LULA ACERTOU OU ERROU – FINAL

Cris Couto

Após a polêmica declaração de Lula associando o extermínio em Gaza ao genocídio promovido por Hitler na Segunda Guerra Mundial, inúmeros líderes mundiais voltaram a pedir um cessar-fogo imediato na região e a repudiar os ataques com uso excessivo de força do exército israelense, como vimos no post anterior. Foram realizados protestos no mundo todo pedindo o fim do genocídio em Gaza e até a prisão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O Papa Francisco fez um apelo pelo fim dos ataques de Israel na Faixa de Gaza e o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Parolin, afirmou que Israel estava cometendo “carnificina”, subindo o tom em relação ao governo extremista de Netanyahu. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, acusou Israel de genocídio, citou inclusive o Holocausto e disse que mundo deveria “bloquear” Netanyahu. Inúmeros outros líderes mundiais subiram o tom em relação ao premier israelense, incluindo Vladimir Putin e Emmanuel Macron. Uma pesquisa realizada em Israel mostra que 86% dos israelenses consideram que o ataque terrorista do Hamas foi resultado de uma falha do primeiro-ministro do país e querem o fim imediato da guerra.

É inequívoco que o exército israelense falhou ao não conseguir interceptar o ataque terrorista do Hamas. E essa falha, proposital ou não, se torna cada vez mais evidente. Primeiro pelo fato de o Egito ter afirmado que avisou Israel sobre o ataque que sofreriam, mas o exército israelense não tomou qualquer providência. Segundo pelo fato de que, mais recentemente, o exército de Netanyahu, por meio da tecnologia conhecida como “domo de ferro”, conseguiu interceptar, quase em sua totalidade, os mísseis e drones que o Irã lançou contra Israel. Ressalte-se, no entanto, que o Irã lançou os referidos mísseis e drones como forma de retaliação, haja vista que Israel, no dia 1 de abril, atacou o consulado iraniano na Síria. O fato é que a escalada de tensão na região está chegando a patamares assustadores e, se nada for feito nas próximas semanas, o risco de o mundo adentrar em uma guerra de proporções mundiais é grande.

Ademais, é assustador, mas parece que há muitas pessoas que não se preocupam com as vidas palestinas. A mídia brasileira, em quase sua totalidade, passou a noticiar, inclusive, que Lula estava “atacando Netanyahu e Israel”, o que definitivamente não é verdade. Pode-se concordar ou não com a forma ou com as palavras usadas pelo presidente Lula, mas NÃO HOUVE ATAQUE E SIM DENÚNCIA de crimes, na tentativa de salvar vidas de palestinos inocentes. Vale lembrar que Lula foi o primeiro presidente brasileiro a pisar em solo israelense. Por ocasião do ataque do Hamas, Lula foi o primeiro líder mundial a repudiar tal ataque, classificando-o como terrorista. No entanto, deve-se distinguir o Hamas do povo palestino, que há décadas vem sofrendo com restrições a seus direitos mais básicos. E aqui cabem duas constatações: 1) a história do povo judeu é louvável e merece todo o respeito, mas isso não permite que Israel possa fazer ou deixar de fazer qualquer coisa sem que esteja amparado pelo Direito Internacional; 2) a denúncia feita por Lula NÃO foi contra Israel ou contra o povo israelense e sim direcionada a Benjamin Netanyahu que, indubitavelmente, utiliza-se da guerra para se manter no poder e até mesmo para não ser condenado e preso por corrupção em seu país. E é por isso que ainda se investiga o porquê de Israel sequer ter tentado barrar o ataque do Hamas, visto que o Egito havia informado o exército israelense das intenções do grupo terrorista, como já afirmado.

