SERÁ QUE LULA PRECISA DE CHÁ DE CAMOMILA? (PARTE 2)

Cris Couto

No artigo anterior, lembramos que, em 1999, o então deputado Jair Bolsonaro afirmou que Hugo Chávez era “uma esperança para a América Latina” e que gostaria que “sua filosofia chegasse ao Brasil”. O ex-presidente Chávez adotou uma política fortemente populista, e até hoje o povo venezuelano, em sua grande maioria, o idolatra. O antecessor de Maduro promoveu diversas reformas no país, as quais foram responsáveis por ampliar a distribuição de renda na Venezuela. Alguns exemplos das ações de Chávez são: a criação de programas de bem-estar social e políticas públicas que ampliaram o acesso da população mais pobre do país à educação e saúde. As ações direcionadas à população mais carente fizeram com que Hugo Chávez passasse a ser amado e, ao mesmo tempo, odiado. O pobre ama, a elite econômica do país odeia. Essa elite, inclusive, passou a conspirar para derrubá-lo. Com a morte de Chávez, em 2013, Nicolás Maduro se autointitulou o “sucessor de Chávez”. Como o ex-presidente falecido era respeitado em toda a América do Sul, Maduro, seu sucessor, acabou herdando esse respeito.

Outro fator que ajudou Maduro a ficar no poder por tantos anos foi, sem dúvida, seu discurso de combater o “imperialismo” (comportamento autoritário de influência militar, cultural, política, geográfica e econômica dos Estados Unidos sobre outros países). Não resta dúvidas que os EUA intervieram e muito na política interna de inúmeros países. Há pouco tempo, inclusive, tivemos a comprovação de que os EUA estiveram envovidos nos atos ilegais da Lava-Jato e que monitoraram e produziram 819 documentos sobre o presidente Lula de forma totalmente indevida. Além disso, os EUA possuem muito interesse em petróleo e, como se sabe, a Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Sem contar o fato de que os EUA sempre quiseram instalar uma base militar na América do Sul. E a melhor forma para conseguir instalar essa base militar é, justamente, diante de um cenário de instabilidade na região. Políticas para preservar a segurança nacional e evitar possível comportamento autoritário americano e de qualquer outro país são importantes. No entanto, para isso NÃO é necessária a implantação de regimes ditatorais. Aliás é justamente ao contrário, pois um país onde a democracia é bem consolidada consegue obter apoio das maiores lideranças do mundo e, com isso, não fica isolado militar e economicamente. Ou seja, o discurso do mandatário venezuelano é uma falácia usa apenas para preservar seu poder.

Aos poucos, a Venezuela vem se tornando cada vez mais isolada devido ao comportamento de seu presidente que chegou a extinguir até partidos políticos, inclusive o Partido Comunista. Maduro não é de esquerda, não é socialista. O mandatário venezuelano enganou por muito tempo os demais lideres regionais se dizendo um representante de esquerda apenas para obter apoio internacional. Não possui pautas de esquerda. Aliás, na verdade, Maduro não possui base ideológica definida. O que se sabe é que possui apoio militar e evangélico -, em especial, a Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Sim, tal como Bolsonaro, o presidente venezuelano USA A RELIGIÃO COMO INSTRUMENTO DE PODER POLÍTICO. Maduro, portanto, NÃO é socialista. É sim um caudilho, um ditador!

Alguns políticos e partidos de esquerda brasileira se posicionaram sobre as questionáveis eleições venezuelanas. O Partido dos Trabalhadores (PT) emitiu nota, logo após as eleições – e antes das mortes e das prisões – parabenizando a vitória de Maduro. Por sua vez, políticos filiados a tal legenda, como o senador Randolfe Rodrigues e o senador Fabiano Contarato, disseram com todas as letras que não concordam com o posicionamento oficial do partido, bem como acreditam que pode ter havido fraudes eleitorais na Venezuela e que consideram Nicolás Maduro um ditador. E eles não foram os únicos políticos do campo progressista que se posicionaram dessa forma. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, elogiou a cautela do presidente Lula e afirmou que a Venezuela não possui democracia. O PSOL, em nota, afirmou ser correta a cobrança de países como o Brasil por transparência e, Juliano Medeiros, ex-presidente da legenda, afirmou que o resultado das eleições na Venezuela não é confiável.

