ERNESTO ARAÚJO: UM VERDADEIRO PÁRIA DO BRASIL – PARTE 3

Cris Couto

Hoje finalizaremos a série de posts dedicados à política externa desequilibrada conduzida pelo ex-chanceler Ernesto Araújo.

Em relação à PAUTA AMBIENTAL, Ernesto Araújo possui uma opinião um tanto quanto peculiar sobre o aquecimento global. Para o ex-chanceler, as mudanças climáticas são “basicamente como uma tática globalista de instilar o medo para obter mais poder“. Inacreditável pensar que um chanceler que, em tese, é uma pessoa inteligente e estudada, fale tamanha asneira! Mas não pára por aí. Em meio à crise internacional causada pelo desmatamento e queimadas na Amazônia, Ernesto disse que, atualmente, há uma “ditadura climática” que impede o debate ambiental. Não acredito em aquecimento global. Vejam que fui à Roma em maio e estava tendo uma onda de frio enorme. Isso mostra como as teorias do aquecimento global estão erradas”, disse o ex-ministro. Durante uma audiência no Congresso Nacional, o ex-chanceler ainda falou que “Nos Estados Unidos, foi feito um estudo sobre estações meteorológicas, e diz que muitas estações que, nos anos 30 e 40, ficavam no meio do mato, HOJE FICAM NO ASFALTO, na beira do estacionamento. É óbvio que aquela estação vai registrar um aumento extraordinário da temperatura, comparado com a dos anos 50. E isso entra na média global”. E para completar seu devaneio, o ministro disse: Não há um termostato que meça a temperatura global. Existem vários termostatos locais.  Sério, como alguém tão desvairado, com uma VISÃO DE MUNDO TÃO TRESLOUCADA, conseguiu ser Ministro das Relações Exteriores? Ah, é verdade: ele foi ministro do governo mais negacionista e obscurantista da história do Brasil. Tá explicado!!!

Em 2019, Ernesto Araújo reuniu-se, nos EUA, com Steve Bannon, amigo de Donald Trump e grande influenciador de uma onda nacionalista de direita que vem crescendo nos últimos tempos. A reunião não estava na agenda do então chanceler e uma das pautas foi o discurso do presidente Jair Bolsonaro, na abertura da Assembleia-Geral da ONU. Sim, o discurso do presidente BRASILEIRO foi discutido, verificado ou quiçá orientado por um ex-estrategista do presidente AMERICANO! Que Bolsonaro não sabia o que dizer, já é óbvio! Mas Ernesto Araújo, diplomata de carreira, não foi sequer capaz de fazer o discurso de seu “querido chefe”!!! Se bem que o ex-chanceler sequer foi capaz de construir seus próprios discursos. As interjeições – Hum, ééé, haaa, hummm – foram talvez as mais claras palavras dentre as muitas já ditas por Ernesto!

Em 2020, Ernesto discursou no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Mais uma vergonha internacional! O ex-chanceler fez críticas às restrições adotadas para conter a pandemia. Ernesto Araújo afirmou com a maior desfaçatez que “Sociedades inteiras estão se habituando à ideia de que é preciso sacrificar a liberdade em nome da saúde. (…) não se pode aceitar um lockdown no espírito humano, o qual depende fundamentalmente da liberdade e dos direitos humanos para exercer sua plenitude“. Ora, chanceler, o senhor sabe que estamos em meio à uma grave pandemia? Sabe que milhares de pessoas morreram e outras milhares que se recuperaram podem ficar com sequelas? Sabe que as medidas de distanciamento social são uma forma de salvaguardar vidas humanas? Ah, o senhor sabe, mas igual ao seu chefe, o senhor não se importa! O senhor nem é adepto ao uso de máscaras, né? Prova disso é que, durante viagem a Israel, Ernesto foi compelido pelas autoridades locais a colocar a máscara, causando mais um constrangimento para o Brasil.

Vários foram os casos em que Ernesto foi considerado como um capacho do presidente: o ex-chanceler não participou da reunião na Sala Oval entre Trump e Bolsonaro, sendo que, na ocasião, até o filho “zero três” do presidente também entrou na sala (03/19). Em lamentável episódio, ocorrido no interior de uma churrascaria em plena pandemia, (01/21), Bolsonaro tentou justificar o injustificável gasto com leite condensado, vociferou que “Quando vejo a imprensa me atacar, dizendo que comprei dois milhões e meio de latas de leite condensado, vai para puta que o pariu. Imprensa de merda essa daí. É para enfiar no rabo de vocês aí, vocês não, vocês da imprensa, essa lata de leite condensado”. Araújo sorri, vibra como um menino que acabou de ganhar uma lata de leite condensado e, juntamente com outros apoiadores, aplaude e grita “mito, mito, mito”, perdendo de vez qualquer dignidade para ocupar um cargo que exige tanta compostura como o de Ministro das Relações Exteriores. Ernesto também já defendeu que “Totalitarismo é o oposto de conservadorismo. Todos os totalitarismos são, portanto, de esquerda. E isso inclui o fascismo italiano“. Afirmar que o fascismo era um movimento de esquerda revela total ignorância, mas, no caso de Ernesto, é pura demagogia, já que de um chanceler espera-se certo nível cultural.

