JAIRZINHO PAZ E AMOR?

Cris Couto

O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, anulou, monocraticamente, no dia 08 de março, todas as condenações impostas pela Justiça Federal do Paraná ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato. Com tal decisão, Lula recuperou os direitos políticos e se tornou elegível – ao menos momentaneamente. O presidente Bolsonaro, ao ser questionado sobre a decisão do ministro Fachin disse que “Qualquer decisão dos 11 ministros é possível você prever o que eles pensam e o que botam no papel. O ministro Fachin tinha, sempre teve uma forte ligação com o PT, então não nos estranha uma decisão neste sentido”. É certo dizer que Fachin quis ajudar o Lula? Não! Apesar de Fachin ter sido indicado ao STF pela ex-presidente Dilma Roussef (PT), não é certo dizer que há uma forte ligação ou apreço entre o ministro e o Partido dos Trabalhadores. Aliás, há tempos que Fachin assumiu o papel de defensor da Lava Jato. Na verdade, o ministro Fachin quis ajudar o ex-juiz Sérgio Moro. Ao anular as condenações de Lula, devido à incompetência territorial do juízo de Curitiba, Fachin quis afastar o julgamento sobre a suspeição de Moro e, com isso, resguardar a imagem do ex-juiz junto à população. O ministro Gilmar Mendes, entretanto, saiu à frente e conseguiu levar à votação o pedido de suspeição. Mas a incompetência territorial, a suspeição e a INCOMPETÊNCIA de Moro é assunto para outro encontro. Lula não demorou a fazer um discurso a toda a nação e, dentre os vários assuntos tratados, posicionou-se favoravelmente à vacina, ao distanciamento social e ao uso de máscaras; criticou Bolsonaro por sua péssima atuação durante a pandemia; e disse que a Terra era plana. O ex-presidente falou várias OBVIEDADES; mas,  na atual situação em que o Brasil se encontra, é necessário repetir algumas obviedades milhões de vezes, pois o negacionismo está realmente assustador! Ficou nítido que Bolsonaro se sentiu ameaçado. Poucas horas após o fim do discurso de Lula, já foi possível identificar alterações no cenário político. Jair Bolsonaro e seus assessores usaram máscaras em um evento público – algo que não acontecia há meses – e o presidente se posicionou favoravelmente à vacina. Flávio Bolsonaro pediu para que seus seguidores no Telegram compartilhassem uma imagem de seu pai com a mensagem “nossa arma é a vacina“. Na habitual live de quinta-feira (11/03), Bolsonaro colocou um globo terrestre na mesa e apareceu de terno e gravata, tentando assumir, assim, uma aparência de presidente. Será que Bolsonaro se tornou “Jairzinho paz e amor”?

Quem nasceu para guerra e para a morte não se sente à vontade com a paz e com a vida! A postura serena de Bolsonaro – e de sua família – não durou nem 24 horas! Já no dia seguinte, o presidente estava sem máscara e criticou duramente as medidas restritivas adotadas pelos governadores, em especial por João Dória (São Paulo) e por Ibaneis Rocha (Distrito Federal). Bolsonaro também criticou os estados que pagam auxílio emergencial a pessoas impedidas de trabalhar durante a pandemia, dizendo à apoiadores no Palácio da Alvorada (12/03): “Pessoal vai devagar, devagar, tirando seus meios, tirando sua esperança, tirando teu ganha-pão, você a passar a ser sustentado pelo Estado. Você viu que tem governador agora falando em auxílio emergencial? Querem fazer o Bolsa Família próprio. Quanto mais gente vivendo de favor do Estado, mais dominado fica esse povo”. O presidente ficou irritado e criticou governadores que criaram programas estaduais de auxilio emergencial! Absurdo! O líder da nação deveria incentivar os demais governadores a seguir esse exemplo, a fim de ajudar a população que passa por dificuldades, a ter uma renda um pouco maior nesse momento de crise! Sem contar o fato de que o benefício do governo federal – sim, aquele cuja iniciativa foi do Poder Legislativo – acabou em dezembro e só deve ser retomado em abril!!! O governo federal e o Congresso Nacional estão discutindo HÁ QUATRO MESES se o auxílio emergencial deve ser retomado e qual o valor a ser pago! Inadmissível! O que as pessoas que estão sem renda devido à pandemia fazem nesse tempo? Morrem de fome?  Deve ser desesperador passar necessidades e ver a alta classe política – que de nova política nada tem – discutir o valor que será destinado ao auxilio emergencial. Só para começar, em dezembro, quando se pagou a última parcela do auxilio aprovado em 2020, já se devia ter definido a retomada do pagamento para janeiro e o valor, que deveria continuar a ser de 600 reais. Ah, mas o governo está quebrado e não pode continuar a pagar esse valor, né? Quem tá quebrado não destina verba para compra de CERVEJA (80 mil unidades), PICANHA (700 toneladas de carne para churrasco), BACALHAU (9 mil quilos de bacalhau e 139 mil quilos de lombo do mesmo peixe), CONHAQUE (660 garrafas) E UÍSQUE (10 garrafas de uísque 12 anos) para as FORÇAS ARMADAS, nem manda uma comitiva para Israel para verificar suposto spray que ainda está sendo testado para a cura da Covid-19. O presidente, que já demonstrou não possuir empatia, falou sobre o novo auxilio emergencial a seus apoiadores (01/03) “Alguns reclamam que é muito pouco. Meu Deus do céu, alguém sabe quanto custa esse auxílio para todos vocês brasileiros? O nome é auxílio, não é aposentadoria”. Sem palavras…