Aliás, o senador Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso Nacional, ainda afirmou que “Tudo que eles (bolsonaristas) criticam na Venezuela é o que eles queriam Brasil. A oposição queria no Brasil um regime de Maduro, com Bolsonaro. E o que o Maduro está querendo na Venezuela é um regime bolsonarista com Maduro. Então um é face do outro, é contraface do outro, um é cara e coroa do outro. Se vê amiúde, são cópias. Lá o mesmo questionamento ao processo eleitoral que faziam aqui para deslegitimar o processo eleitoral, o Maduro faz na Venezuela. A mesma utilização do aparato bélico do Estado para intimidar eleitores que o Maduro faz na Venezuela, é o que o bolsonarismo faz aqui. Eu acho muito cara de pau da oposição bolsonarista que é tão identificado com o regime do Maduro, quanto os métodos que tentavam utilizar aqui”.

E é exatamente isso que políticos autoritários, sejam de direita, de esquerda, de extrema-direita ou até sem base ideológica definida fazem: antes mesmo do pleito eleitoral colocam dúvida na população para que, em caso de derrota, possam contestar de maneira nada democrática. Bolsonaro fez exatamente isso aqui no Brasil ao falar de forma mentirosa que as urnas eletrônicas não eram confiáveis e inventar que não se tinha acesso ao código fonte. Trump também usou do mesmo artifício. Mas detalhe: nos EUA o voto é impresso e também, segundo o atual candidato dos Republicanos, não é confiável. Na Venezuela, o voto é parte eletrônico e parte impresso e, segundo Maduro, também não é confiável – motivo pelo qual ele precisaria do trabalho intenso dos militares. Ora, para esses políticos autoritários não existe segurança em nenhum modelo eleitoral! Isso pelo fato de que pouco se importam com a vontade popular! Querem se perpetuar no poder e, na maioria das vezes, em busca de interesses pessoais.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) rejeitou a resolução para exigir transparência ao governo da Venezuela sobre as eleições que deram vitória a Nicolás Maduro. O documento obteve 17 votos a favor, nenhum voto contrário e 11 abstenções. O Brasil foi um dos países que se abstiveram. Na verdade, o documento da OEA muito se parecia à posição oficial de Brasil, México e Colômbia, que querem a entrega das atas e maior transparência nas eleições venezuelanas. O jornalista Reinaldo Azevedo, aliás, afirmou que a nota conjunta desses três países é impecável! A abstenção brasileira, portanto, tem mais a ver com um protesto em face do atual presidente da OEA, Luis Almagro, que, como se sabe, esteve diretamente envolvido com a tentativa de golpe na Bolívia. Almagro afirmou existir fraude nas eleições bolivianas e, depois, descobriu-se que não havia nada de errado, demitiu alto funcionário brasileiro da OEA por motivos ideológicos, empregou o irmão do  Abraham Weintraub também com base ideológica, colocou fim em uma comissão que estava investigando corrupção no governo de extrema-direita de Honduras e ajudou a empossar o Guaidó na Venezuela, de forma totalmente ilegal. Todas as teses da extrema-direita são apoiadas por Almagro.

 Maduro está tentando telefonar para o presidente Lula, mas até agora, não houve tal conversa. Seria um “gelo” proposital ou, como informou o Palácio do Planalto, “o presidente Lula está com uma agenda muito apertada”?

A postura que o governo brasileiro vem tomando em relação à Venezuela, até o presente momento, é a mais acertada, visto que o Brasil é uma liderança regional e se coloca como um MEDIADOR NATURAL frente as controvérsias políticas na América do Sul. Um exemplo recente da importância da posição neutra do Brasil é justamente a tentativa de invasão da Guiana pela Venezuela. O exército venezuelano, a mando de Maduro, estava prestes a invadir a Guiana e anexar Essequibo, região rica em petróleo, ouro e diamantes. Lula foi fundametal para que esse episódio não virasse uma guerra na região. A internacionalista e professora de História da Universidade Central de Venezuela, Patrícia Méndez, observou que “Lula é visto como um mediador objetivo. Essa postura equilibrada do Brasil é o que permite facilitar essa mediação. O convite da Guiana dá ferramentas para Lula exercer esse papel de mediador em alto nível, nível executivo, conversando com Nicolás Maduro e Irfaan Ali. Não é pouca coisa que o presidente assuma essa intermediação”.