A extrema-direita bolsonarista, como era de se esperar, também aproveitou a oportunidade para tentar “lacrar” nas redes sociais, por meio de fake news e sensacionalismo. Saíram em defesa de Benjamin Netanyahu sem nunca mencionar as crianças assassinadas pelo exército israelense. A maioria dos bolsonaristas evangélicos, carregando a bandeira de Israel, aproveitou para promover suas pautas: contra casamento gay, contra aborto e a exaltação de Jesus Cristo acima de tudo – muito embora preguem o ódio, a discriminação e a liberação das armas, nada do que Cristo ensinou. Alguém pode explicar a eles que em Israel o aborto é legalizado, assim como algumas drogas, e que o casamento gay realizado no exterior é reconhecido pela lei israelense? Além disso, para os judeus, Jesus não é e nunca será o messias! A falta de preparo intelectual da extrema-direita bolsonarista é gritante. Ainda na esteira do pronunciamento do presidente Lula, mais de 150 deputados bolsonaristas pediram o seu impeachment, alegando que Lula havia exposto o Brasil a uma possível guerra. Definitivamente isso não aconteceu e a interpretação dada ao dispositivo legal que embasa o pedido de impeachment é tão fantasiosa que não daria para mascarar nem uma tentativa de golpe. Portanto, não resta nenhuma possibilidade de afastamento do presidente pelas razões que aqui analisamos.

Não se pode esquecer, todavia, que quem banalizou o termo holocausto e toda carga história que esse período representa foi a família Bolsonaro e o próprio primeiro-ministro de Israel. Flávio Bolsonaro, na CPMI dos Atos Golpistas, comparou a prisão dos criminosos que destruíram a Praça dos Três Poderes, em Brasília, e que tentaram um golpe com o que os nazistas fizeram no Holocausto.  Também deve ser lembrado que o ex-presidente Jair Bolsonaro disse que era possível “perdoar o Holocausto, esquecer não”. Como? Bolsonaro disse ser possível perdoar o maior ou um dos maiores genocídios da história da humanidade? E sem contar que Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, defendeu Hitler e afirmou que o líder nazista não planejava exterminar os judeus. Essas três citações, todas vindas da extrema-direita, são desrespeitos incontestáveis à memória do povo judeu e não tiveram nem de longe a repercussão gerada pelo pronunciamento de Lula, motivado pela tentativa de cessar um conflito e salvar vidas palestinas! Isso é no mínimo incoerente.

Na verdade, toda a repercussão negativa da fala de Lula foi proposital. Explico. A extrema-direita só sobrevive por meio da criação de Fake News e distorção das ações acertadas do atual governo. Assim, os bolsonaristas usaram uma possível inconsistência das palavras de Lula para tentar jogar o povo cristão contra o presidente. Lembrando que Israel não aceita Jesus como messias, mas claro que a extrema-direita bolsonarista não sabe disso.

Por sua vez, Netanyahu, que também é político de extrema-direita e que está prestes a ser condenado por vários crimes, inclusive por corrupção, usou o momento para distorcer a fala de Lula e tentar se afirmar como um líder que ama a história de seu país e, quem sabe, reverter seus infortúnios políticos e legais. Netanyahu afirmou que Lula “cruzou a linha vermelha” e que a declaração do chefe do Executivo brasileiro era “vergonhosa”. Ora, Netanyahu, vergonhosas são as ações do exército israelense que, sob seu comando, está praticando uma chacina em Gaza, matando crianças e inocentes de forma indiscriminada. Ver cenas de recém-nascidos que, por causa de bombardeios de Israel em maternidades, perderam bracinhos e perninhas, isso é vergonhoso e CRIMINOSO. Ainda na tentativa de desmoralizar o presidente Lula e, por conseguinte, o Brasil, o primeiro-ministro israelense chamou o Embaixador brasileiro em Israel, Frederico Meyer, para constrangê-lo. A “conversa” não se deu na chancelaria local, como seria o correto perante o protocolo diplomático, mas em evento público. Na verdade, Netanyahu resolveu fazer verdadeiro espetáculo midiático e uma espécie de humilhação pública ao governo brasileiro. Ressalte-se que Netanyahu, ao perceber que o movimento de repulsa a ele cresce e que os julgamentos por seus crimes foram retomados, está usando o Brasil para tentar se colocar como líder da extrema-direita em seu país e, assim, receber alguma blindagem.

