ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS, ATENTADOS TERRORISTAS, CARTÃO CORPORATIVO, YANOMANIS, MORTES NA PANDEMIA. A CULPA É DO PT? (FINAL)

Cris Couto

Apesar de muitos pseudo-analistas acharem conveniente colocar a culpa dos desastres sociais brasileiros na corrupção do período do PT no poder ou em Lula, tenho que me ater aos fatos e discordar. De nada adianta uma análise rasa. Para que possamos erradicar os problemas, temos que conhecer a fundo sua origem. É como uma doença: o conhecimento superficial pode até resultar em um remédio paliativo, mas não garante a cura.

Posto isso, temos que entender que a corrupção não pode ser o fato gerador do desastre social que se instalou no país por um único motivo: a corrupção no Brasil é endêmica, sempre existiu e nunca foi motivo para a falência moral da sociedade brasileira. Sim, devem-se rever as leis e as normas institucionais e travar um embate permanente para que haja o fim da corrupção. Por outro lado, não se pode usar a corrupção como pretexto para justificar, por exemplo, a ascensão da extrema-direita no Brasil e de Jair Bolsonaro, militar expulso do Exército brasileiro e político do baixo clero que, inclusive contabiliza diversos casos de corrupção em sua trajetória. Bolsonaro sempre foi preconceituoso, violento, homofóbico, xenófobo, misógino, racista, intolerante religioso. O brasileiro, em regra, sempre foi tido como amistoso e solidário. De repente, pautas violentas começaram a ser normalizadas para grande parte da população que, inclusive, passou a se identificar com falas do ex-presidente como: “vamos metralhar a petralhada”; “Eu não empregaria [homens e mulheres] com o mesmo salário. Mas tem muita mulher que é competente”; “Pau-de-arara funciona. Sou favorável à tortura”; “Ele [índio] deveria comer capim ali fora para manter as suas origens”; “Não há a menor dúvida. Daria golpe no mesmo dia, no medo dia”. Em entrevista ao programa CQC, em março de 2011, ao ser questionado pela cantora Petra Gil sobre qual seria sua reação caso um filho se apaixonasse por uma negra, Bolsonaro responde: “Ô. Preta [Gil], eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu”. Será que, na verdade, o brasileiro médio nunca foi amistoso, solidário e livre de preconceitos? Será que, por pressão social, parte da sociedade se escondia por traz da imagem de pessoa razoável, escondendo e reprimindo seu preconceito e sua versão violenta? Ou será que algo aconteceu nos últimos anos para que os sentimentos mais primitivos emergissem no seio da sociedade, provocando uma onda de maus sentimentos, ódio, violência e descrença?

É impossível, nesses casos, generalizar. Há, sem dúvida alguma, pessoas que sempre nutriram sentimentos socialmente reprováveis, mas que reprimiam tais emoções para que não fossem alijados do convívio social. Há, em contrapartida, pessoas que, por descrença na própria sociedade e por condições adversas na vida cotidiana, rebelaram-se como forma de protesto e deixaram-se levar por um clamor social de ataque ao que era percebido como “status quo”. Criou-se um contexto de busca por um herói, um salvador da pátria, que viesse implementar algo diferente de tudo o que já se tinha experimentado na política brasileira e que lutasse contra o “sistema” e contra a “corrupção”. Aqui se pode, mais precisamente, identificar a Operação Lava-Jato como uma das responsáveis por esse processo, já que alguns de seus membros e operadores usaram o sentimento de cansaço do povo para incutir na sociedade as justificativas de seu próprio projeto de poder. Hoje, já não restam dúvidas de que a chamada “Turma de Curitiba” coagiu, mentiu, enganou, ignorou provas que poderiam prejudicar aliados políticos, inventou outras, baseadas na maioria das vezes em delações premiadas vazias (sem evidências), tudo isso com o objetivo maior de atacar um político que sempre se destacou como um dos maiores líderes populares do Brasil: Luís Inácio Lula da Silva.

Os constantes ataques a Lula, alimentados pelas mentiras da Lava-Jato, engrossaram o caldo da revolta de parte da sociedade: milhares de eleitores que até então se sentiam representados pelo petista passaram a se sentir traídos. Esse sentimento desencadeou forte desejo de transformação radical da política, mas aí já não mais no campo democrático: desde as eleições de 2018, muitos foram os brasileiros que passaram a pedir a volta da Ditadura Militar, razão pela qual votaram em Bolsonaro, político que sempre manifestou seu apreço pelo regime que prendia e torturava opositores e desafetos.

Mas isso não justifica o apoio que Bolsonaro obteve, no pleito eleitoral de 2022, de quase 50% da população brasileira mesmo após a tragédia que havia sido o governo eleito em 2018: 1- morte de mais de 700 mil pessoas na pandemia e o descaso do então presidente na compra de vacinas e medidas sanitárias; 2- indícios fortes de corrupção em seu governo; 3- desrespeito com as pessoas vítimas de acidentes naturais; 4- atentados golpistas contra as instituições; 5- violência contra jornalistas; dentre outros horrores.

Há duas causas que sustentam o sentimento bolsonarista raiz, sendo que elas podem estar presentes juntas ou separadas: 1- sentimento de superioridade; 2- ressentimento.