O presidente Lula foi para o Chile em uma visita oficial que culminou em 19 acordos bilaterais em áreas que vão do turismo, ciência e tecnologia, defesa, agropecuária e direitos humanos até as relações comerciais e de investimentos. Na ocasião, o mandatário brasileito reforçou o entendimento de que tanto o Brasil, como o Chile já foram vítimas de ditaduras militares e que não é admissível nenhum desrespeito à ordem democrática. Lula corroborou que a Venezuela deve apresentar as atas para que o Brasil possa reconhecer o verdadeiro vencedor do pleito eleitoral e que a vontade popular é soberana e deve ser respeitada. Macron, presidente da França, telefonou para Lula e parabenizou o presidente pela postura, neutralidade e firmeza diante da triste situação da Venezuela. O presidente francês, além do telefonema, também postou nas redes sociais que “Nós apoiamos, ao lado do presidente Lula, aspiração do povo da Venezuela por transparência na eleição. Este requisito está no cerne de qualquer democracia”.

No domingo, 5 de agosto, Maria Corina, líder da oposição venezuelana, deu uma entrevista exclusiva ao Fantástico, da Rede Globo. Nessa entrevista, Corina agradeceu nominalmente a posição de neutralidade tomada pelo presidente Lula. Disse Corina que “Como venezuelana, fico muito agradecida pela resposta de alguns governos de alguma maneira próximos a Maduro como Brasil, Colômbia e México e que assumiram posições muito firmes para que a verdade eleitoral seja conhecida. Agradeço a posição nítida do governo do Brasil e do presidente Lula ao exigir que se divulguem os boletins um a um”.

Como se pode perceber, a posição brasileira, até o presente momento, é a mais correta e está sendo muito bem recebida tanto pelas lideranças mundiais, como por aqueles que estão sendo diretamente afetados pela crise venezuelana. Mas é claro que a extrema-direita bolsonarista tenta, mais uma vez, ditorcer fatos e disseminar Fake News. 

Passadas algumas semanas sem apresentação das atas, o conflito na Venezuela se acirra. Maduro afirma que obteve vitória, sem contudo apresentar nenhuma prova disso. A oposição também alega êxito nas urnas, dizendo ter conseguido parte das atas, sem dizer quais são tais atas e como que conseguiu obtê-las, dando a entender que também podem ser fraudadas. O fato é: não se pode confiar na alegação de nenhuma das partes.

Questionado sobre a demora de Maduro em entregar as atas e se reconhece a vitória do atual mandatário venezuelano, o presidente Lula disse que: “Maduro anunciou que ganhou, oposição anunciou que ganhou. Então é importante que a gente tenha alguém para analisar as atas das votações. Ainda não reconheço (a eleição). E ele sabe que está devendo uma explicação para a sociedade e para o mundo“. Lula ainda afirmou que: “O Maduro tem seis meses de mandato ainda. Se ele tiver bom senso, ele poderia tentar fazer uma conclamação ao povo da Venezuela. Quem sabe até convocar novas eleições, estabelecer um critério de participação de todos os candidatos, criar um comitê eleitoral suprapartidário que participe todo mundo e deixar que entrem olheiros do mundo inteiro. O que eu não posso é ser precipitado em tomar uma decisão. Da mesma forma que eu quero respeitem o Brasil, eu quero respeitar a soberania dos outros países.” Ou seja, Lula reafirmou que a Venezuela precisa dar ao mundo transparência no processo eleitoral e mostrar que se compromete com os princípios democráticos para que possa se inserir no cenário internacional e deixar de receber sanções. Além disso, conforme o presidente brasileiro, caso seja impossível a comprovação da vitória, o ideal seria novas eleições ou alguma forma de transição democrática. Lula, mais uma vez, acertou em suas ponderações. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também defende novas eleições na Venezuela.

Contudo, a fala do mandatário brasileiro deixou Maduro irritado e a oposição um tanto quanto nervosa. O que nos leva a crer que, na verdade, ninguém sabe quem realmente ganhou o pleito eleitoral. Ora, se eu ganho, não tenho medo de disputar de novo!  Maduro, aliás, tentou atacar, mais uma vez, o presidente Lula e o processo eleitoral brasileiro ao dizer que “No Brasil, o ex-presidente Bolsonaro, aliado da extrema-direita fascista da Venezuela, alegou fraude e não aceitou a derrota. E foi o tribunal brasileiro [TSE] que decidiu. Ninguém na Venezuela e em nosso governo pediu algo”.