Após referida humilhação ao Embaixador brasileiro, o ministro das Relações Exteriores de Israel declarou o presidente Lula “persona non grata”. Mas o que isso significa? É uma expressão que quer dizer “pessoa não bem-vinda”.  No contexto das relações internacionais, tal expressão é usada para indicar que um indivíduo, geralmente um diplomata estrangeiro ou chefe de Estado ou governo, é considerado indesejável pelo Estado receptor. A rigor, pode-se considerar um estágio anterior ao rompimento das relações diplomáticas bilaterais. E é claro que o Brasil já tomou as devidas providencias chamando de volta o Embaixador brasileiro em Tel Aviv para o Brasil e também convocando o Embaixador de Israel no Brasil para uma reunião. Tornar o presidente Lula “persona non grata” pode afetar a economia do Brasil ou algum outro setor? Não. Em regra, os países sabem distinguir muito bem relações políticas das econômicas. E ainda que isso afetasse a economia, pode-se afirmar, que o Brasil tem muito pouco a perder, haja vista que Israel representou somente 0,2% do total das exportações do Brasil no ano passado e está no 54º lugar no ranking de exportações brasileiras. Na verdade, o primeiro-ministro israelense fez isso apenas para tentar constranger o presidente Lula, além da tentativa de se colocar como vítima aos olhos do mundo, o que obviamente não deu certo.

Como já afirmado, Lula acertou, mas também errou. Acertou ao se expressar de maneira contundente sobre a atual situação vivida pelo povo palestino, conseguindo chamar a atenção do mundo para as atrocidades cometidas pelo exército de Israel. Mas o presidente também errou, ao demorar para se pronunciar sobre os crimes de Israel sob o comando de Netanyahu.

Ademais, destaque-se que não existiu apenas o genocídio contra os judeus, como parte da mídia tenta reproduzir. Na verdade, existiram vários outros genocídios ao longo da História Mundial mas que quase nunca são lembrados. Um dos mais cruéis, a título de exemplo, foi o que aconteceu no Estado Livre do Congo, entre 1885 e 1908. As atrocidades perpetradas no Congo (atual República Democrática do Congo) ficaram conhecidas como Holocausto do Congo e referem-se à política genocida do Rei Leopoldo II da Bélgica, que entrou para a história devido a sua brutalidade, incluindo trabalho forçado, sequestros e assassinatos de rebeldes – todo aquele que não se submetia à exploração. Essas atrocidades foram associadas com as políticas laborais usadas para coletar borracha natural para exportação. Estima-se que cerca de dez a quinze milhões de pessoas do Congo tenham sido assassinadas. Ressalte-se ainda que o maior genocídio da história mundial se deu em Ruanda, em 1994, devido à rivalidade entre as etnias hutu e tutsi. A dúvida que fica é: porque o genocídio dos povos negros não tem a mesma importância e visibilidade dada pela mídia brasileira que o genocídio sofrido pelos judeus? Aqui vale uma advertência: VIDAS NEGRAS IMPORTAM!

Por fim, cabe lembrar que Benjamin Netanyahu faz parte da extrema-direita, assim como Trump e Bolsonaro. Ao tentar desqualificar as falas do presidente Lula, além de tentar se proteger de possível condenação pela justiça israelense, Netanyahu pôs em prática uma política de desqualificação. Ou seja, tentou sujar a imagem de Lula para que o presidente brasileiro ficasse isolado e mal visto pelo mundo democrático. Mas, como sabemos, isso não aconteceu. Pelo contrário, Lula passou a ter ainda mais prestígio entre aqueles que almejam uma vida mais justa, igualitária e sem preconceito.

Um comentário em “LULA ACERTOU OU ERROU – FINAL

  1. Perfeito. Lula foi muito criticado nas a verdade sempre acaba aparecendo. Emfim um verdadeiro genocidio em andamento

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