando demais para consegui-la, não é? Ademais, não se pode esquecer que, quando candidato, Biden mostrou grande preocupação na preservação da Amazônia, sugerindo a possibilidade de doar recursos ao Brasil para esse fim ou, até mesmo, impor sanções ao país, caso o desmatamento continuasse aumentando. Bolsonaro, por sua vez, que nunca escondeu sua predileção por Donald Trump, não gostou nada do pronunciamento de Biden. O mandatário brasileiro disse: “O candidato à presidência dos EUA, Joe Biden, disse ontem que poderia nos pagar U$ 20 bilhões para pararmos de ‘destruir’ a Amazônia ou nos imporia sérias restrições econômicas. O que alguns ainda não entenderam é que o Brasil mudou. Hoje, seu Presidente, diferentemente da esquerda, não mais aceita subornos, criminosas demarcações ou infundadas ameaças. NOSSA SOBERANIA É INEGOCIÁVEL“. Ué, presidente, então agora o senhor passou a aceitar “subornos”? Ah, na verdade o senhor passou a aceitar somente meio suborno, pois está pleiteando 10 bilhões, quando Biden já havia oferecido 20 bilhões, né? Quanta hipocrisia e quanta ignorância!!! Aceitar financiamentos de outros países para a pauta ambiental não é, nem nunca foi, suborno, nem põe em risco a soberania nacional. É claro que o mandatário brasileiro sabe disso – ou deveria saber. Na verdade, Bolsonaro apenas se pronunciou assim para agradar seu ídolo Trump, que foi derrotado nas urnas americanas. Mas as agressões contra o presidente Biden, por parte de Bolsonaro, não pararam por aí. O presidente brasileiro disse, em um evento no Palácio do Planalto, que “Assistimos, há pouco, um grande candidato a chefia de Estado dizendo que se eu não apagar o fogo da Amazônia ele vai levantar barreiras comerciais contra o Brasil. Como é que nós vamos fazer frente a tudo isso? Apenas pela diplomacia não dá. Depois que acabar a saliva, tem que ter pólvora. Não precisa nem usar a pólvora, tem que saber que tem“. Com ações como esta, por parte do governo federal, fica cada dia mais DETERIORADA IMAGEM DO BRASIL NO CENÁRIO INTERNACIONAL!
Mas o fato é que, após dois anos de gestão Bolsonaro-Salles, houve notório avanço do desmatamento da Amazônia, além do agravamento de outros problemas ambientais em nosso país. Será que os EUA, assim como os demais países ricos estarão dispostos a assinar um “cheque em branco” para o governo brasileiro? Acredito que não. Após tantas ações contrárias ao meio ambiente, o Brasil deveria mostrar algum resultado concreto na redução do desmatamento, e ações efetivas que demonstrem real comprometimento com a pauta ambiental, antes de voltar a pedir qualquer apoio financeiro.
No próximo post, o último desta série, analisaremos o discurso do presidente Bolsonaro na Cúpula do Clima e sua repercussão.
Impressionado! Com tão grande competência e eficiência de Bolsonaro e Talles em promover tamanho dano ao meio ambiente e à imagem do Brasil. Pelo amor de Deus! A pressão interna e externa para derrubar Talles tem que
ser forte. E abrir a cabeça do povo para 2022