O sentimento de superioridade, em regra, está presente naquele apoiador que sempre nutriu os mesmos valores (ou desvalores) de Bolsonaro, como racismo, misoginia, homofobia. Por se sentirem superiores, têm ódio de tudo e todos que são diferentes e que, de alguma forma, representam perigo para eles – mesmo que tal perigo seja fruto de sua imaginação.

Já o ressentimento está presente nas pessoas que lutam para ter uma vida melhor ou que possuem problemas em sua vida pessoal – seja com trabalho, familiar, amigos – e que não conseguem resolver. Essas pessoas querem algum tipo de mudança em sua vida. A mudança deveria ser interna, deles próprios, mas como não entendem isso, clamam por bruscas transformações sociais e culturais, rompendo com tudo o que já havia sido testado no cenário político nacional. Nietzsche explica que o ressentimento é a soma do ódio com a impotência. E é exatamente isso que define essa parte do eleitorado. Devido a impotência e incapacidade de mudar determinada situação, esses indivíduos passam a nutrir sentimentos negativos, de ódio, revolta e mesmo destruição. Essas pessoas definem como mal tudo aquilo que for oposto a seu modo de pensar e seu projeto de vida. Se o ressentido é, por exemplo, egoísta, acaba achando que o empático é prejudicial à sociedade. O ressentido crias suas narrativas fantasiosas, nas quais ele mesmo possa acreditar, na tentativa de se justificar para si e para os outros.

Em ambos os casos, esses eleitores precisam de um “salvador da pátria”, um herói para fazer as mudanças que desejam e não conseguem. Não é exagero afirmar que o bolsonarismo, hoje, é uma espécie de seita. Pessoas largaram suas famílias para ficarem em frente a quarteis, passando frio, tomando chuva, só para apoiar o “mito”. Outras não deram assistência médica a entes queridos, pois não queriam aceitar que a Covid não era uma simples “gripezinha”. Chegaram a rezar para pneus e pedir intervenção federal para extraterrestres!!!

O bolsonarismo, portanto, possui diferentes facetas: 1-) os oportunistas, que não creem em nada que Bolsonaro fala, mas seguem o “mito”, em nome de sua autopromoção. João Dória é o maior exemplo dessa classificação. Ele nunca acreditou que o Brasil iria virar uma Venezuela, não é misógino, nem obscurantista. Mas seguiu Bolsonaro até se eleger governador de São Paulo; 2-) os que alimentam sentimento de superioridade, que realmente acreditam que todos os que são diferentes são inferiores e não merecem respeito. São grosseiros e violentos, pois não querem nem mesmo conviver com a diferença. Exemplos são Nikolas Ferreira e Julia Zanatta; 3-) os ressentidos, que devido a um problema de foro íntimo desenvolveram ódio, por se sentirem incapazes de mudar sua situação. Para mascarar sua impotência, diminuem outras pessoas. Como exemplo, cito grande parcela dos militares que passaram a apoiar Bolsonaro. Esses militares nunca aceitaram a redemocratização; 4-) os ‘ignorantes’ ou mal informados, que não sabem o que está acontecendo, nem quem realmente é Bolsonaro, mas votam nele, por vezes, movidos pela lavagem cerebral de familiares ou líderes religiosos. Aqui temos como exemplo as pessoas que acordam às 4h00 da manhã, pegam 2 ou 3 conduções lotadas para irem trabalhar, se alimentam mal, chegam em casa após as 22h00… Essas pessoas chegam em casa esgotadas, não têm tempo para ouvir ou ler jornais, infelizmente.

O fato é que Bolsonaro seria para sempre um político do baixo clero – e o bolsonarismo jamais teria se consolidado – se a classe média brasileira, movida por um sentimento golpista, não tivesse idos às ruas em 2016 para retirar uma presidenta democraticamente eleita com quase 60 milhões de votos, sem que houvesse motivo para o impeachment. Com a destituição de Dilma Rousseff, o cenário político ficou desestabilizado. Aliado a isso, um juiz sem conhecimento jurídico e sem vocação, usou uma operação contra corrupção para satisfazer projetos pessoais. A Operação Lava-Jato começou bem. Mas terminou dando mais prejuízo ao erário do que o dinheiro desviado. E esse juiz, que rasgou a toga, fazendo conluio com o MPF e tribunais, com o apoio da mídia, quase acabou com a biografia de um líder que era amado pelo povo. Esse é outro problema pois, da mesma maneira que o povo ama, o povo odeia. Muitos passaram do amor ao ódio acreditando nas narrativas da Turma de Curitiba. Votaram em Bolsonaro por vingança.

É verdade que, mesmo usando a máquina pública, desacreditando as urnas eletrônicas, bloqueando estradas para que apoiadores de Lula não chegassem a tempo para votar, tentando um golpe de Estado, Bolsonaro foi defenestrado do poder. Lula ganhou as eleições de 2022. Desde janeiro, está conseguindo promover projetos sociais e econômicos importantes, com muita dificuldade, já que a composição do Congresso Nacional é a mais reacionária da História do Brasil. Lula ganhou de Bolsonaro. Agora, juntamente com todo democrata, deve vencer o bolsonarismo. Difícil missão, mas não é impossível para um menino que saiu de Pernambuco aos 7 anos em um “pau de arara” e, com muita dificuldade, se alfabetizou, se tornou metalúrgico e ocupa pela terceira vez o Palácio do Planalto. Euclides da Cunha disse que “O sertanejo é antes de tudo um forte”. Sejamos todos sertanejos para que nossa democracia triunfe!

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