O presidente Bolsonaro, em um evento no Congresso Nacional (11/03) criticou mais uma vez as medidas restritivas adotadas pelo governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que anunciou toque de recolher, para reduzir a circulação de pessoas nas ruas entre 22h00 e 5h00, na tentativa de conter o avanço do vírus. Bolsonaro disse: “Aqui no Distrito Federal, toma-se medida por decreto, de estado de sítio, das 22h00 às 5h00 ninguém pode andar. Uma medida extrema dessa, só eu, o presidente da República, e o Congresso Nacional, poderiam tomar. E a gente está deixando isso acontecer, ficando quietos. Até quando podemos aguentar essa irresponsabilidade do lockdown?”. A afirmação do presidente demonstra total ignorância jurídica, já que o estado de sítio, previsto pelo art. 137 da CF, em nada se compara com as medidas sanitárias para a pandemia, amparadas pela Lei 1.3979/2020, que objetivam única e exclusivamente evitar o colapso da saúde.

Bolsonaro, ainda na live do dia 11/03, com a maior desfaçatez, negou ter desmerecido o coronavírus, bem como afirmou que nunca chamou a Covid-19 de “gripezinha”. Disse o presidente: “Tem pessoas que nos criticam sem qualquer base. ‘Ah, o governo abandonou o tratamento da COVID’, ‘ah, ele é antivacina’, ‘ele falou que era uma gripezinha’. Estou esperando alguém mostrar um áudio ou um vídeo meu dizendo que era uma gripezinha. Estou esperando”.  Ah, presidente, já que o senhor está esperando, lá vai: No dia 20 de março do ano passado, em uma coletiva de imprensa ao lado de outros ministros, no início da pandemia Bolsonaro afirmou “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar, tá ok?”; Em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV, Bolsonaro falou “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico, daquela conhecida televisão.”.

Eduardo Bolsonaro quis demonstrar que sua família nunca foi e nunca será “paz e amor” e, para tanto, deixou sua marca na semana: “Eu acho uma pena, né, (que) essa imprensa mequetrefe que a gente tem aqui no Brasil fique dando conta de cobrir apenas a máscara. ‘Ah a máscara, está sem máscara, está com máscara’. Enfia no rabo gente, porra! A gente está lá trabalhando, ralando“, afirmou o “zero três”, em uma transmissão ao vivo pelo Instagram, no dia 10/03, justamente no dia em que o presidente havia mudado o discurso, usado máscara e defendido as vacinas.  O deputado federal ainda publicou nas redes sociais (12/03) uma foto do Zé Gotinha (símbolo de campanhas de vacinação no Brasil), segurando um fuzil em forma de seringa. Houve, na verdade, dois tuítes: no primeiro, a imagem do Zé Gotinha estava acompanhada da frase “Nossa arma AGORA é a vacina!”. Poucas horas depois, tal mensagem foi apagada; no segundo, a frase era “Nossa arma é a vacina!”. A própria mudança do tuíte corrobora a completa alteração do discurso do presidente que passou de total negacionista para um “defensor” da vacina, curiosamente desde o fim da coletiva do ex-presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.

Ainda sob o “efeito Lula”, Bolsonaro mudou o ministro da saúde. No domingo (14/03), chamou para conversar a cardiologista e intensivista, Dra. Ludhmila Hajjar, porém, sem êxito. A cardiologista deixou bem claro que pautas defendidas pelo governo federal, como tratamento precoce (cloroquina) não funcionam. Também esclareceu que, por vezes, é necessário o lockdown. O presidente disse: “Você não vai fazer lockdown no Nordeste para me foder e eu depois perder a eleição, né?”. Diante da recusa (e do espanto) da Dra. Ludhmila, Bolsonaro acabou nomeando o Dr. Marcelo Queiroga, que, segundo o presidente “tem tudo, ao meu entender, para fazer um bom trabalho, DANDO PROSSEGUIMENTO A TUDO QUE O PAZUELLO FEZ ATÉ HOJE NO TOCANTE DAS VACINAS” (!).

Jair Messias Bolsonaro jamais conseguiria manter o personagem de “Jairzinho paz e amor”, visto que as próprias bandeiras que defende demostram a agressividade de sua personalidade e de seu projeto de poder. Pelo menos Bolsonaro foi coerente, pois um presidente que incita o ódio e a divisão da população, que governa com base em fake news, que defende a tortura e exalta torturadores, que acha normal mulher ganhar menos que homem, que é homofóbico e racista, que é contra índio, que não preza pelo meio ambiente, que defende o período militar e a volta do AI-5, que bate continência à bandeira norte-americana, que não sabe que o Estado é laico, que não se preocupa com seu povo durante a pandemia, que menospreza e ataca a imprensa, que representa a velha política, que quer armar a população, que não se empenha em comprar imunizantes para salvar a vida de brasileiros, jamais poderá mudar a sua essência mesquinha. Ressalte-se que toda essa tentativa frustrada de alterar discursos macabros deu-se na semana em que o Brasil marcava recordes de mortes pela Covid-19, chegando a quase 280 mil mortos. Que Bolsonaro jamais será “paz e amor” já se sabe, mas o que resta saber é até quando os brasileiros continuarão morrendo devido à incompetência do governo federal.

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