Após os atritos com a China e a falta de esforços em se conseguir vacinas e insumos, Ernesto foi convidado pelo Senado Federal para uma audiência (24/03), a fim de explicar os esforços do MRE. Os senadores foram unânimes nas críticas à gestão de Araújo e muitos solicitaram que ele deixasse a pasta. O então chanceler disse que dormia bem e que acreditava fazer uma boa gestão. Ernesto, de forma alucinada, ainda polemizou ao dizer uma frase usada durante o regime fascista de Benito Mussolini. A expressão em latim “Senatus Populus que Romanus” (SPQR) significa “o Senado e o povo”, mas o fascismo italiano usava para se referir à elite (Senado), plebe e a abolição de lutas entre classes sociais. A frase foi dita pelo ex-chanceler na mesma ocasião em que Filipe Martins, assessor especial da Presidência da República, fazia um gesto utilizado pelos supremacistas brancos dos EUA! A propósito, não custa lembrar que Henrique Fonseca de Araújo, pai de Ernesto, foi procurador da República durante a DITADURA MILITAR e, em 1978, negou pedido de extradição a vários países que queriam julgar Gustav Wagner, comandante de um campo de concentração nazista e responsável pela morte de 250 mil prisioneiros.

Com o Congresso Nacional pedindo sua demissão e, principalmente, com o “centrão” demandando a troca do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo resolveu “atacar”, na tentativa de obter uma sobrevida no cargo. Em uma rede social, Araújo insinuou que a presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, a senadora Kátia Abreu (PP), estaria fazendo lobby em favor da China na questão da implantação da rede 5G no Brasil. A senadora reagiu duramente, afirmando que o então ministro viveria “à margem da boa diplomacia, à margem da verdade dos fatos, à margem do equilíbrio e à margem do respeito às instituições”. Afirmou, ainda, que Araújo estava tentando desviar o foco da vacinação e das mortes por Covid-19. Kátia Abreu ganhou amplo apoio de seus pares, que voltaram a defender sua demissão. Sem saída, Ernesto entregou sua carta demissão ao presidente. Nela, Ernesto Araújo chama Bolsonaro de “querido chefe” e diz ter sido vítima de uma “narrativa falsa e hipócrita”, além de afirmar que o governo Bolsonaro é uma espécie de “transformação nacional”. Afirmou, ainda, que vai se dedicar ao povo brasileiro “até o fim” dos seus dias, além de alfinetar a esquerda, dizendo que “correntes que querem de volta o poder” visam à escravização do ser humano e levaram o Brasil a décadas de “atraso, corrupção e desgraça”. Curioso é que quando essas “correntes” estavam no poder, o senhor as exaltava e parabenizava, não é, senhor ministro? Parece até que a real ideologia do ministro é o “oportunismo”!

Com a queda de Ernesto Araújo, o presidente Bolsonaro escolheu Carlos Alberto França para chefiar o Ministério das Relações Exteriores. França, apesar de próximo da família Bolsonaro, é visto por seus pares como uma pessoa sensata, coerente e de fácil convívio – bem diferente do ex-chanceler. Assim como Araújo, França também nunca comandou uma embaixada no exterior e compartilha posições conservadoras. Isso é ruim? Não ter chefiado uma embaixada mostra pouca experiência, mas isso pode ser superado. Ser conservador, de direita, liberal ou de esquerda não faz alguém melhor ou pior do que ninguém! São apenas convicções! Muitas pessoas possuem convicções e nem sabem se elas se enquadram como sendo de direita ou de esquerda. Parece que, para os diplomatas, o trabalho ficará mais leve e mais fácil de ser executado tendo França na chefia. Porém, a política externa brasileira é a política do governo Bolsonaro! Por mais que França seja “diplomático” – e será, pois não há nenhum indício de que ficará postando em rede sociais absurdos como “comunavírus” – as pautas que ele deverá defender ainda são aquelas em que Bolsonaro acredita, infelizmente.

Há quem diga, contudo, que, com a saída de Ernesto, teria havido um ENFRAQUECIMENTO DA ALA IDEOLÓGICA DO GOVERNO. Pelo menos por enquanto, não há provas de que realmente houve esse enfraquecimento. Houve sim uma derrota pontual da ala ideológica, mas dizer que ela foi enfraquecida no governo, ainda é prematuro. O que anda acontecendo é que, a cada dia, Bolsonaro se encontra mais e mais nas mãos do “centrão”! Porém, enquanto houver cumplicidade entre eles, não há enfraquecimento. Não se pode esquecer que o “centrão” sempre sustentou governos no poder, ou os derrubou, quando isso foi de seu interesse. Por enquanto, os partidos que formam esse chamado “centrão” ainda dão sustentação a Bolsonaro. Isso vai até quando? Até quando tais partidos entenderem que suas mãos estão começando a ficar sujas de sangue também!

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