Por sua vez, o presidente Lula afirmou que Maduro é autoritário e desagradável! E sim, Maduro é exatamente isso: autoritário, desagradável e fará qualquer coisa para se manter no poder, motivo pelo qual o Brasil acerta em tentar a posição de neutralidade até quando isso for possível.

Muitos governantes dizem estar ligados à um determinado campo político apenas para se eleger e obter apoio mas, na verdade, não tomam posições desse campo, tal como Maduro e Bolsonaro. Por exemplo, Maduro se diz de esquerda, mas não defende bandeiras do campo progressista. É preconceituoso, autoritário, conservador, se aliou aos militares e à Igreja do Edir Macedo e deixou na clandestinidade partidos da esquerda venezuelana. Bolsonaro, por sua vez, se diz de direita, quando na verdade é de extrema-direita, fenômeno marcado por características como uso da religião (“DEUS”), nacionalismo extremo (“PÁTRIA”), ênfase na preservação da tradição (“FAMÍLIA”), identidade nacional, ordem social hierárquica (Bolsonaro afirmou que “A minoria tem que ser curvar à maioria”), autoritarismo (Bolsonaro manda jornalista calar a boca), xenofobia (Bolsonaro disse que “O voto do idiota é comprado com Bolsa Família. Se você for no Nordeste, você não consegue uma pessoa para trabalhar na tua casa. Você vê meninas no Nordeste, batem a mão na barriga, grávidas, e falam o seguinte: Esse aqui vai ser uma geladeira, esse aqui vai ser uma máquina de lavar, e não querem trabalhar. Aqui, ó!”) e, em alguns casos, simpatia por regimes totalitários (Bolsonaro disse que era “irmão” do princípe e ditador da Árabia Saudita) e desprezo em relação às instituições democráticas (ataques sistemáticos do ex-presidente ao Supremo Tribunal Federal).

Ocorre que muitas pessoas do campo progressista, tal como a dirigente do PT, Gleise Hoffman, apoiam Maduro pelo simples fato de ele se dizer ser de esquerda. Com a devida venia, isso é um erro, mesmo porque Maduro NÃO é de esquerda. Entendo que, historicamente, a perseguição ao campo progressista fez com que houvesse maior aproximação da esquerda entre diversos países. Porém, o que está em jogo agora é a democracia na América do Sul e no mundo, que está ameaçada pelo ressurgimento da extrema-direita.

E é pensando justamente nessa extrema-direita que também entendo o dilema que o governo Lula e o Itamaraty estão vivendo nesse exato momento. Explico: Nicolás Maduro despreza a democracia, porém, tem apoio de China e Rússia, que compõe o BRICS. A China, aliás, é o maior parceiro comercial e um dos maiores investidores do Brasil. Tanto a China, como a Rússia, possuem armas nucleares, e não são governados por líderes de extrema-direita. São potências econômicas e militares, além de possuírem rusgas com os EUA. Por sua vez, os EUA são vistos como “a maior democracia do mundo” e dizem lutar pela liberdade de todos, mas não se constrangem em apoiar guerras e até países com regimes ditatoriais, como a Arábia Saudita ou governados por líderes autoritários, como Israel. E por essa bandeira da “luta pela democracia” é que, caso Maduro fique no poder e haja ainda maior instabilidade na Venezuela, podendo até eclodir uma guerra civil, pode ser que os EUA consigam o que sempre quiseram: uma base militar na região. Mas a situação pode também ficar ruim, caso a oposição consiga se estabelecer no poder, pois é sabido que Maria Corina é a líder da extrema-direita venezuelana. Ou seja, seria mais um país de extrema-direita na América do Sul, o que fortaleceria as ideias antidemocráticas de Bolsonaro e Milei. Esse cenário ainda pode piorar se Trump vencer as eleições americanas! Ou seja, o cálculo político do Brasil deve ser muito cuidadoso para que a posição do governo Lula seja a “menos pior”.

Mas uma coisa é certa: o presidente Lula NÃO precisa de chá de camomila, pois tem a experiência de uma vida democrática!

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